Cascavelense que tiver fôlego para chegar a outubro de 2045 e fizer uma visitinha à catedral poderá se deparar com ele: dom Adelar Baruffi.
O gaúcho de Coronel Pilar, cidadezinha de 1,7 mil almas encravada na Serra Gaúcha, região de Bento Gonçalves, assume a condição de chefe da Igreja Católica na Arquidiocese de Cascavel no próximo dia 31.
No mês da posse, ele terá completado tenros 52 anos de idade. Dá para dizer que Adelar é um “padre prodígio”, dono de uma carreira eclesiástica meteórica.
Ordenado padre aos 26 anos e elevado à condição de bispo ainda menino para os padrões da Igreja de Roma, aos 46 anos, dom Adelar poderá construir um longo bispado em Cascavel.
A regra é clara: bispos têm data de admissão e de “demissão”. A aposentadoria de dom Adelar em Cascavel só virá aos 75 anos, quando recebe um nome pomposo, pendura o solidéu e veste o pijama: bispo emérito.
Assim sendo, Adelar estará – se Deus quiser, diria ele – à frente do arcebispado de Cascavel por um quarto de século, quase o dobro de seus antecessores, dom Mauro (in memorian) e dom Lúcio, bispo emérito.
De toda forma, mesmo o longevo – se Deus quiser, lógico – Adelar não vai bater o “campeão dos campeões”, dom Armando Círio. O italiano comandou a igreja por aqui em longos 27 anos, quase um Matusalém, homem que viveu apenas 969 anos antes de subir aos céus.
Polarização
O novo bispo, ou bispo novo, como queiram, concedeu a primeira entrevista coletiva na segunda-feira (27). O Pitoco estava lá e tentou farejar a posição ideológica dele em meio à doentia polarização política brasileira.
Vale dizer: em determinados círculos da elite econômica local, o antecessor, dom Mauro, era tratado como “bispo vermelho”.
“Não tenho medo disso, sei de onde estou partindo. Alguém pode interpretar de um lado ou de outro e a teologia e a filosofia permitem interpretações diferentes”, disse dom Adelar, encurtando a prosa.
Mas, afinal, de onde o bispo está partindo? Em Cruz Alta, onde atua até o fim de outubro, ele tem presença constante em redes sociais, incluindo um perfil no Facebook.
Ali ele costuma postar mensagens doutrinárias em áudio ou vídeo. Já está no quinto volume a coletânea de artigos semanais do bispo. Trata-se, portanto, de um produtor de conteúdos, características que dá um verniz intelectual diferenciado na igreja ao mestre em Teologia e especialista em Espiritualidade pela Pontifícia Faculdades Teológica Teresianum, de Roma.
O bispo é um comunicador. “Creio que a evangelização hoje, com tantas possibilidades, deve dispor de todos os meios, seja por jornal, sites, televisão, rádio, WhatsApp e Instagram”, destaca o bispo.
Vermelhou
Mas, enfim, qual é a cor do arcebispo? Vermelha, certeza. Ele revelou-se torcedor do Colorado, o Internacional de Porto Alegre. A tinta política é algo ainda para ser decifrado – ou não, já que ninguém é obrigado a cerrar fileiras no entorno de ideologias idiotizantes, como essas que polarizam o Brasil de hoje.
Algumas pistas: entre os 152 nomes de bispos e arcebispos que assinaram uma carta com duras críticas ao governo Bolsonaro em julho de 2020 não consta o chamegão de dom Adelar.
Já na carta de abril de 2017, em que a CNBB repudia a reforma trabalhista e previdenciária proposta por Michel Temer, surge entre os signatários o nome do novo arcebispo de Cascavel.
“É inaceitável que decisões de tamanha incidência na vida das pessoas e que retiram direitos já conquistados sejam aprovadas no Congresso Nacional sem um amplo diálogo com a sociedade”, pontuava a missiva anti-Temer.
Em tempo: fã do “papa do fim do mundo”, o Francisco, dom Adelar cometeu uma gafe na coletiva. Trocou o nome do padre Zico, chamando-o de padre Chico. Novato que é (em vários sentidos da palavra), tá perdoado – se Deus quiser…

Dom Adelar durante coletiva à imprensa, na segunda-feira (27). Ele assume a condição de chefe da Igreja Católica na Arquidiocese de Cascavel no próximo dia 31: verniz intelectual (Foto: Jorge Pastore)

Dom Adelar com o papa Francisco, de quem é fã (Foto: Jorge Pastore)
Dom Adelar foi ordenado padre aos 26 anos e elevado à condição de bispo ainda menino para os padrões da Igreja de Roma, aos 46
Pitoco