O Presente
Municípios

Escassez hídrica e encarecimento da energia impactam setor industrial

calendar_month 10 de setembro de 2021
8 min de leitura

Sem energia nos fios e sem água nos canos não há linha de produção com chances de avançar. Ainda driblando os impactos da pandemia, as indústrias lidam com novos desafios: a disparada no preço da conta de luz e os efeitos da crise hídrica. Um dilema para o setor, que, diante dessas condições, não pode fazer economia, como é possível em residências e outros estabelecimentos, pois a energia e a água são matérias-primas básicas da produção.

Nove a cada dez empresários da indústria se mostram preocupados com a crise hídrica e seus efeitos no setor, prevendo custos ainda maiores nas tarifas de luz, racionamento e interrupções no abastecimento, que podem paralisar a produção: um status indesejável, principalmente depois de 15 meses de pandemia e instabilidades econômicas.

 

Bandeira alta

Em decorrência da baixa vazão de água, as usinas hidrelétricas, principais produtoras de energia do país, precisam de reforços das usinas termelétricas, com custos mais elevados, os quais são repassados para as contas do consumidor. Nessa sucessão de encarecimentos na produção por kilowatt, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) criou a bandeira tarifária de escassez hídrica, que eleva as tarifas de energia elétrica e afeta residências e indústrias.

 

Prevenir e lidar com o problema

Em Marechal Cândido Rondon, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) realiza a distribuição racionada da água, fazendo com que a população se adapte e as indústrias busquem novas alternativas de abastecimento.

Na Frimesa, indústria com planta industrial no município, algumas medidas em prol da economia de água foram incorporadas aos processos. “A energia e a água são essenciais para as indústrias. Por isso, o setor busca mais eficiência energética com troca de motores, automação, evitar horário de ponta, aquisição no mercado livre, etc. No caso da água, procura-se reduzir o consumo por meio da menor vazão, redimensionamento da rede de distribuição, reuso da água via processos de tratamento, aproveitamento da água da chuva, tratamento e uso da água de rios”, declarou ao O Presente o diretor-executivo Elias Zydek.

Segundo ele, as indústrias já “vivem problemas com a falta de água e energia”. Ou seja, mais do que medidas para evitar a situação há também estratégias para lidar com a problemática. “É comum o transporte de água via caminhões para abastecer as indústrias e já ocorreram interrupções do processo industrial por falta de água. Investimentos estão sendo realizados na captação de rios. No caso da energia, o fornecimento sofre picos e baixas causando sérios problemas”, enfatiza.

Diretor-executivo da Frimesa, Elias Zydek: “Já ocorreram interrupções do processo industrial por falta de água. Investimentos estão sendo realizados na captação de rios. No caso da energia, o fornecimento sofre picos e baixas causando sérios problemas” (Foto: Divulgação)

 

Longo prazo

Com a possibilidade de uma nova La Niña se firmar ainda neste mês, trazendo consequências até meados de abril de 2022, fenômeno que tradicionalmente mantém as chuvas abaixo da média histórica, a indústria que já sofre com a crise hídrica e alta na energia tem um futuro repleto de obstáculos.

De acordo com o diretor-executivo da Frimesa, a continuidade da escassez de água pode gerar consequências diretas na produção. “Pode resultar em menor capacidade de processamento, pois o racionamento de água e energia vai acontecer e haverá interrupção nas indústrias. Teremos redução de produção e faturamento, desemprego e aumento no custo fixo”, prevê.

Zydek diz que a geração de energias alternativas, aliada a equipamentos e máquinas com menor consumo elétrico, avança nas indústrias e é uma maneira de superar esse futuro de “faltas”. “Outra iniciativa é a mudança de legislação que estabelece o uso da água por unidade processada, como no caso de frango, suíno e leite. Além disso, o reuso via reciclagem total deverá acontecer. Para isso a legislação deverá evoluir”, aponta.

Nas plantas industriais o consumo de água por suíno é de 850 litros, 30 litros por frango e 2,5 litros de água por litro de leite processado.

 

Reforços no abastecimento

Solo extremamente seco, mas vegetação esverdeada. A seca verde notada em algumas regiões neste ano faz com que a situação não seja tão ruim atualmente quanto foi no ano passado, opina o diretor-presidente da Lar Cooperativa, Irineo da Costa Rodrigues. “Estamos melhor que no ano passado. Em 2020 as chuvas retardaram muito e, sob a ótica do agricultor, hoje as chuvas vieram antes, o que atenuou um pouco. Essas chuvas permitem um manejo de solo mais cedo e acredito que vamos plantar a soja sem atraso”, projeta.

