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Marechal

Suporte de doulas se populariza e assistência a gestantes tem sido cada vez mais frequente em Marechal Rondon

calendar_month 2 de abril de 2022
12 min de leitura

O parto é um momento único na vida da mulher. Depois de cerca de nove meses de ansiedade, finalmente mãe e filho têm um encontro especial. Por outro lado, muitos tabus rondam o ato de parir e a experiência pode ser maculada devido à desinformação.

Nesse nicho surgem as doulas, responsáveis por prestar suporte informacional, físico e emocional às mulheres durante o processo gestacional. Em Marechal Cândido Rondon, um dos nomes mais proeminentes do ramo é o de Gilvana Machado Costa, mais conhecida como doula Gil Costa, que atua há mais de seis anos na área.

“A doula orienta e presta um auxílio informacional durante a gestação. Começa antes do bebê nascer com uma preparação para o parto, explicações à gestante sobre o que é a fisiologia, o que é normal e o que não é em um parto, o que precisa ter no acompanhamento de pré-natal até a escolha de profissionais que proporcionem o parto humanizado”, declarou ao Jornal O Presente, reforçando que se doula fosse remédio, seria um erro não receitar: “Está evidenciado que a doula melhora o desfecho e a satisfação da família com relação à experiência do parto. Também melhora os índices de cesariana e de intervenção no nascimento. É uma recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) e está previsto nos manuais do Ministério da Saúde que a mulher tem direito ao acompanhamento de uma doula”, lembra.

 

Partos humanizados

Uma das frentes de atuação das doulas é a humanização da assistência à gestante. Gil explica que esse é um conceito que vem sendo incorporado na saúde de modo geral, uma vez que pressupõe um cuidado individualizado, olhando para cada um a partir das necessidades individuais. “O parto humanizado pressupõe um tripé: o protagonismo da mulher, o que significa que ela tem consciência, está informada e empoderada da experiência que vai viver; em segundo seria uma equipe multidisciplinar que compartilha com a mulher as decisões a serem tomadas; e, em terceiro, ações pautadas na evidência científica”, pontua.

Conforme a doula, uma mulher que tem um parto humanizado conta com assistência de uma equipe multidisciplinar, está segura, ciente e informada.

 

Local x humanização

O parto humanizado não é um tipo de parto, mas, sim, a assistência dada no nascimento, frisa a profissional, emendando que existe certa confusão na distinção entre o tipo/local de parto e a assistência. Segundo ela, há quem pense que parto humanizado refere-se aos nascimentos que acontecem em casa ou na água, mas esses são apenas os locais do parto.

“O local de nascimento não tem relação com a humanização e a mulher tem o direito de escolher onde quer ter seu bebê. A humanização, por sua vez, é a assistência que tem que ser dada, considerando o tripé do protagonismo, equipe humanizada e evidências científicas”, reforça, observando que até a cesariana, em casos em que há indicação, pode ser feita de modo humanizado.

 

Mãe e filho tratados com respeito

O parto humanizado garante à mãe e ao filho o respeito que ambos merecem nesse momento tão importante, evidencia Gil. “Uma equipe multidisciplinar atualizada, composta por vários profissionais, como doula, obstetra, enfermeiro, pediatra, nutricionista, fisioterapeuta e outros, faz com que o nascimento seja seguro e, de acordo com a ciência, proporciona a melhor experiência para a mulher e o bebê. Com esse apoio qualificado, o recém-nascido tem uma recepção tranquila, sem pressa e apenas aproveita o colo da mãe, que também foi respeitada no seu trabalho de parto”, relata.

Nesse modelo de assistência, o bebê é acolhido e, se estiver tudo certo, fica o tempo que for preciso no colo da mãe. “Ele pode receber o que precisa ou o que a família aceitou que ele receba, como a vitamina K e a vacina. Contudo, não precisa ser imediato. O primeiro vínculo que o bebê precisa ter no nascimento é com a família”, afirma.

 

Mudanças baseadas na ciência

Gil destaca que muitos procedimentos antes feitos tiveram suas supostas justificativas refutadas cientificamente e não devem mais ser realizados, sendo que a doula orienta a mulher e o acompanhante quanto a essas práticas.

Segundo ela, o recém-nascido não precisa ser banhado nos seus primeiros momentos de vida, como se praticava. “Ele nasce envolto em uma geleia natural para proteção. Trata-se de uma camada de gordura que vai ser absorvida pelo corpo do pequeninho. A recomendação é esperar 24 horas para o primeiro banho. O bebê também não precisa ter colírio aplicado sem necessidade. Em detrimento disso tudo, ele vai mamar na primeira hora”, menciona.

