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Marechal

Um ano depois do acidente, professora rondonense vê vitória nos pequenos avanços do dia a dia

calendar_month 20 de outubro de 2020
10 min de leitura

Um ano depois de um acidente inesperado, é com passos lentos e cuidadosos que a professora rondonense Lúcia Sehnem Gauer, de 52 anos, vence as tarefas diárias, sempre com muita força e determinação.

Em setembro de 2019 ela recebeu Menção Honrosa da Câmara de Vereadores de Marechal Cândido Rondon, reconhecendo-a como exemplo no uso da bicicleta como meio de transporte saudável, seguro e ecologicamente correto.

Mais do que um instrumento de lazer, a bicicleta representava para Lúcia um meio de transporte utilizado todos os dias para ir e voltar da escola onde lecionava, no distrito de Novo Horizonte, alcançando a marca de 110 quilômetros por semana. “O carro ficava na garagem e eu ia trabalhar de bicicleta. Além desse trajeto diário realizado há mais de dez anos, eu ainda fazia pedais em grupo e participava do cicloturismo. No começo fazia pequenas distâncias, mas fui aumentando meus números”, declarou à reportagem de O Presente, mencionando que fazia parte dos grupos de ciclismo “Vamos Pedalar” e “Pedalindas”.

Exceto nos dias em que precisava levar materiais para a escola, mesmo com chuva Lúcia enfrentava as estradas junto de sua bicicleta. “Sempre foi uma válvula de escape. Quando eu me sentava na bicicleta e até hoje quando falo nela já fico mais animada”, enaltece.

Marido de Lúcia, Ademir Gauer afirma que a bicicleta era uma das felicidades de sua mulher. “Ela sofreu um AVC há alguns anos e, a partir daí, o cérebro dela não produzia dopamina suficiente para deixá-lo bem. Descobrimos que, junto com a medicação, a adrenalina que o pedal proporcionava compensava aquilo. Na volta do trabalho, ela não vinha em um ritmo calmo, vinha a toda. Parece que quanto mais pedalava e se esforçava, melhor ficava”, conta.

Casados há 33 anos, Lúcia e Ademir Gauer sempre foram suporte um ao outro. Hoje a cumplicidade é ainda maior (Foto: O Presente)

 

MUITO DIÁLOGO

Conforme o marido de Lúcia, em toda a família, é ela quem tem mais gosto pela bicicleta. “Todos gostam, mas ela sempre se destacou. Precisava da bicicleta”, frisa.

O casal relata que, nestes 33 anos de união, o diálogo sempre esteve presente na relação, tanto que os pedais de Lúcia eram negociados com a atenção para a família. “Em 2019, por exemplo, o pessoal do grupo estava planejando um pedal para Itaipulândia no Dia de Nossa Senhora. Eu queria ir, mas em conversa com o Ademir, decidi passar o feriado com a família”, menciona a rondonense.

O marido lembra que por vezes convencia a esposa a não ir em determinados pedais, mas reitera que a bicicleta sempre foi um refúgio para os problemas de Lúcia. “Trinta e seis horas antes do pedal trágico, ela teve uma decepção enorme e o ciclismo foi a solução. Eu tentei conversar para ela não ir, mas acabei relevando, porque era visível o quanto ela estava feliz, esquecida da dificuldade, só de pensar em ir naquele percurso”, expõe Ademir.

 

IRONIA DO DESTINO

Lúcia garante que as negociações com o marido serviam para fortalecer a relação e que não ficava brava quando ele sugeria para ela não participar de determinado pedal. “No pedal de Itaipulândia, que foi quando ocorreu o acidente, foi a primeira vez que decidi participar mesmo com ele dizendo não. Na sexta-feira, um dia antes do pedal, todos diziam que eu estava mais feliz que normalmente, quase como se eu estivesse me despedindo”, afirma Lúcia, que retoma as lembranças do fatídico dia por meio de conversas com os outros ciclistas participantes do grupo.

