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Conheça a história da “doutora perseverança”, prestes a graduar-se em Medicina pela Unioeste movimentando somente as pálpebras

calendar_month 22 de março de 2022
7 min de leitura

04 de julho de 2008. É o 07 de setembro norte-americano. Naquela data, uma superprodução de Hollywood estreia no Brasil. O filme traz a seguinte sinopse: aos 43 anos de idade, o editor-chefe da revista Elle, Jean-Dominique Bauby, tem um derrame devastador que o deixa paralisado e dependente, algo frustrante para um homem conhecido por aproveitar demasiadamente a vida.

A única coisa capaz de mover é o olho esquerdo. Então ele aprende a se comunicar piscando e escreve um livro de memórias. A trajetória ímpar do jornalista foi imortalizada na película “O Escafandro e a Borboleta”.

Indicado para o Oscar em seis categorias, laureado no Globo de Ouro e no Festival de Cannes, o filme narra em detalhes como Jean conviveu com a síndrome do encarceramento e ainda encontrou uma forma de comunicar que permitisse escrever um best seller.

18 de fevereiro de 2022. Sob uma ovação poucas vezes ouvida em 19 turmas formadas anteriormente no curso de Medicina da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), a jovem Elaine Luzia dos Santos é aplaudida na colação de grau dos colegas acadêmicos. Na ocasião, ela estava junto aos formandos como ouvinte, pois ainda é graduanda e colará grau somente mais adiante, em meados de agosto.

A trajetória dela guarda muitas semelhanças com o protagonista de “O Escafandro e a Borboleta”. Já adulta, cursando o 3º ano do curso de Medicina em Cascavel, ela viveu os piores momentos da vida pacata da menina que nasceu em Diamante de Oeste, filha de uma servidora pública e um aposentado.

As sequelas de um AVC devastador lhe subtraíram os movimentos. Após um longo período de recuperação, Elaine percebeu que só poderia mover as pálpebras. E era por ali, com os olhos na condição de janelas para o mundo, que passaria a expressar sua inteligência singular, seus sentimentos e o mais incrível: dar sequência a uma obsessão de criança: graduar-se em Medicina. Agora, falta pouco.

Com apoio de políticas inclusivas da Unioeste e gente qualificada para estabelecer comunicação nestas condições, Elaine aprendeu a falar com os olhos em um sistema que une números e letras escolhidos por movimentos nas pálpebras, semelhante ao aplicado pelo jornalista do filme.

“Que fique bem claro, o cognitivo dela não foi afetado. Ela é muito inteligente, o curso estabeleceu para Elaine o mesmo nível de dificuldade a que foram submetidos os demais alunos”, afirma a professora Rubia Boaretto.

 

ABNEGAÇÃO COMOVENTE

Inicialmente a acadêmica enfrentou resistências veladas, embora isoladas. Mas a abnegação da menina que falava com os olhos comoveu toda uma instituição.

“A Unioeste deu apoio didático através de cuidadoras capacitadas, pedagogas, tradutoras que entendem a linguagem de sinais, softwares específicos para esses casos e ainda o apoio dos professores e colegas de turma”, relata Rubia. Dali a pouco todo mundo estava engajado naquele notável caso de superação pessoal.

 

ABRAÇO DA TURMA

Inicialmente foi difícil mesmo. Elaine precisou repetir disciplinas. Mas nas turmas finais houve um processo de inclusão, colegas aprenderam a se comunicar com ela através da linguagem de sinais e faziam questão que ela fosse incluída em tudo o que era realizado.

“Se a aula seria ambientada fora da Unioeste, alguém se voluntariava para levar a Elaine. Quando estava tudo pronto para começar, alguém dizia: espera a Elaine chegar! E outra colega já se aproximava e perguntava se ela estava conseguindo acompanhar. Se estava ausente na aula on-line, algum colega já tentava contato e o pessoal perguntava: cadê a Elaine? Era algo incrível”, conta a professora Rubia.

Elaine deve colar grau em Medicina em meados de agosto: exemplo notável de superação (Foto: Divulgação)

 

O jornalista Jean-Dominique Bauby, que escreveu o clássico “O Escafandro e a Borboleta”, e a professora Rubia Boaretto: “Era algo incrível” (Fotos: Divulgação)

 

Como exercer a profissão?

Foi em uma cafeteria de Cascavel o encontro do editor do Pitoco com a recém-formada Elaine Luzia dos Santos, a menina que conversa com os olhos.

Cheguei alguns minutos atrasado ao encontro, inicialmente agendado para as 17 horas. Elaine chegou depois.