A doula também menciona a episiotomia como uma prática que por muito tempo foi considerada de ajuda às mulheres. Em linhas gerais, o termo refere-se ao corte feito no períneo da mulher com a justificativa de auxiliar a saída do bebê e “controlar” a mutilação. “Ao invés de lacerar naturalmente, faziam o corte, porém não se viu melhoras no desfecho do parto e, além disso, mulheres que sofriam a episiotomia tinham chances de aumentar ainda mais o corte com a pressão da cabecinha do bebê nascendo. O corte gera uma laceração de grau três ou quatro, porque acomete vários tecidos; por outro lado, fisiologicamente, algumas mulheres teriam lacerações de períneo de grau um e dois ou, na sua grande maioria, não teriam laceração”, compara.

Também a posição da mulher na hora de dar à luz nem sempre a favoreceu, considerando que a gestante era colocada deitada de barriga para cima e tinha o cóccix pressionado, o que diminui a passagem. “Muitas vezes o médico ficava sentado confortavelmente e a mulher era exposta nessa posição para que esse médico conduzisse o nascimento. Faziam a episiotomia e a manobra de Kristeller, que é ‘empurrar a barriga’ e tem o potencial de fraturar a costela, machucar os bebês e deixar hematomas nas mulheres. Imagina você deitar e empurrar uma coisa grande para fora: não tem lógica, vai contra a gravidade e contra nossa fisiologia”, enfatiza.

 

Realidades cruéis

As práticas eram utilizadas para acelerar o parto e sob o discurso de que eram benéficas, no entanto Gil reforça que infringiam a ciência e iam contra a natureza do corpo da mulher. “Ainda hoje isso acontece em algumas instituições, porque os profissionais não se atualizam. É algo muito cruel de se ver. É um pacote de intervenções desnecessárias que não respeitam as mulheres”, lamenta.

Ela salienta que o parto evoluiu pautado em evidências científicas, mas o entendimento sobre papel da mulher nesse momento também acabou mudando. “Quando o parto acontecia nas casas, as parteiras, geralmente mulheres, eram chamadas para ver o nascimento. Quando passou para o ambiente hospitalar, a partir dos anos 40 no Brasil, passou a ser o homem obstetra. Dizem que o médico vai ‘fazer’ o parto, mas na verdade quem faz é a mulher. Hoje a gente tem clareza e entendimento disso. O profissional está ali apenas para receber o bebê e assistir quando necessário”, expõe.

 

Procura aumenta

As mulheres têm tomado consciência de seus direitos como gestantes e cada vez mais procuram assistência especializada para seus partos. “No começo eu atendia duas ou três gestantes anualmente. No último ano eu atendi 58 mulheres, sendo 60 bebês, porque duas mamães esperavam gêmeos. Há casos em que eu não acompanho o parto todo, mas, sim, a indicação final”, comenta, acrescentando que durante seus seis anos de atuação atendeu mais de 160 nascimentos. “Os atendimentos cresceram consideravelmente com o passar do tempo, fora a assistência que também ofereço como consultora em amamentação. A gente acaba atingindo um número ainda maior de famílias por conta das consultorias”, pontua.

Doula, educadora perinatal e consultora em aleitamento materno, Gil Costa: “Para mim é um privilégio acompanhar cada nascimento, estar ali e fazer parte dessa equipe de assistência. Vemos aquele ser humano pela primeira vez no colo dos pais e sabemos que ele foi recebido com respeito, tranquilidade e não foi tratado como se fosse mais um nesse mundo. Cada um é único” (Foto: Divulgação)

 

 

Integração entre doula e família gera bons momentos

O casal Adriane e Eduardo Vorpagel teve a gestação planejada e acompanhada pela doula Gil Costa e equipe multidisciplinar. O contato começou antes mesmo da rondonense engravidar. “Fiz contato com a Gil Costa para entender melhor sobre as possibilidades de parto e ficamos muito felizes com o atendimento dela. Foram várias ‘entrevistas’ e desde logo optamos por tentar o parto natural. Meu médico, que nos acompanhou antes e durante a gestação, nos deu todo o suporte para que isso acontecesse”, relembra ela.

O pequeno Joaquim veio ao mundo no dia 20 de junho do ano passado, na madrugada mais fria de 2021 e oito dias antes do esperado. A mamãe conta que o parto foi humanizado e respeitoso, tendo apenas o casal, a doula e o médico no quarto. “Logo depois de nascer ele foi direto para o meu colo. Foi a coisa mais linda que já vi na vida. Ele nos olhando e se acalmando conforme ouvia a nossa voz. Me emociono ao pensar naquela madrugada”, enaltece.

A interação entre mamãe e doula foi essencial para toda a vivência da gestação. “Ela fez valer tudo o que eu queria para aquele momento. Sabia dos meus interesses e minhas preocupações. Dentre elas, que eu gostaria que meu esposo cortasse o cordão umbilical, como aconteceu”, relembra.

