Agricultores, empresários do agronegócio, dirigentes de cooperativas e até consumidores estão apreensivos com as consequências que a estiagem seguida das fortes geadas trarão à safrinha de milho. Enquanto alguns preferem aguardar a colheita para se certificarem dos impactos, há quem adiante que a situação é grave, como declarou o presidente da Coopavel, Dilvo Grolli.
Segundo ele, a safrinha desandou desde o seu princípio, já que o plantio atrasou por conta da soja colhida tardiamente, e as lavouras enfrentaram períodos sem chuvas em abril e maio. “Essa falta foi tão grande e tão violenta que causou uma perda de 35%”, calcula, acrescentando que, após as geadas de junho, a quebra se intensificou: “A safrinha foi comprometida em mais 7%, somando 42%”, menciona.
CONSUMO X PRODUÇÃO
Considerando que apenas 1% das áreas do Oeste paranaense foi colhido até começo de julho, os outros 99% do milho seguem suscetíveis a problemas climáticos, pontua o presidente da Coopavel. “Somando seca, primeira geada e mais duas ou três que aconteceram na sequência, a quebra está acima de 60%. Traduzindo em números, o Paraná, que ia colher 13 milhões de toneladas, vai colher menos da metade, de cinco a seis milhões de toneladas nos 2,5 milhões de hectares plantados do Estado”, enumera.
Para ele, haverá um déficit entre o milho necessário e o milho produzido. “O consumo de milho no segundo semestre de 2021 será de dez milhões de toneladas no Estado, mas vamos colher entre cinco e seis milhões de toneladas, ou seja, faltarão quatro milhões de toneladas”, projeta, pontuando que os parceiros comerciais do Paraná, que supririam essa demanda, foram em grande parte atingidos pelos mesmos fenômenos.

Presidente da Coopavel, Dilvol Grolli: “A quebra está acima de 60%. O Paraná, que ia colher 13 milhões de toneladas, vai colher menos da metade, de cinco a seis milhões de toneladas nos 2,5 milhões de hectares plantados do Estado” (Foto: Reprodução)
MENOS SACAS, MENOS RECURSOS
O presidente da C.Vale, Alfredo Lang, endossa as palavras de Grolli e avalia as perdas como “severas”. “A produção do Paraná será 60% menor, após estiagem e geadas. No Mato Grosso do Sul, a quebra também é em torno desse percentual”, declarou ao O Presente.
Sabendo que milhões de sacas de milho deixarão de ser produzidas, o cooperativista prevê bilhões de reais deixando de circular entre produtores, empresas e consumidores. “Vai haver dificuldades de abastecimento nas empresas, além de reduzir a rentabilidade da produção e o encarecimento das carnes ao consumidor”, relata.
IMPORTAÇÃO INEVITÁVEL
Lang diz que cerca de oito dias após as geadas já foi possível vislumbrar um aumento na casa dos 16% no preço do milho, que passou de R$ 72 para R$ 84. “O Brasil vai precisar importar milho, porque o Centro-Oeste não tem volume suficiente para abastecer o Sul. Além disso, boa parte do milho do Centro-Oeste já está comprometida em contratos de exportação”, pontua.
Ele afirma que a importação é “inevitável” e que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima importar 2,3 milhões de toneladas de milho para todo o Brasil. “O milho da safrinha seria utilizado até a chegada da safrinha de 2022. Somente no segundo semestre vão faltar quatro milhões de toneladas para as necessidades de consumo do Paraná”, calcula.

Custo de produção deve aumentar bastante, o que já vem acontecendo. Parte dele será repassado ao consumidor, pois as indústrias estão com a rentabilidade apertada e não há como absorver sozinhas todo esse aumento (Foto: Divulgação/C. Vale)
AUMENTO NOS CUSTOS
Como consequência da quebra na safrinha, Lang aponta que o custo de produção deve aumentar bastante, o que já vem acontecendo. “Parte dele será repassado ao consumidor, pois as indústrias estarão com rentabilidade apertada e não há como absorver sozinhas todo esse aumento”, lamenta.
Por parte da C. Vale, o líder cooperativista ressalta que ainda há milho para vários meses de consumo e que a cooperativa pode trazer grãos do Mato Grosso, onde também atua. “Isso nos dá uma relativa tranquilidade, mas claro que o custo será maior, afinal são cerca 1,5 mil quilômetros de distância”, expõe.
AJUSTE NOS VOLUMES
Questionado quanto a possíveis prioridades caso a situação se complique, o presidente da C.Vale indica que deve ser necessário ajustar os volumes fornecidos tanto para o mercado interno quanto externo, a fim de que ambos sigam sendo atendidos.
Lang chama atenção para o fato de que os preços do milho já estavam nas alturas antes mesmo da quebra, o que não favorece o cenário. “Argentina e Estados Unidos, os outros dois grandes produtores, logicamente vão se beneficiar da nossa necessidade”, considera.

