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Marechal Villa Franca

Tragédia com navio argentino que passaria em Porto Mendes completa 100 anos

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(Foto: Divulgação)

Há 100 anos e alguns dias, as águas do Rio Paraná foram cenário de uma das maiores tragédias da navegação comercial da região. Cerca de 40 pessoas morreram afogadas ou queimadas após a explosão do navio a vapor Villa Franca, que levaria seus passageiros a Porto Aguirre (atualmente Puerto Iguazú) e deixaria trabalhadores em Porto Mendes Gonçalves (hoje Marechal Cândido Rondon).

Para relembrar essa história, a reportagem de O Presente ouviu o coordenador do Projeto Memória Rondonense, historiógrafo Harto Viteck, que revelou detalhes sobre o ocorrido no Alto Paraná, fato que completou seu centenário recentemente.

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Coordenador do Projeto Memória Rondonense, historiógrafo Harto Viteck: “Mesmo passados 100 anos, a tragédia com o Villa Franca continua viva entre as famílias de Posadas e Corrientes, que perderam seus entes queridos nessa catástrofe sem precedentes no Alto Paraná” (Foto: Raquel Ratajczyk/OP)

 

Navegações no Rio Paraná

O tráfego de embarcações no Rio Paraná começou no século 20 e teve atividade intensa até 1940, quando navios a vapor levavam mercadorias e passageiros. “Grandes vapores faziam o trajeto do antigo Porto Mendes Gonçalves (no atual município de Marechal Rondon) a Posadas ou outras cidades portuárias argentinas ao Sul, ao longo do curso do Rio Paraná, e vice-versa”, conta Viteck, mencionando que muitos acidentes aconteceram nas quatro décadas do auge da atividade, mas nenhuma se compara à tragédia de Villa Franca.

Segundo ele, as navegações no Rio Paraná eram efeito do mercado da erva-mate e da madeira, que enriqueceu empresários da Argentina, Paraguai e Brasil. “Endinheirados e ávidos para potencializar cada vez mais seus negócios, os ricos pretendiam ampliar o extrativismo predatório aos ervais do Paraná, às imensidões no atual Mato Grosso do Sul e do Paraguai”, pontua.

 

Ciclo econômico da erva-mate

O primeiro soque de erva-mate no Paraná data de 1821 e, instalado em Paranaguá, pertencia ao argentino Francisco de Alzagaray, que exportava o produto para seu país de origem. “Com o mercado em franca expansão no país vizinho e gradativo crescimento no consumo interno, a partir de 1850 foram implantados em Curitiba e região dezenas de moinhos de beneficiamento de erva-mate. Surgia, assim, o ciclo econômico da erva-mate”, enfatiza o historiógrafo.

Com a erva-mate “em alta” e bons ventos para a comercialização de madeiras, empresários estrangeiros instalados em Posadas, Misiones – Argentina, se lançaram numa corrida desenfreada na exploração predatória dos ervais no Alto Paraná e parte Sul do Paraguai. “Sedentos em aumentar seus lucros com o mercado ervateiro-madeireiro e favorecidos pela legislação permissiva federal e estadual, empresários posadeños e da Capital argentina começaram a requerer concessões de áreas de terras no Oeste do Paraná para extração de erva-mate e madeiras de lei”, relembra.

A partir daí, a empresa Nuñez e Gibaja requereu a área do Lopeí, negociando-a posteriormente com Teodoro Amadeo Soldati; Domingo Barthe ganhou concessão na região de Cascavel; a Compañia de Maderas del Alto Paraná dominou a área da Fazenda Britânia; e a Cia. Matte Larangeira recebeu em concessão a margem esquerda do Rio Paraná, de Guaíra a Porto Mendes. “A exceção foi o empresário Julio Tomaz Allica, que requereu duas áreas de terras de pequeno tamanho, sendo uma à margem do Rio Paraná, onde instalou a sede de seu empreendimento ‘Puerto Artaza’ e local da residência principal, e outra às margens do Rio Piquiri, mediante o compromisso de tornar carroçável o caminho da foz do Rio São Francisco até o Rio Piquiri”, expõe Viteck.

Produtor de erva-mate no Oeste do Paraná e proprietário do vapor Villa Franca, argentino Julio Tomaz Allica (Foto: Acervo Projeto Memória Rondonense)

 

Da erva-mate à navegação

Os negócios com erva-mate e madeira se tornaram tão prósperos que alguns dos empresários investiram em grandes vapores para o transporte de passageiros e cargas, além da erva-mate cancheada, que ia para os moinhos de beneficiamento na Argentina, via Rio Paraná. “O empresário Domingo Barthe, francês imigrado para Posadas, teve mais de uma dezena de vapores navegando em águas do Rio Paraguai e do Rio Paraná. O navio ‘Espanha’, da firma Nuñez y Gibaja, foi a primeira grande embarcação que navegou o Rio Paraná acima de Tacurú Pucú, hoje Hernandarias, Paraguai, até o ponto máximo de navegabilidade possível, sem correr riscos, antes das Sete Quedas, o extinto Porto Mendes Gonçalves”, detalha.

