Na data de ontem (1°), movimentos isolados pelo país marcaram o primeiro dia da paralisação de caminhoneiros do Brasil. Anunciada em peso, mas de forma descentralizada nos grupos de WhatsApp da categoria, o movimento de longe não apresenta as mesmas dimensões que obteve em 2018. Mesmo com pouco impacto, representantes afirmam que a paralisação segue por tempo indeterminado.
De acordo com a Associação Nacional do Transporte Autônomo do Brasil (ANTB), a principal reivindicação dos trabalhadores é relacionada ao preço do diesel, que acumulou aumento de 4,4% nas refinarias. Além disso, similarmente ao movimento de três anos atrás, os caminhoneiros pedem uma revisão na Tabela do Piso Mínimo de Frete, responsabilidade da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) – o reajuste anterior não considera a margem de lucro dos motoristas, o custo com pedágio e movimentações logísticas complementares, bem como outros gastos. A categoria exige ainda a implementação do Código Identificador de Operação de Transporte (Ciot), cumprimento da jornada de trabalho e maior fiscalização da ANTT, questões já discutidas e aparentemente conquistadas em 2018.
Organizadores afirmam que 21 Estados da federação aderiram ao movimento, incluindo o Paraná.
MOVIMENTO POLÍTICO
Roberto Correia dos Santos, conhecido como Beto, foi representante dos caminhoneiros de Marechal Cândido Rondon em 2018 e ontem estava em São Paulo, Capital, onde o movimento foi mais expressivo. “Cheguei hoje pela manhã (ontem) e cerca de 20 quilômetros da marginal ao Tietê estava parada. Peguei a via fechada, mas liberaram a passagem, porque eu estava com uma carga perecível”, contou ao O Presente.
Segundo ele, o movimento paulista aparenta ser mais contra o governo estadual do que em relação às reivindicações dos caminhoneiros em geral. “O governador (João) Doria aumentou o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) da carne e os frigoríficos tiveram dificuldades. A paralisação que presenciei aqui em São Paulo é praticamente composta por 90% de motoristas dos frigoríficos do ABC paulista”, relata.
Beto menciona ainda que a paralisação já agiu com violência nesse princípio. “Ainda está no início, aparentemente, e mesmo assim os caminhoneiros que aderiram atiraram pedras nos caminhões que não quiseram parar. Conversei com alguns motoristas ali e, segundo eles, não há adesão a essa paralisação nacional por aqui, até então, é um movimento contra o Doria”, expõe, acrescentando: “Caso feche por total, vai ser complicado para eu voltar para casa”.
ADESÃO NO PARANÁ
O rondonense não acredita que os profissionais do Paraná vão aderir de fato à greve, apesar do que foi anunciado. “Conversei com o pessoal da transportadora e todos dizem o mesmo: o que se mostra é mais politicagem do que interesse dos caminhoneiros. Boa parte da categoria parece que não vai aderir. Eu mesmo e a empresa para qual trabalho não vamos aderir”, menciona.
Segundo Beto, a greve atual não deve ter as mesmas dimensões que a de 2018. “Em São Paulo, onde se ouve mais barulho, é um movimento claramente político. Ninguém quer se envolver nisso”, considera.
REGIÃO SUL
Motorista autônomo por mais de 25 anos, atualmente Jair Fiori trabalha como caminhoneiro para uma empresa rondonense há um ano e meio. Segundo ele, a greve sinalizada atualmente tem repercussão localizada. “O movimento está localizado em três ou quatro Estados somente. Tenho amigos rodando pelo país que afirmam estar tudo quieto, sem movimentação”, declarou ao O Presente.
Conforme o profissional, a paralisação não deve ter o apoio do Sul. “A categoria está vendo o movimento político no meio e não vai compactuar. Os Estados do Sul não devem aderir à greve por enquanto”, opina.
APOIO
Na visão de Fiori, o que se demostra até então é um movimento sem muitos apoiadores. “Em 2018 havia apoio dos agricultores e a greve teve repercussão nacional. Agora, não temos isso e é provável que não vingue”, salienta.
A falta de apoio de um modo geral, conforme o rondonense, é um gargalo frequente da categoria. “Não temos representantes legais na nossa categoria, tudo é muito ramificado. Não há deputados que nos defendam, nem mesmo vereadores. Não há ninguém que abrace a categoria a não ser o próprio caminhoneiro”, lamenta.

Caminhoneiro Jair Fiori: “Não temos representantes legais na nossa categoria, tudo é muito ramificado. Não há deputados que nos defendam, nem mesmo vereadores. Não há ninguém que abrace a categoria a não ser o próprio caminhoneiro” (Foto: Divulgação)
SETOR DE TRANSPORTES É “TERRA” DE GIGANTES: MOTORISTAS AUTÔNOMOS SE RENDEM ÀS EMPRESAS
Jair Fiori trabalhou por mais de 25 anos como caminhoneiro autônomo, com um caminhão próprio, mas chegou em um ponto em que a atividade se mostrou inviável. “As grandes empresas se infiltraram onde os caminhoneiros autônomos conseguiam seus fretes, muitas vezes diretamente com os agricultores. As transportadoras são as que mais ganham em cima do frete e conseguem tirar a demanda que o autônomo tinha”, menciona.
Ele diz que além de as empresas lucrarem mais, elas conseguem melhores condições no que diz respeito a financiamentos especiais. “Motoristas autônomos não têm esse privilégio e ainda lidam com preços do diesel e de manutenção que só crescem. Trabalhar com caminhão próprio é inviável atualmente”, opina, acrescentando: “Tenho minha ANTT, mas o meu caminhão está encostado. Hoje, decidi trabalhar para uma empresa para me manter”.
Para Fiori, mesmo que o movimento atual se mostre infrutífero, a categoria precisa se organizar para ter melhores condições. “O que reivindicamos é um rever de nossa situação”, resume.
TRABALHO AUTÔNOMO
Questões que teoricamente foram contempladas pela greve de 2018 são pontos que ainda fazem com que o serviço do caminhoneiro seja ainda mais difícil. “Como autônomo eu gerencio o meu próprio negócio, tenho liberdade em procurar o frete que melhor me favorece, consigo planejar minha jornada de trabalho de modo a ficar menos tempo fora de casa etc. Algumas empresas exigem que você vá para outros Estados quando não há trabalho nas redondezas, ao mesmo tempo em que ficam com boa parte do lucro. Há muitas vantagens no trabalho autônomo, mas infelizmente precisamos nos submeter quando não há condições viáveis”, queixa-se.
MARECHAL RONDON
A falta de apoio, aponta Fiori, é percebida mesmo em âmbito local. “Há anos foi prometido para nossa categoria um pátio para estacionamento dos motoristas em Marechal Rondon. Na maioria das cidades há esse espaço para ficar depois que descarrega, mas aqui não. Se você vem de fora, precisa ficar nos postos de combustíveis, senão não há outro espaço adequado”, salienta, afirmando que a reivindicação é antiga e segue sem o apreço das autoridades.
O Presente