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Conheça o cidadão do Oeste que figura entre os top 100 da pirotecnia mundial

calendar_month 5 de outubro de 2025
9 min de leitura
Roni Santos é considerado o mais completo profissional da pirotecnia em âmbito internacional

“O Alquimista” é um best-seller do escritor brasileiro Paulo Coelho, publicado em 1988. Relata a viagem de um pastor andaluz (nascido na Andaluzia, Espanha), em sua viagem ao Egito depois de sonhos recorrentes de encontrar um tesouro lá.

Roni Santos não é um andaluz, embora a luz seja uma fonte de vida e uma das profissões dele. A exemplo do pastor de “O Alquimista”, viajou longe, e encontrou tesouros.

Típico cidadão oestino, nasceu em Corbélia, registrado em Santa Tereza do Oeste, graduou-se em Toledo, vivendo em Cascavel. O tesouro de Roni estava bem distante daqui, nos céus de cidades como Moscou e Valência, e em países como Itália, EUA, Canadá, Japão e China.

O México deu o primeiro prêmio ao alquimista do fogo: Roni foi campeão (pelo voto do público) do torneio pirotécnico internacional de Aguascalientes. A vitória o incluiu no circuito mundial dos grandes festivais pirotécnicos.

Após frequentar o pódium em diversos torneios, o mais recente deles em agosto último, na Espanha, quando obteve a medalha de prata na Grande Semana de Bilbao, Roni aceitou o convite para esta entrevista.

Incluso como “Maestro” no top 100 internacional da pirotecnia, status que lhe dá a condição de conselheiro e a atribuição de produzir artigos científicos no segmento, Roni desenvolveu desde criança um encantamento pela pólvora.

E não faltaram perrengues na carreira do curioso “fogueteiro”. Foi notícia de abertura no “Jornal Nacional”, da Rede Globo, quando em 1995 uma Kombi explodiu no centro de Cascavel.

Porém, nada poderia deter a ascensão internacional deste intelectual poliglota no mundo da pirotecnia.

Acompanhe a prosa obtida em conversa de quase uma hora no Pitocast, o podcast do Pitoco (disponível na íntegram no Youtube e Spotify).

Pitoco – O que era brincadeira de criança em sua época?

Roni Santos – Minha infância foi típica da época, assistindo filmes de “bang bang”, de guerra. Gostava de promover tiroteios com revólver de espoleta, guerrinhas cetra atirando bolinhas de sinamão com os meninos vizinhos onde morava. Depois passei a assistir filmes e séries de ação como MacGyver, Arnold Schwarzenegger, Rambo. Eraexplosão para todo lado, bem ao sabor dos anos 90. Sempre fui aficionado por fenômenos físicos e científicos, gostava de ver os shows pirotécnicos na virada do ano nos telejornais.

Você sempre fez muitas coisas ao mesmo tempo…
Foi uma juventude agitada. Cursei técnico em eletrônica, sou especialista em rádio comunicação e transceptores, fiz teatro no antigo Grupo Dom Bosco, animação infantil, eu era o sapinho da Turminha Tralala fundada pelo Arthur e a Eliane. Fui aluno monitor do Clube de Ciências do Colégio São Cristóvão, estudei órgão eletrônico na Minami, por fim estudei bateria na Escola Drummer do Willian Fischer, fiz muita arte e suas manifestações, mas acabei me formando mesmo em Engenharia Quínmica após fundar a Pirocenter em 1993.

Roni ao redor do mundo. Pela ordem, a partir da esquerda: celebrações de 4 de julho em Pittsburgh, Pensilvânia (EUA); show de encerramento do 19º ISF Liling em Hunan, China; Festival Internacional Aste Nagusia em Bilbao, na Espanha; e 16º ISF Simpósio e Festival de Akita em Omagari, no Japão

Optou por uma atividade de elevado risco…
Sim, é uma atividade de risco. Possivelmente esteja inclusa no top 10 das profissões mais perigosas do planeta, pois mesmo seguindo todos os protocolos de segurança, estaremos lidando com explosivos. Acredito que estou fazendo hora extra neste plano.

Qual foi o maior susto da carreira?
Em 1997 estávamos executando o show na inauguração da rodoviária de Amambai (MS). Um morteiro de sete polegadas ‘deu embaixo no cano’, me jogou uns 30 metros longe. O acidente em que perdi parte dos dedos não foi em recarga de munição. Foi preparando explosivos para desmonte de rocha, uma descarga estática atingiu o artefato (explosivo primário) que explodiu parcialmente uma de minhas mãos.

Mas tem a história da Kombi…
Foi em 1995, dia de chuva, Festa das Nações na Catedral. A gente montava o material na frente de onde hoje é o Calçadão. Eu alertei sobre os riscos, não queria que soltasse. O monsenhor somou comigo na preocupação, mas o presidente da festa e meu pai, que era sócio na época, queriam que soltasse.

Não deu outra…
O último artefato deu problema, explodiu embaixo e somou-se à carga de lançamento que estava dentro da kombi para a proteger da chuva. Aí deu no Jornal Nacional: kombi carregada de fogos de artifício explode no interior do Paraná. Voou pedaço da Kombi prá todo lado.