Entende-se: é preciso toda uma logística. Ela veio acompanhada de duas cuidadoras, uma delas apta a fazer a leitura de sinais.

Uma van adaptada é utilizada para transportar Elaine e sua companhia constante: a cadeira de rodas.

A primeira preocupação é comum a muitos entrevistados: qual será a abordagem, posso ver a reportagem antes de publicar?

Sem problemas, neste caso específico, abrem-se exceções. Ninguém gosta de ser retratado com “coitadismos” ou abordagens sensacionalistas.

Não saia de minha cabeça a pergunta que habitava meus pensamentos desde que Eduardo Muraro, um colega de sala de aula da Elaine, sugeriu essa reportagem.

Criei coragem, escolhi as palavras, e perguntei: “Como você irá exercer a profissão, dadas as suas limitações físicas”?

Elaine, através da tradutora de sinais, tinha a resposta pronta no coração e nas pálpebras:

“Radiologia, produzir laudos de diagnóstico por imagens”.

O acidente vascular, a exemplo do jornalista do “Escafandro e a Borboleta”, encarcerou seu corpo, mas jamais será capaz de aprisionar sua mente privilegiada e seus olhos que falam, algumas vezes, como na entrevista da cafeteria, umedecidos pela emoção.

 

DESAFIOS SUPERADOS

“No início alguns professores foram resistentes à minha formação, mas outros me apoiaram e brigaram por mim. No decorrer do curso, as opiniões mudaram e tive apoio unânime no colegiado”, relata Elaine.

Em um planeta de tanta gente com a mente encarcerada em pensamentos fúteis e ideologias idiotizantes, a liberdade emanada a partir de um piscar de olhos faz conceder a Elaine um título para muito além da graduação em Medicina: doutora perseverança, doutora vida!

Em tempo1: mais uma vez, vale ressaltar: Elaine ainda não colou grau, é graduanda! Deve colar grau em meados de agosto.

Em tempo2: conforme o combinado, enviei o texto para Elaine olhar antes da publicação. Ela fez poucos reparos e um pedido sublime: “Pitoco, diga que sou apaixonada pela vida!”.

Tá dito, doutora perseverança! Somos apaixonados por você!

Elaine Luzia dos Santos, a doutora perseverança: “Sou apaixonada pela vida!” (Foto: Divulgação)
Elaine com colegas de turma: o engajamento deles foi fundamental para trazê-la até aqui (Foto: Divulgação)

 

 

Depoimentos de quem acompanhou a trajetória de Elaine

“Elaine só conseguiu concluir o curso em razão da paixão dela pela Medicina. Muito aplicada, interessada, participativa nas aulas, prestando atenção em tudo. Mas também porque a Unioeste, instituição muitas vezes incompreendida, principalmente o Hospital Universitário, deu todo o apoio, sem o qual não seria possível levar essa graduação desafiante adiante. Não houve facilitação e, sim, inclusão e adaptação. Colegas e professores tiveram papel fundamental, sem tirar os méritos dela e sua vontade inabalável de ser médica”.

Rubia Boaretto, médica nefrologista, professora da Unioeste.

 

“Eu considero um presente ter convivido com a Elaine. Ela nos ensina a ter paciência, perseverar e ter alegria nos pequenos momentos. Ela nos inspirou ao longo de sua caminhada! Os pacientes veem nela sua força e sentem força para continuar lutando pela vida. Houve um episódio de um paciente paraplégico que se sentia imprestável. Acreditava que ao perder o movimento das pernas havia perdido a sua função, deixado de ser útil. Quando ele conheceu a Elaine se emocionou muito. Porque ela não permitiu que a deficiência definisse quem ela poderia ser. Então o paciente paraplégico disse: você me prova hoje que eu não sou inútil e que eu ainda tenho serventia. É isso que ela faz onde passa, Elaine nos prova que podemos ser melhores. Que podemos mais que imaginamos”.

Elaine Bernachie, colega de sala de aula

 

“Foi uma das experiências mais engrandecedoras de minha vida ter passado dias no internato com ela. Atendia pacientes com a Elaine, vi pacientes emocionados. Ela é um exemplo de que as dificuldades que enfrentamos são relativas. Todos temos problemas, mas quando vemos uma trajetória de superação de dificuldades, tudo fica pequeno. Ela é uma guerreira, uma guria muito especial. Digo sem medo de errar que o período em que passei com ela foi o melhor momento do curso”.

Eduardo Muraro, colega de curso

 

 

Por Jairo Eduardo, Pitoco

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