Ela era apenas mais uma estagiária em um ambiente tipicamente masculino ali na parruda Rua da Bandeira, onde está a Delegacia de Polícia Civil. A jovem acadêmica de Direito da Unipar talvez nem em seus melhores sonhos imaginava que um dia toda aquela estrutura, incluindo 22 municípios em uma das áreas geográficas mais desafiantes da segurança pública, estaria sob seu comando.
Mariana Vieira chegou à chefia da 15ª Subdivisão Policial (SDP) quebrando paradigmas em série. Possivelmente é a mais jovem a ocupar o cargo. Talvez seja a primeira a chegar lá por meritocracia, sem padrinhos políticos na Assembleia ou no Iguaçu. Certamente é a primeira mulher no comando.
A caminhada vencedora começou em casa. Pais exigentes que martelavam uma ideia fixa: a herança dos filhos será a educação formal e a formação a partir de “princípios retos”, como ela gosta de enfatizar. Incomodados, mas parceiros sempre, os pais de Mariana viram a menina se inscrever em um dos concursos públicos mais disputados.
Foram mais de dez mil inscritos para 44 vagas no concurso para delegado da Polícia Civil, realizado em 2007. Quando a lista de aprovados foi divulgada, lá estava o nome da estagiária aplicada da delegacia.
Era a nova geração da polícia assumindo o protagonismo em um setor estigmatizado e masculinizado. A façanha da menina que herdou a honradez como valor passou quase despercebida por aqui.
Mas quando Mariana assumiu a Delegacia de Homicídios, elevando a taxa de resolução dos crimes contra a vida para 85% – contra uma média de 10% no restante do país -, os holofotes se voltaram para a menina que arrancava sussurros entre os “tiras”. Ali não havia apenas mais uma carinha bonita de concurseira. De resto, mais um paradigma demolido: de que a polícia não entrega resultados na investigação.
Feminina, atenciosa, jovem e bela, Mariana Vieira ganhou a equipe e “ibope” nas redes sociais, onde vicejam adjetivos como “delegata”.
Esse ponto a constrange. Assumidamente tímida, ela revelou no “Café com Pitoco” – evento mensal que entrevista um personagem da cidade diante de uma seleta plateia composta de assinantes do jornal – que não quer ser avaliada por atribuídas qualidades estéticas.
Em duas ocasiões, durante a entrevista, ela usou a expressão “princípios retos”. Então vamos ao papo reto com Mariana Vieira, a demolidora de paradigmas:
Influência paterna
“Meu pai sempre deixou claro que a maior herança que poderia deixar para mim e meus irmãos é a educação. Não apenas no sentido estrito da palavra, mas a educação no aspecto de valores e princípios retos foi o que ele e minha mãe passaram para os filhos. Foi a melhor lição que assimilamos”.
Vocação para tira
“Acadêmica de Direito, passei a fazer estágio na 15ª SDP e na Delegacia da Mulher. Ali me despertou a paixão pela carreira policial. Quando expressei isso em casa, meus pais falaram: ‘Meu Deus, o que vamos fazer com essa menina?’. Não concordaram muito com minha escolha, mas me apoiaram e deram todos os meios para que isso fosse possível”.
A diferença I
“No estágio, eu percebia como cada um daqueles agentes policiais poderiam fazer a diferença na vida daquelas pessoas que buscavam um socorro nas forças de segurança. E a diferença vem desde uma palavra de acalento até os resultados efetivos de uma investigação mais complexa”.
A diferença II
“Não adianta dizer que homens e mulheres são iguais. Homens e mulheres têm, sim, diferenças biológicas acentuadas. Por essa razão, adoto uma postura em abordagens que impedem qualquer reação causada pelo fato de eu ser mulher. Passei pela provação de mostrar que sou capaz de conquistar o meu espaço e o respeito”.
A diferença III
“Admitir que há diferenças físicas é a oportunidade de identificar onde elas estão e atuar sobre um eventual ponto frágil no desempenho profissional. Se eu precisar do apoio de um policial do sexo masculino para pular um muro em uma operação, vou trabalhar com ele para facilitar o salto. O que vale é o objetivo, e neste caso o objetivo é transpor o muro”.
Feijão e arroz
“Na Delegacia de Homicídios, sem muito segredo, fizemos o básico bem feito. Selecionamos os ingredientes, seguimos as etapas de preparo como na receita de um bom arroz com feijão: integração com o Ministério Público, demais forças de segurança, Judiciário e a sociedade organizada”.