Mesmo que o momento “não seja tão ruim”, Rodrigues comenta que a Lar teve de buscar soluções para a crise hídrica e o manejo tem se mostrado favorável neste sentido. “Não tem faltado água tanto nas plantas que mais consomem, como Matelândia e Cascavel, quanto em Marechal Rondon e Rolândia, onde caminhões-pipa abastecem diariamente a indústria. Na planta rondonense, um mês e meio depois de se instalar, a Lar completou o projeto da Copagril de novos poços artesianos”, relembra, acrescentando que, por hora, as medidas suprem a produção: “Temos uma solução para o nível de abate atual. Se pensarmos em ampliar o abate para o sábado e o domingo em Marechal Rondon, vamos procurar outra solução”.

 

Gasto mínimo por frango

Com milho, farelo de soja e energia elétrica mais caros, o custo de produção se eleva, enaltece o diretor-presidente. “As indústrias de abate de frango estão procurando ter o menor prejuízo possível e até ‘empatando’, sem chance de rentabilidade”, expõe.

Como resposta a esses problemas, o líder do setor menciona que apenas chuvas regulares ajudariam. “Não temos como economizar água, porque existe uma legislação do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) que nos obriga a usar certa quantidade de água por frango abatido. Em outros países é permitido usar menos, mas no Brasil não é possível”, compara, concordando com a declaração de Zydek.

No que diz respeito à eletricidade, também não há grandes economias possíveis, segundo ele. “Precisamos continuar abatendo a quantidade de frango que temos fomentado no campo. Água e energia elétrica não conseguem ser poupados na indústria”, pontua.

 

30% menos água

Além da mudança na legislação, uma solução para as indústrias é a reutilização da água. “Estamos fazendo isso na planta de abate de frango em Rolândia e vamos precisar de 30% a 40% menos água, o que já é uma grande vantagem. Esse reuso é normal, todos os países fazem, mas é uma tecnologia cara”, salienta.

Questionado sobre a possibilidade de mais plantas terem o sistema de reuso d’água adotado, o diretor-presidente da Lar diz que, por enquanto, o sistema se mantém na planta industrial de Rolândia.

Diretor-presidente da Lar, Irineo da Costa Rodrigues: “Precisamos continuar abatendo a quantidade de frango que temos fomentado no campo. Água e energia elétrica não conseguem ser poupados na indústria” (Foto: Raquel Ratajczyk/OP)

 

Energias alternativas

Rodrigues também apoia as iniciativas referentes à energia renovável e dá um recado, em especial, aos avicultores: “é preciso ter fontes alternativas”. Essa, inclusive, acrescenta ele, é uma das prioridades do Sindicato das Indústrias de Produtos Avícolas do Estado do Paraná (Sindiavipar). “Ao fim do próximo ano, não teremos mais subsídio da energia noturna e o agricultor precisa dessa otimização”, reforça.

 

Impactos da crise nas indústrias chegam aos consumidores

Ponto final do setor industrial, o diretor-executivo da Frimesa antecipa que os consumidores sofrerão com os ajustes generalizados nos preços, pois, além de consumirem água e energia, também precisam comprar produtos da indústria.

O diretor-presidente da Lar, por sua vez, pondera que o repasse ao consumidor acontece de forma mais lenta que as altas sofridas pela indústria. “Até agora o frango não conseguiu repassar, no tempo adequado, os aumentos de custo com milho, farelo de soja e energia elétrica. E não só isso, o aumento do óleo diesel, do preço da embalagem entre outros. Tudo aumentou, inclusive os salários, que tiveram reajuste de 8,9% desde julho. Uma hora chega ao consumir, não tem como não ‘respingar’. Esperamos que o milho e a soja abaixem e que o fluxo de chuvas se regularize para termos um custo menor de ração e energia elétrica. Até lá, vai ser duro não conseguir repassar na hora, sempre dois ou três meses atrasados”, finaliza.

Nas plantas industriais, o consumo de água por suíno é de 850 litros, 30 litros por frango e 2,5 litros de água por litro de leite processado (Foto: Gilson Abreu/AEN)

 

O Presente

Clique aqui e participe do nosso grupo no WhatsApp

 
Compartilhe esta notícia:

Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.
Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.