 

“Acreditei no meu instinto”

Quanto aos tabus que cerceiam o parto, Adriane diz que o nascimento do Joaquim transcorreu de forma natural. Ela queria o parto normal e não tinha contraindicações, ao mesmo tempo em que se munia de informações e se cuidava emocional e fisicamente. “Não tive medo em nenhum momento, pois entendi que dentro das minhas condições o parto normal era possível. Acreditei no meu instinto e sempre tive comigo que não é o parto que transforma uma mulher em mãe, é seu carinho, seu amor, seu instinto único, indiferente do jeito que seu filho nascerá, ou sequer se nasceu de você. Portanto, caso não acontecesse o parto natural estava ciente que a cesariana se transformaria no parto ideal”, pontua.

Eduardo Vorpagel e Adriane com o pequeno Joaquim em seus primeiros instantes de vida: “Foi a coisa mais linda que já vi na vida. Ele nos olhando e se acalmando conforme ouvia a nossa voz. Me emociono ao pensar naquela madrugada” (Foto: Divulgação)

 

 

Profissão é regulamentada pelo Senado

Gil é mãe de Maria Rosa, de oito anos, e de Pedro, de seis anos. Ao O Presente, ela conta que as vivências que teve no parto, assim como relatos de familiares próximos, levaram-na a tonar-se doula.

Depois de conhecer as experiências da própria mãe em ter quatro filhos de parto natural e os relatos de sofrimento da irmã sobre cesarianas, ela tinha confiança no parto normal e queria ter sua primeira filha assim. Com poucas informações, mas munida desse desejo, ela ficou frustrada quando seu médico lhe deu uma guia para marcar a cesariana. “Não tive respeito do profissional. Entrei em trabalho de parto com informações vagas e não quis chamar o meu médico, porque ele queria que eu marcasse a cesariana. Fui para o plantão e o outro médico também não respeitou que eu evoluísse o trabalho de parto. Simplesmente me levou (à cesariana) com a justificativa de que teria uma cirurgia no dia seguinte e não podia esperar. Esse foi o argumento da minha cesariana: não era porque meu bebê não estava bem ou outro motivo, foi por questão de agenda. Isso me fez sentir certa impotência por não conseguir pegar minha filha logo após o nascimento e não saber o que foi feito com ela”, relembra.

A primeira experiência fez com que Gil agisse diferente com o segundo filho, buscando grupos de apoio, profissionais qualificados e informações. “Foi um divisor de águas. Decidimos ter um parto domiciliar planejado e que o Pedro nasceria em casa. Assim se fez. Fui julgada por parir em casa, uma coisa considerada antiga, ainda mais porque meu pequeno era grande, com 4,470 quilos e 53 centímetros. Meu parto em casa foi um dos primeiros daqui com essa assistência e gerou curiosidade. As pessoas me procuravam para saber como foi”, conta.

 

Ser suporte para outras mulheres

A rondonense teve duas enfermeiras obstétricas e uma doula no nascimento de Pedro. “Esse olhar totalmente focado em nós me encantou. Percebi que queria ser aquilo que a minha doula foi para mim. Queira ser suporte para outras mulheres”, enaltece.

Assim foi e ainda em 2016 ela iniciou a formação como doula. Deixou “de lado” a formação de mestre em História e o mundo de dar aulas. “Para mim é um privilégio acompanhar cada nascimento, estar ali e fazer parte dessa equipe de assistência. Vemos aquele ser humaninho pela primeira vez no colo dos pais e sabemos que ele foi recebido com respeito, tranquilidade e não foi tratado como se fosse mais um nesse mundo. Cada um é único”, enfatiza.

 

Reconhecimento

Em meados deste mês, o Senado aprovou o projeto de lei nº 3.946/2021, que regulamenta a profissão de doula. O projeto será apreciado na Câmara de Deputados, mas seu avanço já é comemorado. “Ter essa notícia da profissionalização da doula pelo Senado tem uma importância muito grande”, assegura Gil.

 

Percalços e vitórias

Ela ressalta que, apesar do reconhecimento, as doulas ainda lidam com alguns problemas para fazer seu trabalho. “Alguns médicos simplesmente dizem que não atendem com doula, no que você vê que falta conhecimento de que a doula é um suporte para a mulher. Não estamos lá para questionar a conduta do médico que tá assistindo essa mulher, mas, sim, informar essa mulher antes, preparar o casal e o acompanhante. A gente lida com a ciência, mas alguns profissionais pensam que estamos ali para interferir. Existe esse preconceito ainda”, critica.

Por outro lado, o suporte informacional que a doula proporciona auxilia a mulher em suas escolhas referentes ao parto e pode contribuir à diminuição das cesarianas, uma cirurgia de grande porte que deveria ser realizada apenas com indicações. “Nos partos brasileiros feitos na saúde suplementar, praticamente 90% são cesarianas, enquanto no SUS (Sistema Único de Saúde) esse índice chega a 50%. Vemos uma banalização dessa cirurgia como algo simples e rápido, quando, na verdade, existe uma série de riscos inerentes ao processo. Falta conscientização sobre o que é a cesariana para que se mantenha em 10% a 15% do percentual, que é o indicado”, salienta.

 

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