Investigação de resultados
“O ano de 2012 registrou o ápice dos homicídios em Cascavel, 151. Ficamos cinco anos à frente da delegacia especializada, criada em 2013. No ano passado, o número de homicídios dolosos veio para 53. O índice de elucidação de crimes foi de 85%. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, no Brasil esse índice fica entre 10% e 14%”.
O segredo
“Boas práticas são determinantes para esses resultados, baixa rotatividade na equipe traz entrosamento. Todos ali sabiam do meu ritmo de trabalho. Sabiam que teriam que abrir mão de folgas, do convívio com familiares em prol dos objetivos que traçamos”.
Sangue no cenário
“Uma mancha de sangue no cenário do crime não é só uma mancha de sangue. Um objeto jogado não chão não é só um objeto jogado no chão. É aplicar o método adequado. Os agentes que foram ao local do crime irão acompanhar o caso até o final, até a elucidação, evitando perda de informações cruciais que acontecem quando o caso troca de mãos”.
Força e honra
“A qualidade técnica do inquérito policial que apura um homicídio irá contar o último capítulo da vida de uma pessoa, irá contar como essa morte aconteceu. Aqui entra o cientificismo na investigação, profissionalismo, força e honra. São valores que norteiam nossa equipe”.
Conceito simplista
“Aquele senso comum de que a polícia prende e a Justiça solta é simplista. Cabe a cada um fazer bem feito a sua parte. A Polícia Judiciária precisa entregar ao Ministério Público um inquérito bem feito, fruto de uma investigação minuciosa. A Justiça vai soltar se houver fundamento legal para isso, e nem pode ser diferente”.
Punição rápida
“Em Cascavel, trabalhamos bem integrados com o Judiciário. Muitas vezes, é menor que um ano a distância entre o homicídio e a sentença. A eficiência do Estado em processar os homicídios impacta diretamente no fenômeno da violência letal. E os números aqui mostram isso”.
A promoção I
“Não estava em meus planos profissionais assumir o comando da 15ª Subdivisão. Mas num belo dia recebi esse chamado. Refleti muito. Decidi não me omitir. Percebi que aqui eu poderia ser mais efetiva para a instituição à qual pertenço e para a sociedade”.
A promoção II
“Foi determinante em minha decisão a confiança nas pessoas que estão no comando da Policial Civil. A nova administração projeta uma gestão profissional com a quebra de antigos paradigmas e a excelência na atividade policial. Aqui há um alinhamento de conceitos entre nós”.
Nova estrutura
“O projeto que está em vias de ser licitado prevê a construção de um novo prédio para a Policia Civil. A nova estrutura será onde estava o Colégio Washington Luís com entrega prevista para o primeiro quadrimestre de 2020. Mas não vamos esperar para obter condições adequadas de trabalho. Vamos iniciar já os ajustes que estão ao nosso alcance para melhorar a qualidade no atendimento”.
Arma em punho
“Nunca precisei fazer disparo de arma de fogo, embora todos treinamos periodicamente para essas situações. Mas apresentar a arma em abordagens ocorreu em várias situações que estão previstas em nosso protocolo de ação”.
O marido
“Se me importo com gracejos masculinos? Sou tímida, me constrange um pouco comentar isso… tenho a sorte de ter ao meu lado uma pessoa espetacular que é o Bernardo Badotti, a melhor escolha que eu poderia fazer. É meu alicerce, temos uma relação de muita confiança”.
Cantadas
“Sempre me preocupei de não ser somente um rosto, uma forma física. Me preocupo mesmo em ser a Mariana, a delegada de polícia que exerce seu ofício com dedicação e seriedade. Estou preparada para as piadinhas clássicas, tipo ‘quero ser preso por essa delegada’”.
O batom
“Alguns comentários na internet me incomodam mais que os outros. Tipo: a delegada passa mais tempo escolhendo a cor do batom do que investigando. Essas pessoas acham que busco exposição e não entendem que essa visibilidade é inerente à função que exerço na sociedade”.
O compromisso
“Não sei como era em outros tempos e não pretendo julgar o desempenho de ninguém. Mas aqui comigo as coisas vão seguir um caminho reto, transparente, baseado nos princípios que me gabaritaram para assumir a função. Assumo o compromisso de manter o desempenho e a linha que apresentamos na Delegacia de Homicídios”.

O Pitoco