Nem de longe o metro quadrado mais caro da Capital portenha em 2021 lembra aquele velho porto dos anos 50 que recebeu milhões de metros cúbicos de araucárias beneficiadas por mais de uma centena de serrarias estabelecidas em Cascavel no Ciclo da Madeira.
Hoje, o Puerto Madero, em Buenos Aires, está cercado de edifícios de alto padrão e de um centro gastronômico diversificado (e caro). Setenta anos atrás, o porto argentino era a principal plataforma de exportação do pinheiro cascavelense para reconstrução da Europa devastada pela guerra.
Beto Pompeu, o pioneiro, se recorda bem. Ele estava em Foz do Iguaçu na época, e viu centenas de caminhões vindos de Cascavel enfileirados na fronteira para descarregar no porto do Rio Paraná mantido pela Industrial Madeireira, empresa sediada aqui.
“A madeira serrada em Cascavel não poderia ser reexportada pelos argentinos. Mas não era assim que acontecia. Eles recebiam o produto no Puerto Madero, em Buenos Aires, e de lá remetiam para outros continentes”, afirma Pompeu.
Ou seja, os argentinos eram atravessadores da araucária cascavelense derrubada ali na região do Lago Municipal.
Nosso pinheiro pode ter virado mesa de reuniões dos heróis da guerra Charles de Gaulle (França) e Winston Churchill (Reino Unido).
Como o mundo dá muitas voltas, Cascavel também terá seu Puerto Madero. Não é possível afirmar que o autor do projeto “Território Verde”, Jaime Lerner, se inspirou na Capital portenha. Mas alguns detalhes remetem para o terminal portuário do Rio da Prata.
O centro gastronômico é um deles. Com diversificadas operações, nem de longe nosso Puerto Madero do Lago fará lembrar a solitária “Frangos & Fritas” de outros tempos. Além dos restaurantes, haverá um calçadão na Rocha Pombo, palco flutuante e passarela sobre as águas do lago. “É um dos mais belos parques do mundo”, diz Felipe Guerra, arquiteto do Escritório Jaime Lerner.
Pois bem, mas quem banca nosso Puerto Madero? Qual o investimento total?
O prefeito pretende visitar os cofres da empresa que utiliza o reservatório do lago para abastecer a cidade. “Não abro mão de que a Sanepar seja a patrocinadora desse investimento”, afirma Leonaldo Paranhos.
Prospecta-se também em outras fontes, como o Paraná Urbano e quem sabe até o Fundo Financeiro para o Desenvolvimento dos Países da Bacia do Prata (Fonplata), cogitado nas vésperas da campanha eleitoral do ano passado e depois relegado ao esquecimento.
E aqui concluímos a navegação Cascavel/Buenos Aires, cujo porto evacuou o pinheiro daqui nos anos 1950 e até hoje recebe águas do Lago Municipal pela conexão Rio Cascavel/Iguaçu/Paraná/Rio da Prata.

Projeto do “Puerto Madero” de Cascavel e abaixo o argentino: conexões históricas e hídricas que permanecem até os dias de hoje (Foto: Divulgação)

Pitoco