Presidente da C.Vale, Alfredo Lang: “O Brasil vai precisar importar milho, porque o Centro-Oeste não tem volume suficiente para abastecer o Sul. Além disso, boa parte do milho do Centro-Oeste já está comprometida em contratos de exportação” (Foto: Arquivo/OP)
ALOJAMENTO MENOR DE AVES E SUÍNOS E REPASSE AO CONSUMIDOR NÃO SÃO DESCARADOS
No time dos cautelosos, o presidente da Cooperativa Agroindustrial Lar, Irineo Costa Rodrigues, considera prematuro fazer estimativas de perdas da safrinha. “Seria um mero chute”, pontua. No entendimento dele, é preciso aguardar as primeiras colheitas para avaliar a produção e, além disso, a qualidade do milho colhido.
O clima seco e sem chuvas tido atualmente é, na opinião do líder cooperativista, um ponto positivo para a safrinha. “É muito difícil opinar sobre a efetiva perda nesse mês de julho. Isso deve ser possível pela metade de agosto, porque aí vai ser colhido o milho que mais sofreu com a geada e deve ter tido a qualidade dos grãos comprometida, além do volume”, menciona.
“NÃO COGITAMOS DESABASTECIMENTO”
Ao O Presente, Rodrigues diz que, caso houvesse dependência do mercado somente pela safra brasileira, pela segunda safra, poderia faltar milho no mercado interno. Contudo, ele afirma que não existe essa exclusividade no abastecimento. “Já existe uma continuidade na importação de milho da Argentina por parte de grandes companhias. Também virá milho do Paraguai, assim que a colheita iniciar no país vizinho. A safra americana está se desenvolvendo e, se for boa e o dólar não estiver tão elevado, deve se viabilizar a importação de lá”, opina.
Nessa perspectiva, o presidente da Lar não cogita o desabastecimento, posto que a cooperativa será abastecida por alguma frente, seja pela Centro-Oeste ou seja por importação.
Ele alega que há tempo para que as coisas se ajeitem. “Desde que venham chuvas mais cedo que no ano passado, pelo mês de agosto, há incentivo ao milho de verão, o que ajudaria no abastecimento. Se plantado em setembro, a colheita se dá no mês de janeiro. Tudo pode ir se arrumando no andar da carruagem”, afirma.

Presidente da Lar, Irineo Costa Rodrigues: “É muito difícil opinar sobre a efetiva perda nesse mês de julho. Isso deve ser possível pela metade de agosto, porque aí vai ser colhido o milho que mais sofreu com a geada e deve ter tido a qualidade dos grãos comprometida, além do volume” (Foto: Arquivo/OP)
QUALIDADE ADEQUADA
Considerando a cooperativa Lar, o presidente afirma que não há nenhum “apavoro” diante da situação. “Inclusive, já adquirimos um pouco de milho do Mato Grosso e pode vir também de Goiás; é preciso que venha, porque vem com mais qualidade. Além disso, o trigo colhido com qualidade comprometida para pão, por exemplo, pode virar ração para os animais”, expõe.
Para que seja possível utilizar o milho local, acometido pela estiagem e pelas geadas, o presidente da Lar ressalta que é preciso que o grão apresente uma qualidade adequada. “Um milho com qualidade comprometida não serve para todas as partes da nossa criação, como, por exemplo, as matrizes gestantes ou em lactação da suinocultura”, salienta.
ALOJAMENTO MENOR
Apesar de refutar a possibilidade de desabastecimento, Rodrigues vê o encarecimento da produção como algo certeiro. “Havendo um encarecimento muito forte, pode haver uma diminuição de produção por meio de um alojamento menor. Também pode ser preciso fazer um repasse do preço do frango ao consumidor”, enaltece.
Segundo ele, “não existe milagre” e as companhias não vão suportar o prejuízo por um período muito longo. “A atividade já está no vermelho e uma hora isso tem que parar, porque se não compromete a vida das empresas. Como se diminui o prejuízo? Produzir menos, alojar menos frango e quem sabe menos suínos, menos ovos comerciais, mas o repasse do preço também”, pontua, emendando: “Não vai haver o crescimento da produção de suíno e frangos no Paraná por um ano. Todas as empresas tinham perspectivas de crescimento e estávamos crescendo, mas isso não vai acontecer dentro de um ano. Deve reduzir a produção, mas nada significativo”, observa.
SENSO DE DEFESA
Sobre possíveis prioridades diante da diminuição da produção, Rodrigues alega que, como produtora, o papel da cooperativa é se defender nesses momentos, optando pelo mercado que melhor remunerar, seja ele externo ou interno. “Não nos cabe fazer políticas de abastecimento e nunca se pode prejudicar o exportador. A Argentina e outros países estipularam isso, mas fazer as empresas atenderem ao mercado interno em detrimento de um resultado financeiro melhor para reduzir o prejuízo é um tiro no pé. Quebra as empresas, desestimula a produção e o consumidor sofre quando faltar alimentos”, salienta.
Ele diz, por outro lado, que também os compromissos no mercado externo existem dentro de uma viabilidade financeira. “O jogo é bruto e é preciso resolver os problemas para não comprometer a viabilidade econômica da empresa, visto que os empregos precisam continuar girando no país”, finaliza.
O Presente