 

Alta sociedade a bordo

Empresário que apostou no Oeste, Allica possuía um navio a vapor de 126 toneladas, com muito luxo a bordo da primeira classe, chamado de Villa Franca. “A embarcação saiu do Porto de Posadas no começo da tarde do dia 03 de junho de 1922, um sábado, levando passageiros de famílias tradicionais de Corrientes e de Posadas, com destino ao Porto Aguirre (hoje Puerto Iguazú), para conhecerem as Cataratas do Iguaçu e serem os primeiros hóspedes do Hotel das Cataratas, do lado argentino. Entre os turistas estava o casal Fernando Pampín e Ana María Meabe, filhos das famílias mais ricas de Corrientes, que comemoravam a lua de mel. Na companhia dos recém-casados estavam duas meninas, uma irmã da noiva e outra sobrinha”, conta.

A bordo do Villa Franca estavam 30 tripulantes e cerca de 120 passageiros, entre turistas viajando na 1ª classe e trabalhadores na 2ª classe que, certamente, tinham como destino o empreendimento de Allica. No comando da embarcação estava o experiente capitão Roque Chácon. “De Posadas, o Villa Franca atravessou o Rio Paraná até o Porto de Encarnación, no Paraguai, para embarcar mais passageiros e iniciar a viagem para Porto Mendes Gonçalves. No trajeto, havia várias paradas previstas para subida ou descida de passageiros e carregamento ou descarregamento de mercadorias. A viagem seguia tranquila”, relata Viteck, que realizou pesquisas sobre o fato histórico.

Vapor Villa Franca com destaque ao capitão Roque Chacón (Foto: Acervo Leó Duarte – Posadas/Argentina)

 

Incidente na madrugada

Cerca de 90 quilômetros além do ponto de partida, por volta da meia-noite, o Villa Franca fundeou próximo a Honenau, Paraguai, para carregar bolsas de milho enquanto os passageiros dormiam em suas cabines (ou alojamento, no caso dos trabalhadores). “Sentindo forte cheiro de gasolina, um dos sentinelas do navio tomou, displicentemente, uma lâmpada e foi até o compartimento da embarcação, onde se encontravam armazenados dezenas de tambores do combustível com um volume aproximado de 10,2 mil litros, destinados ao Hotel das Cataratas”, menciona o historiógrafo.

Tão logo houve o contato da chama da lamparina com o vapor da gasolina, o fogo explodiu e desencadeou uma situação de desespero entre os tripulantes. “A maioria dos viajantes conseguiu se salvar, com uso de boias salva-vidas. Neste cenário de pânico, entrou em cena a figura de Nemesio Celestino Parma, um suboficial da Prefeitura de Posadas que seguia com o Villa Franca para fazer o controle de embarque e desembarque de passageiros. Diante do quadro de caos no vapor, Parma tomou para si a organização da evacuação e salvamento, ajudando pessoas a chegarem em terra”, aponta o rondonense.

 

Herói em alto mar

Viteck conta que Parma, inclusive, deu seu próprio salva-vidas para uma senhora alcançar a margem. “Quando retornava ao navio em busca de mais passageiros, no entanto, aconteceu a grande explosão, que partiu a embarcação ao meio e fez as águas do Paraná arderam em fogo com a gasolina que se espalhou na superfície. O estouro aconteceu por volta das 01h30 da madrugada e causou a morte por queimaduras ou afogamentos de cerca de 40 pessoas, entre elas o casal de noivos, as acompanhantes da noiva e o próprio Nemesio Parma”, comenta.

Em reconhecimento ao heroísmo do suboficial, a cidade de Posadas homenageou Nemesio Parma dando o seu nome a um bairro próximo ao aeroporto da cidade. “A Marinha argentina concedeu pensão vitalícia à viúva para não ficar na indigência. O proprietário do navio não estava a bordo, mas sentiu as consequências da tragédia. Além da perda do navio, revoltosos paulistas bombardearam as instalações do empresário argentino em Puerto Artaz. Allica foi atingindo por duros golpes em seu próspero negócio de ervateiro independente, dos quais nunca conseguiu se recuperar 100%”, informa o historiógrafo.

Suboficial que fazia o controle de embarque e desembarque de passageiros no Villa Franca, Nemésio Celestino Parma tornou-se o herói da tragédia (Foto: Acervo Leó Duarte – Posadas/Argentina)

 

Centenário da tragédia

“Mesmo passados 100 anos, a tragédia com o Villa Franca continua viva entre as famílias de Posadas e Corrientes, que perderam seus entes queridos nessa catástrofe sem precedentes no Alto Paraná”, ressalta Viteck.

Após 1940, a navegação no Rio Paraná foi perdendo a popularidade, uma vez que o ciclo da erva-mate foi substituído por plantações em larga escala e pela abertura de estradas.

 

O Presente

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