Depois seu pai ficou mais cauteloso…
De fato, desde aquela época aquilo ficou marcado nele, tanto que no leito da morte ele me fez prometer que eu não mexeria com a parte de indústria de fogos, ou seja fabricando artefatos em uma linha de produção local, algo que eu sempre tinha almejado na carreira e tido obtido todas as licenças, e paióis certificados para assim implementar.

O que um show pirotécnico diz para além das luzes e sons que emite?
Fogos são forma de comunicação não verbal. Estão presentes em todos os países do planeta. São associados a cultura, ao mundo intelectual, musical, dança, gastronomia, religião. Os folguedos são manifestações culturais dos povos e suas tradições.

Fale sobre sua carreira internacional no segmento
Participei da primeira Missão Empresarial da ACIC à China, em abril de 2007. A China estava debutando para o mundo, iria sediar as Olimpíadas no ano seguinte. Lá construí canais para trabalhar com os melhores produtos da pirotecnia. Ninguém vai lá de alegre e se dá bem, tem que pavimentar, construir canais para criar situações reais de negócio e principalmente vínculos empresariais e acadêmicos. De lá, passei a frequentar
o Simpósio Internacional sobre fogos de artificio que ocorre a cada dois anos em um pais produtor anfitrião, feiras e fóruns, dali em diante foram portas abrindo, contatos e convites aparecendo, fui participando até como voluntário em grandes espetáculos, mostrei capacidade intelectual e vontade de trabalhar, onde comecei a galgar cargos e responsabilidades maiores de liderança de equipes ou cargos de juri técnico até chegar ao protagonismo de ser um competidor e poder representar o Brasil como delegação oficial.

Na China foi um aprendizado e tanto…
Sim, passei a dominar como os chineses produziam ao modo deles os efeitos verde, os azuis, os dourados, os vermelhos…etc. Isso parece pífio ao ser dito, mas é química pura e aplicada com altíssima fineza, além de pitadas de métodos ao estilo receita de bolo que só dá certo no forno da vovó.

Esse mundo dos fogos é muito diverso. O inglês gosta muito de efeitos de solo, fontes, vulcões, peãozinhos, rodas e giratórios, já o americano aprecia as bombas aéreas que arrebentam no céu, o europeu tem seu apreço principalmente focado no modo ítalo ibérico com seus tiros retumbantes, os árabes miram em outros efeitos, e os chineses produzem tudo a todos ao sabor do gosto especifico do cliente.

Que fatores posicionam Roni Santos na elite da pirotecnia?
Não leve isso como um autoelogio, mas acredito que, modéstia à parte, do ponto de vista nacional, é bem sabido dentro do meio pirotécnico que sou o único a dominar todos os processos de ponta a ponta: sei produzir todos os insumos da parte química (matéria prima), fabricar o efeito e o artefato intrínseco, vender, desenhar o show, executar o projeto, armar o show (baita trabalho braçal extenuante). E principalmente cumprir as partes das doutrinas legais (certificação, homologação, autorização, execução), além de produzir e representar hardware de sistemas de disparo e programa-los nos complicados softwares de espetáculos como um todo, onde a música e a eletrônica aprendidas em tenra idade me ajudam.

Conheço e me relaciono bem com meus concorrentes e há nessas empresas grandes especialistas em cada uma dessas áreas citadas de maneira especifica, mas que junte todos os predicados necessário em um único indivíduo, segundo dizem talvez no Brasil eu seja o único completo assim, e no mundo também um dos poucos. Por cinco anos ocupei cargos como diretor técnico da Associação Brasileira de Pirotecnia, entre outros feitos ao setor em contribuição para as mudanças legais de uma nova legislação
nacional.

“Não leve isso como um autoelogio, mas acredito que, modéstia à parte, do ponto de vista nacional, é bem sabido dentro do meio pirotécnico que sou o único a dominar todos os processos de ponta a ponta.”

E a carreira internacional?
Do ponto de vista internacional alie-se também o fato de participar como palestrante, expositor, coordenador ou competidor nos principais simpósios, feiras, congressos e festivais internacionais do setor, o que também me abriram as portas para o intercâmbio acadêmico na produção de artigos e da pesquisa tanto cultural, quanto do aprendizado na troca de experiências e no emprego e desenvolvimento de mercadorias, efeitos e produtos, e nas diferentes formas de realização de espetáculos dos grandes artífices pirotécnicos. Aos poucos fui me tornando uma seria referência e me vi recebendo reverencias e perguntas, e atémesmo convites e honrarias provenientes de quem antes eu admirava.

Você acabou de celebrar seus 50 anos em um grande evento com mais de três centenas de amigos e clientes, onde não poderia faltar um incrível show pirotécnico. Resuma o momento que está vivendo.

Quando jovenzinho já fui um fogueteiro curioso, já levei meus sustos, ganhei e perdi, hoje me sinto cobrado, por mim mesmo a compartilhar mundo afora o conhecimento que acumulei nessa longa jornada. Passei a contar meus dias, percebo que há mais dias atrás que na frente. Quero fazer um processo sucessório na empresa. O maior legado do líder é deixar sucessão, conhecimento tecnico, liderança, do contrário a passagem por esse plano (na terra) não faz sentido.

Por Jairo Eduardo. Ele é jornalista, editor do Pitoco e assina essa coluna semanalmente no Jornal O Presente

pitoco@pitoco.com.br

 
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