Com média de 220 quilômetros, ida e volta, o percurso seria uma distância inédita para Lúcia. “Ela sempre usava o Strava e durante o percurso o aplicativo registrou que na subida que antecede Pato Bragado ela bateu o recorde de velocidade dentre tantas outras vezes que passou por ali. Logo depois dessa subida, o aplicativo marcava cerca de 40 quilômetros por hora, o que nem é tanto assim, mas a marcação foi diminuindo, diminuindo até cessar”, relata Ademir, que acessou o aplicativo da esposa para entender o que se passou nos minutos que antecederam o acidente, por volta das 05h30 da madrugada do dia 12 de outubro de 2019.

 

APAGÃO

Sem grandes arranhões em Lúcia e nem na bicicleta, o grupo de ciclistas que a rondonense havia deixado para trás logo a encontrou caída no asfalto. “Não teve um acidente de fato. Ninguém pode garantir o que aconteceu. Parece que foi algo do nada, quase como um desmaio”, comenta Lúcia, que se inteirou das circunstâncias apenas alguns meses depois do ocorrido.

Segundo relatos de quem a encontrou, Lúcia estava apagada e caiu de cara para o asfalto, sem tentar se defender com as mãos, como é de praxe. “Imaginamos que ela tenha se sentido mal, tanto que até tentou tomar água, porque o cooler estava caído e ele não sai fácil da bicicleta”, salienta o marido.

 

PRIMEIRAS SUPERAÇÕES

“Dizem que quando eu estava lá, esperando alguma ajuda, veio um pedaleiro que ninguém sabe dizer quem é e fez uma manobra na minha barriga, fazendo com que eu conseguisse respirar”, menciona Lúcia.

O socorro veio direto do município de Pato Bragado, local em que a fé já entrou em ação, afirma Ademir, considerando que o médico que a atendeu era especialista em traumatismos. “De pronto, os profissionais deram medicações urgentes que foram muito importantes para ela naquele momento para conter o inchaço cerebral. De Pato Bragado ela foi trazida para o Hospital Rondon e realizou uma tomografia. O médico já nos alertou que o caso era gravíssimo e que a Lúcia estava estrando em coma. Era meio-dia, ela já estava alocada no Hospital Bom Jesus, em Toledo, e entubada, sem respirar”, rememora o marido.

Quase entrando em morte cerebral, Lúcia passou 11 dias no pior grau da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e depois de mais 17 dias ela saiu do coma.

Bicicleta utilizada no dia do acidente ainda está na casa da família, agora de pneus murchos e sem uso (Foto: O Presente)

 

ALTA MÉDICA

Durante a estada no hospital, a rondonense adquiriu uma pneumonia do ambiente, cabendo ao marido assumir a responsabilidade de ministrar ou não uma medicação perigosa. “Faria com que a pneumonia não se agravasse, mas poderia trazer riscos ao tratamento. Não havia jeito, ela tomou a medicação”, relembra.

Antes do acidente, Lúcia já tomava medicações para prevenir o AVC, contudo, o tratamento convergia às substâncias tomadas para o traumatismo, fazendo com que ela tivesse convulsões e mais dois AVCs em seu internamento.

Devido às complicações que surgiam no ambiente hospitalar, a rondonense ganhou alta médica, sob algumas condições. “Eu ainda estava na maca, entubada e com o lado esquerdo paralisado. Precisei de um mini hospital em casa, usava sondas, fraldas, recebia visita médica uma vez por semana e uma enfermeira me acompanhava 24 horas por dia”, conta Lúcia.

Segundo o marido, nos primeiros 45 dias a esposa estava em estado de delirium. “Quando o cérebro sai do coma profundo ele fica confuso até voltar à ativa. Precisava ficar amarrada nos pés, pernas e troncos, porque senão arrancava tudo o que estava ligado a ela”, rememora.

