Números estão ancorados em transações multimilionárias, como a recente venda do prédio da Pernambucanas
Qual o interesse do paço municipal em expandir o perímetro urbano de Cascavel? Cada um tem sua resposta, mas um efeito econômico palpável do projeto é bem previsível: aumentar a arrecadação de impostos.
São quatro letrinhas mágicas: ITBI – Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis. O tributo vem batendo sucessivos recordes em Cascavel, na medida que o dinâmico mercado imobiliário local se expande.
Aos números: no 1º semestre de 2022, o município arrecadou R$ 21,5 milhões com o ITBI. No mesmo período deste ano, quase R$ 2 milhões a mais: R$ 23,4 milhões. Fonte: Secretaria de Finanças.
São quase R$ 4 milhões mensais provenientes deste que é um dos mais eficazes termômetros do mercado imobiliário, pois incide sobre transações efetivamente realizadas.
E são muitas transações: de janeiro a junho de 2022, 4.278. Em igual período deste ano, 4.238. Isso que dizer que, em média, 23 negócios – compra de apartamentos, casas, terrenos e similares – são fechados por dia na cidade.
Talvez isso explique a explosão no número de corretores de imóveis em Cascavel: entre formais e informais, um batalhão de mais de dois mil profissionais. Aqui já foi a cidade do representante comercial. Hoje é a cidade do corretor.
TESTA GRANDE
O que explica a explosão de transações imobiliárias no primeiro semestre deste ano? Olhando o número de operações entre os períodos comparados, percebe-se pouca diferença, quase um empate técnico: 4,2 mil transações em ambos os semestres.
O número mais robusto deste ano pode se explicar pelo valor dos imóveis transacionados. Para ficar em um exemplo, o prédio que abriga a loja das Pernambucanas. É coisa grande: são 3,3 mil metros quadrados de um prédio antigo, porém dotado de uma fachada imensa para a Avenida Brasil, um “latifúndio” no coração pulsante da cidade.
O imóvel que abrigou o primeiro “supermercado” da cidade, o Los Angeles, da família Sonda, trocou de mãos recentemente em transação multimilionária. Antes vale dizer que o imóvel sediou a reunião de fundação da Acic, no final dos anos 1960, como bem se recorda o professor Beto Pompeu.

“O terreno do Arvilho Sonda atravessava da Avenida Brasil até a Rua Paraná”, descreve Pompeu. Hoje esse pedaço valioso de Cascavel, mesmo fragmentado, fez “preencher um cheque” de oito dígitos: R$ 13,1 milhões no último dia 23 de maio.
É o valor pago pela cascavelense BHM Locação de Imóveis ao fundo de investimentos paulista São Carlos. A BHM pertence aos empresários Luciana e Osmar Michelon, da Disapel. Para ficar com o prédio das Pernambucanas, além do aporte milionário, os Michelon injetaram R$ 262 mil em ITBI nos cofres da Prefeitura de Cascavel.
Muito dinheiro? Como disse o presidente da República, em frase polêmica: “é relativo”. Afinal, a “testuda” que pertenceu aos Sonda facilmente recupera o ITBI recolhido em apenas dois meses de locação.
A insegurança pode vir de outro fator: como as varejistas nacionais irão reagir ao avanço das plataformas de marketplace chinesas, como a Shein? A inquilina dos Michelon tem fôlego para enfrentar as gigantes asiáticas?
São operações como esta do imóvel da Pernambucanas que explicam o desempenho de arrecadação do município no primeiro semestre deste ano. Mas há outros fatores a considerar. Veja a seguir como operadores do mercado entendem o momento econômico da cidade e a influência do cenário político nacional sobre os negócios imobiliários.
Medo político explica números?
Assustados pelo zap, cascavelenses migraram para o dólar; mercado imobiliário também foi beneficiado pelo temor político?
Gente bem posicionada no mercado financeiro de Cascavel relatou recentemente ao editor do Pitoco um fenômeno observado no final do ano passado e início de 2023: clientes – principalmente idosos – sacando dinheiro da poupança e convertendo ativos em dólares.
Diante dos apelos do gerente do banco, justificavam: “Vi no zap-zap que o PT vai confiscar dinheiro em conta”. Segundo a gerente de um banco público ouvida pelo jornal, foram inúmeros os casos assim.
O relato encontra respaldo nos números divulgados pelo Banco Central. Em maio último a retirada liquida da caderneta de poupança foi de R$ 11,75 bilhões no Brasil. Nos primeiros cinco meses deste ano, os saques superaram depósitos em R$ 69,2 bi.
Evidentemente, nem todo esse dinheiro esverdeou. Mas quem trocou reais por dólares com medo do “Sapo Barbudo”, como diria Brizola, perdeu. E perdeu muito.
O dólar fechou em queda na última sexta-feira (30), encerrando o primeiro semestre de 2023, com desvalorização de 9,27% frente ao real.
Vale dizer: não há risco de governo nenhum confiscar a poupança. Em 2001, foi aprovada a Emenda Constitucional nº 32, que proíbe o confisco da poupança ou qualquer outro ativo financeiro dos brasileiros em seu artigo 62.
O receio com o novo governo também explicaria a imobilização de ativos no mercado imobiliário de Cascavel? A pergunta foi dirigida pelo Pitoco a um grupo diverso ideologicamente de operadores do segmento. Veja o que eles dizem:
EDSON VASCONCELOS

“Acredito que o crescimento vigoroso e contínuo de Cascavel explique esses números. A construção civil é uma cadeia lenta. Um projeto demora mais de ano para sair do papel. Nada que esteja acontecendo agora com o ITBI, venda ou compra vem necessariamente de novos projetos. Pode ser imóvel usado ou pronto. A imobilização pode ser, sim, em partes minoritárias, fruto do medo político”.
NESTOR DALMINA

“O país vive outros ventos, inserido internacionalmente novamente. O PIB esperado era de 1,2%, agora já se fala em 2,2%, quase o dobro. O dólar caiu, a bolsa em alta, gasolina mais barata, isso tudo estimula novos investimentos. Lógico que soma-se a isso o fato de Cascavel ser uma cidade fora da curva. Ninguém segura o crescimento da cidade”.
RICARDO PARZIANELLO

“Inegável que há, sim, entre os investidores um pé atrás com o novo governo, mas Cascavel está em pleno crescimento e o mercado imobiliário é um porto seguro. Imóvel passa segurança, diferente de outras aplicações, é palpável, algo que você consegue enxergar, é sólido”.
JOTA FELIX

“Sinceramente não vejo correlação destes números do ITBI com o novo governo. Vejo sim um indicador importante da expansão do mercado imobiliário em Cascavel. É fruto do grande avanço econômico que tivemos nos ultimos anos. E no nosso caso especifico acompanhado de um grande avanço demográfico”.
Por Jairo Eduardo. Ele é jornalista, editor do Pitoco e assina essa coluna semanalmente no Jornal O Presente