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Marechal

Uma soldado como qualquer outro

Batom, farda, rímel, pistola, coque no cabelo, algemas. Os detalhes na descrição das características dessas policiais militares não deveriam fazer nenhuma diferença seja apartando uma briga, perseguindo um bandido, segurando uma arma no serviço operacional, planejando ações, atuando como radioperadora ou desenhando estratégias em meio a papéis, canetas e computadores no trabalho administrativo. Entretanto, o simples fato de elas serem policiais mulheres faz toda a diferença. “Mesmo quando as mulheres começaram a ser aceitas na Polícia Militar do Paraná, em 1977, elas não exerciam a atividade fim, eram empregadas apenas em atividades administrativas. Não sei exatamente quando passaram a exercer a mesma função dos homens, mas é recente e obviamente temos dificuldades pelo fato de ser mulher”, explicita a soldado Erica Rodrigues.

Ela, junto de mais cinco soldados, compõe o quadro de policiais militares femininas da 2ª Companhia de Polícia Militar de Marechal Cândido Rondon, que não contava com a presença de mulheres militares desde 2008, quando a cabo Roseli Jussara Schmit aposentou-se. “Independente de sermos policiais, o preconceito de gênero está na sociedade. Em todas as profissões que são predominantemente masculinas as mulheres sentem-se deslocadas em algum momento, sem espaço por ser a minoria, então a nossa dificuldade não é diferente da mulher que é mecânica, por exemplo”, ressalta.

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De acordo com Erica, o primeiro fator que coloca o sexismo em evidência dentro do militarismo é a questão física, pois a maioria das pessoas não vai acreditar na capacidade das mulheres para exercer aquela função devido ao gênero. “Um policial homem as pessoas olham e automaticamente acreditam que ele é competente sem saber quem ele é, de onde veio, quais as experiências… Pelo simples fato de ser homem ele passa essa imagem. Já a mulher precisa mostrar o trabalho dela, conquistar o lugar dela para daí as pessoas darem credibilidade e confiarem que ela é competente”, afirma.

 

Sem ofensa

Enfrentando questionamentos sobre se a arma que carrega ser verdadeira e se fez o mesmo treinamento que os policiais do sexo masculino, Erica observa que muitos desses comentários são feitos sem a intenção de ofender e, na maioria das vezes, a pessoa não percebe que está soando de forma preconceituosa. “Eles também falam sobre a nossa aparência como se ser bonita importa ou não para exercer uma profissão, sendo que independente da aparência você precisa exercer uma profissão”, diz a soldado.

Na visão dela, o fato de Marechal Rondon ser uma cidade interiorana reforça ainda mais este comportamento, já que normalmente nesses municípios o efetivo feminino também é menor. “Já aconteceu comigo de uma pessoa chegar à sede da Companhia e pedir para eu chamar um policial, não tendo a intenção de me ofender ou de ser preconceituosa, mas ela olhou pra mim e automaticamente deduziu que, embora eu estivesse fardada e armada, eu não era uma policial provavelmente pelo fato de eu ser mulher”, relembra.

A soldado Giane Brand relata que o preconceito de gênero é algo comum, mas enfrentado de forma velada pelas policiais. Especialmente pessoas com mais idade e mais conservadores tendem a não aceitar ordens de uma mulher. “É como se eles não quisessem aceitar que uma mulher que tem idade para ser filha ou neta deles tem mais autoridade do que eles”, expõe.

 

Superação

Hoje, as mulheres representam apenas aproximadamente 8% do total do efetivo policial paranaense, derrubando barreiras em uma corporação predominantemente masculina que reflete muito da sociedade civil. A soldado Joselaine de Oliveira, por exemplo, enfrentou dificuldades antes mesmo de chegar a Marechal Rondon: a própria família não acreditava que ela conseguiria se tornar uma policial militar por ser essa uma profissão masculina. “Mas a cada fase eu tinha mais determinação para passar e conclui a formação”, menciona.

Apesar do tempo que o município ficou sem a presença de mulheres na corporação, a soldado avalia que a aceitação das soldados foi boa, porém, impactante. “Nós tivemos que encontrar um meio de trabalhar juntos”, aponta.

Em licença-maternidade, a soldado também comenta que a gravidez não foi problema no âmbito da corporação. Segundo ela, o tratamento sendo policial e gestante foi até melhor do que em sua primeira gestação, quando ainda não era militar. “Tanto os superiores quanto os companheiros faziam questão de ajudar, se preocupavam mais comigo, porque minha função aqui também mudou, já que depois que a policial engravida, ela fica proibida de usar a farda por conta da segurança dela e do bebê”, informa. “Vejo que o preconceito está mais na sociedade do que dentro da corporação”, complementa Joselaine.

A rondonense Larisa Chambely Balko, também soldado, assim como Joselaine considera o militarismo uma superação. “Eu não tinha o perfil de policial, então passei por muitas dificuldades no curso de formação, porque como mulher, feminina, delicada, enfrentei uma realidade totalmente diferente, de superações físicas, psicológicas, restrições alimentares”, descreve.

Ao fim do curso de formação, Larisa conta que recebeu elogios de colegas e superiores, tendo em vista sua determinação para concluir o curso. “Disseram que eu surpreendi com a minha força de vontade. Sentir toda essa situação de superação foi muito impactante, e na verdade a PM é uma superação, porque eu nunca pensei em ser policial, não achava que tinha o dom, mas com o tempo fui me apaixonando e hoje quero seguir carreira”, confidencia.