 

SEQUELAS

De acordo com os médicos, a parte física de Lúcia estava se recuperando bem, o que comprometia eram os movimentos, a parte neurológica. “Os médicos dizem que ela teve seis situações potencialmente fatais que foram superadas, dentre estas dezenas de microlesões no cérebro que frequentemente levam à morte. Hoje em dia ela não pode mais cair, sofrer choques físicos ou chacoalhar, porque não tem mais elasticidade no cérebro”, expõe o marido.

Ao longo da recuperação da capacidade de locomoção e livre das sondas, Lúcia percebeu que sua visão também havia sido prejudicada. “Conforme eu conseguia fazer mais coisas, percebia que minha visão, que antes era normal, sofreu com o traumatismo. Hoje eu tenho cerca de 25% da visão e embaçada. É como se eu olhasse por uma janela, não tenho mais a visão periférica”, lamenta.

A memória da rondonense também foi prejudicada pelo acidente. “A memória longa se manteve, mas houve um dano passageiro na memória curta desde o acidente e está se recuperando até agora. A memória média, de um ano para trás, foi apagada”, aponta o marido, que, aos poucos, retoma lembranças com a esposa.

Lúcia conta um fato peculiar dessa perda de memória. “Eu tenho alguns flashes, mas já percebi que geralmente são coisas tristes ou desagradáveis que eu não lembro”, ressalta ela, que desde dois meses após o acidente tenta recuperar as memórias perdidas.

Comprometida, Lúcia Sehnem Gauer aproveita cada minuto do seu dia para melhorar. Durante entrevista ao O Presente, a rondonense não deixou de lado seu exercício para circulação (Foto: O Presente)

 

RECUPERAÇÃO

Pouco a pouco, um passo de cada vez, ela se recupera do acidente, sempre se empenhando em melhorar sua condição. “Eu perdi o olfato e o paladar, hoje já recuperei. Faço de tudo que posso para melhorar e já estou conseguindo certa dependência. Cuido dos serviços domésticos novamente e é o que me ocupa hoje em dia”, frisa ela, que durante toda a entrevista não deixou de fazer exercícios para recuperar a circulação do corpo.

Desde o acidente, Lúcia está afastada da sala de aula, de licença para realização de tratamento.
Ademir diz que sua esposa até hoje continua ligada no “220”. “Ela sempre arruma o que fazer, algo com que se ocupar, tanto que vai a pé para as consultas”, compartilha.

Questionada sobre sua relação com o ciclismo, Lúcia se enche de incertezas. “Faz um ano que sofri o acidente. Eu era uma pessoa que fazia muito e hoje é difícil me ver desse jeito. Mesmo assim, eu paro e penso em tudo o que passei e se estou aqui é uma vitória. Sei que tenho limitações, mas vou redescobrir outras maneiras”, responde.

Se por um lado, comenta a rondonense, há muitas sequelas que a impeçam ou que aumentem os riscos de seu reencontro com a bicicleta, ela hoje vê a felicidade em coisas menores.

 

FUTURO

De acordo com Lúcia, seu caso virou modelo para os médicos da região, pois muitas pessoas passam por uma das complicações que ela passou e, quando se acomodam, o quadro não evolui. “Devo ter uma missão muito grande aqui, porque tantas vezes estava lá e voltei. Devagarzinho eu vou me recuperando, cada avanço é uma conquista”, comemora.

O marido pondera que daqui para frente outras sequelas podem ser descobertas em diferentes graus. “Os médicos falam que temos um ano para recuperar e, claro, daqui para frente os avanços são mais lentos, porém ainda assim possíveis”, acredita.

Lúcia destaca que o que aconteceu não é de modo algum culpa da bicicleta, pois acredita que poderia ter acontecido em qualquer outra circunstância. “Eu sinto como se pesasse 300 quilos, não é fácil ficar em pé, fazer o que faço, mas eu sei que é desse modo que eu vou me recuperar ainda mais”, conclui.

 

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