Início dos anos 1980, era dos protagonistas da bola no eixo Cascavel-Toledo. De um lado o camisa 9, ambidestro e cabeceador nato, Paulinho Cascavel. De outro, Vaquinha – centroavante estilo “trombador” do Toledo.
Em campo, adversários ferrenhos no principal derby do Oeste, o “Clássico da Soja”. Fora das quatro linhas, bons amigos. “Era gente boa, amigão meu, infelizmente já partiu”, disse Paulinho ao Pitoco no último dia 8.
Na entressafra da soja, surge outra rivalidade entre Cascavel e Toledo. A questão é: onde colocar a praça de pedágio, entre a Cobra e Sede Alvorada, conforme o projeto original, ou entre o distrito e Toledo, como gestionam lideranças de Cascavel.
Em outra analogia com o futebol, é como se a falta acontecesse na intermediária, e o batedor aproveitasse a distração do juiz para empurrar a bola para mais perto da grande área.
O que está em jogo é algo simples de entender. Uma tarifa de pedágio entre Cascavel e Sede Alvorada, empurra os cerca de 3 mil consumidores do distrito para o comércio de Toledo.
Não se trata de um lugarejo qualquer. Distritos rurais no Oeste paranaense apresentam PIB per capita superior a média urbana devido ao elevado valor agregado de produção na integração com grandes cooperativas.
Sede Alvorada não se limita a um animado salão de molas para danças típicas germânicas. Tem integrados à Coopavel, Copacol e Coamo. Tem Iriedi, Safeeds, Disam, Big Peixe e outros players do agro.
A agência Sicredi local tem o melhor desempenho entre todas as cooperativas de crédito distribuídas por distritos da região, com 1.250 associados. A topografia plana e terras férteis produzem até 400 sacas de milho e 200 sacas de soja por alqueire.
São 193 quilômetros quadrados, com potencial de movimentar R$ 200 milhões/ano. Para qual economia, Cascavel ou Toledo, essa dinheirama for, importa sim. Em recente reunião da Acic, empresários cascavelenses receberam o executivo Sergio Santillán, presidente da Via Campo, concessionária que está administrando o trecho conflituoso.


A pedida da Acic foi clara: mudar a cancela de lugar, empurrar a “barreira” para o lado de Toledo. Santillan, nascido na terra do Messi, foi habilidoso na resposta: disse que contratualmente é possível deslocar a praça até 5 quilômetros do ponto original, mas não assumiu compromisso, alegando que os zagueirões de Toledo também sabem chutar calcanhares.
“O prefeito já se manifestou contrário a qualquer mudança na localização da praça de pedágio”, disse o secretário de Comunicação e porta-voz da Prefeitura de Toledo, Marcio Pimentel.
“A praça, no local onde está programada, obstrui o canal econômico entre o distrito e a sede do município, Cascavel perde muito”, reforça Dilvo Grolli, vice-presidente de Agronegócio da Acic. “Está configurado que tecnicamente é possível e manejável uma mudança”, reforça Marcio Blazius, presidente da Associação Comercial e Industrial de Cascavel.

PITACO DO PITOCO
l O “Clássico da Cancela” entra em seus minutos decisivos. Cascavel, que parece ter entrado tardiamente em campo, vai tentar levar a “peleia” para a prorrogação e pênaltis.
l Certo mesmo, independente do resultado, é aprender com Paulinho Cascavel e Vaquinha, antagonistas em campo, bons amigos fora dele. As economias de Cascavel e Toledo não são concorrentes, e sim complementares.
l Quem sabe um gesto de fair play, em que no lugar da praça de pedágio convencional sejam instalados pórticos de free flow (cobrança automática), um de cada lado do distrito, possa empatar o “Clássico da Cancela”.
Por Jairo Eduardo. Ele é jornalista, editor do Pitoco e assina essa coluna semanalmente no Jornal O Presente