 

Um policial

Apesar da superação, Larisa protagonizou um dos casos de sexismo que mais chamou atenção dentro da PM. Atuando no Centro de Operações Policiais Militares (Copom) como radioperadora, apesar de já ter passado por situações em que homens ligaram para o 190 e solicitaram o atendimento de um policial após a soldado atender ao chamado, um caso em particular levou a própria PM a registrar um boletim de ocorrência. “Um senhor entrou em contato solicitando atendimento da viatura e eu pedi as informações para que a equipe chegasse preparada para atender a situação. Ele disse então que não iria me passar a informação pelo fato de eu ser mulher, me xingou com palavras de baixo calão, dizendo que não aceitava o fato de ter uma mulher policial e que ele não precisava dar satisfação para mulher nenhuma e que sendo eu policial ou não, para ele mulher não valia nada”, relembra o fato.

O fato foi repassado para o comando da PM e, em um segundo contato com a polícia, o cidadão foi atendido pelo próprio comandante. Posteriormente, Larisa teve contato com o homem, questionando o motivo de tanta rigidez. “Ele disse que não pediria desculpas, mas que na próxima vez teria mais educação”, cita.

Joselaine relembra uma situação em que também teve dificuldades para lidar com um cidadão que buscou atendimento pelo 190. “Ele ligou e queria que eu chamasse um policial para atender, e eu disse ‘você está falando com uma policial’, mas ele queria um policial homem. Levou certo tempo para eu convencê-lo de que ele estava falando com uma policial e que ele podia relatar a situação”, diz a soldado. 

Silvia Maria Chastalo, soldado que atua atualmente na Rádio Patrulha (RPA), destaca que de início enfrentou um pouco de dificuldade assim como as demais soldadas e afirma que há respeito com as policiais femininas nas ruas, entretanto, dificilmente duas soldadas são colocadas para patrulhar juntas. “Geralmente é uma mulher e um homem e, em qualquer situação, as pessoas também se dirigem primeiramente ao policial, o que mostra que nos veem também como mais fracas que o homem”, comenta.

 

Seu lugar

Não somente no âmbito da Polícia Militar, mas em outras forças de segurança, o assédio ainda é um assunto velado, sutil e difícil de ser discutido, especialmente porque poucas querem falar sobre o assunto e, quem denuncia, pode arriscar a carreira por conta da atitude.

Apesar de ser um problema silencioso, uma pesquisa realizada em 2015 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria ao Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) ouviu 13.055 policiais entre homens e mulheres.

Os resultados apontaram que 39,2% das mulheres dizem já ter experimentado assédio moral ou sexual dentro da sua instituição de trabalho – dessas, 74,1% dizem que o assédio partiu de um superior hierárquico. Entre as soldados, contudo, nenhuma delas relatou casos de assédio, tanto moral quanto sexual, ocorridos na corporação. “O que acontece muitas vezes é do pessoal não respeitar a sua presença e acabar comentando determinados assuntos que podem acabar me ofendendo por eu ser mulher, no sentido deles falarem de alguém de forma desrespeitosa. Talvez eles pensem que, como aqui a maioria é homem, eu devo encontrar o meu lugar”, descreve Erica.

A pesquisa desenvolvida apontou que 62,9% das mulheres policiais que responderam ao questionário relataram que já experimentaram pessoalmente comentários inapropriados ou sexuais no ambiente de trabalho.

 

Não tem graça

De outro lado, as soldados também enfrentam comentários inapropriados por parte de civis, as absurdas “cantadas”. “Em uma situação de blitz, um senhor estava com diversas infrações, e minha colega tentava coletar os dados quando ele disparou: ‘dormiu de calça jeans essa noite?’”, relembra Larisa.

Erica diz que, diretamente, as policiais nunca foram assediadas, contudo, sempre ficam sabendo por terceiros sobre comentários desnecessários. “Já aconteceu aquela cantada na rua que acontece com toda mulher, mas nunca fala na sua frente te dando oportunidade de revidar. Eles falam, por exemplo, depois que a viatura já está longe o suficiente para eu ouvir, mas não para eu voltar e tomar uma atitude”, expõe. “Percebemos olhares, cochichos acerca da aparência ou por ser uma mulher policial, mas nenhuma pessoa chegou explicitamente a comentar algo desse tipo, mas nós não deixamos de perceber”, complementa Silvia.

Segundo Erica, as frases “me prende” e “me algema” são as mais comuns de serem ouvidas, porém, não passam de sentenças ridículas e desagradáveis para as profissionais. “Eles olham diferente para a gente. Quando dirigimos a viatura chama muita atenção, não sei se olham de forma pejorativa, como se fossemos bater a viatura, ou no sentido de ‘que mulher’”, aponta Giane. “As mulheres, mesmo civis andando na rua, são assediadas. Não acho uma atitude certa, mas é algo que já estamos acostumadas a vivenciar e não há muito que se fazer”, completa.

Nas ocorrências, os questionamentos surgem sobre a falta de efetivo masculino para atendimento, se as policiais sabem usar a arma ou fazer uma abordagem. “Tivemos um curso de formação durante dez meses e passamos pelas mesmas situações que os nossos colegas, tivemos que ser aprovadas em um curso de instrução de tiro e tivemos que aprender todas as técnicas e como manusear uma arma”, declara Larisa. “Em contrapartida, recebemos muito carinho do público feminino: mulheres mais velhas que nos elogiam dizendo que queriam ser policiais, mas por conta do marido ou da família, que falavam que essa é uma profissão de homem, deixaram de seguir carreira”, conclui.

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