Colheitadeiras e plantadeiras se revezando nas lavouras, com pouco ou nenhum intervalo. É assim que agricultores de Marechal Cândido Rondon e região têm se virado nos últimos dias, com a colheita da safra de soja 2020/2021 e o plantio do milho safrinha, com prazos “apertados”.
De acordo com o Departamento de Economia Rural (Deral), 425 mil hectares foram plantados com milho de segunda safra na regional de Toledo, com previsão de 2,5 milhões de toneladas. Como cultura de menor presença, 40 mil hectares devem ser plantados com trigo, com previsão de produção de 120 mil toneladas.
“O milho está sendo implantado fora da época ideal e, por isso, fica sujeito a intempéries climáticas, como as geadas. Há previsão de poucas chuvas até junho, o que também pode comprometer a produtividade”, aponta a técnica do Deral, Jean Marie Aparecida Ferrarini.
Segundo ela, a problemática que afligiu agricultores desde a safra passada ainda está presente nas lavouras da região: a cigarrinha do milho. “Elas deixam a planta fragilizada e afetam a produção. Os agricultores devem acompanhar e aplicar produtos para a cigarrinha quando necessário, mas é um inseto de difícil controle, pois se locomove muito na lavoura. Não significa, a princípio, que ela vá afetar gravemente a produção, mas pode acontecer se as condições a favorecerem e o produtor não se atentar aos devidos controles”, alerta.

Técnica do Deral, Jean Marie Aparecida Ferrarini: “O milho está sendo implantado fora da época ideal e, por isso, fica sujeito a intempéries climáticas, como as geadas. Há previsão de poucas chuvas até junho, o que também pode comprometer a produtividade” (Foto: Divulgação)
LAVOURAS CONTROLADAS
Eugênio Hollmann e seu filho plantaram 22 alqueires de milho safrinha. Para eles, o controle da cigarrinha e demais pragas já está acontecendo. “Esse ano parece que temos menos pragas que nos outros anos. Passamos duas vezes defensivo para cigarrinha, herbicida para controlar alguma soja ou erva daninha que restou. Tivemos boas chuvas em cima e esperamos que ela continue vindo”, comenta Hollmann.
O último pedaço de terra plantado pelo rondonense foi concluído no sábado (20). “Consegui assegurar todas as minhas áreas. Agora, é preciso ser otimista, porque plantamos tarde e corremos risco de geada”, menciona.

Produtor rondonense Eugênio Hollmann plantou 22 alqueires com milho safrinha, todo assegurado: “O milho está melhor do que no ano passado. Nasceu bem, tá com estande melhor e temos boas expectativas. O preço está bom, o investimento foi alto e esperamos uma boa safrinha” (Foto: O Presente)
FACA DE DOIS GUMES
O produtor vê com bons olhos o desenvolvimento da safrinha em suas lavouras até o momento. “O milho está melhor do que no ano passado. Nasceu bem, está com estande melhor e temos boas expectativas. O preço está bom, o investimento foi alto e esperamos uma boa safrinha”, enaltece.
Além de agricultor, Hollmann também trabalha com a avicultura em sua propriedade e, com os preços nesse patamar, fica com receio da atividade. “Posso ganhar na lavoura com preços altos, mas na avicultura isso pode resultar diferente. Está muito desequilibrado e talvez isso não seja bom, é uma faca de dois gumes”, pondera.

Sábado (20) foi o último dia do zoneamento para o plantio da safrinha (Foto: O Presente)
MARECHAL RONDON
Em Marechal Cândido Rondon, praticamente todo o milho safrinha foi plantado. “O plantio aconteceu ao mesmo tempo da colheita. As colheitadeiras passaram colhendo a soja e o plantio foi realizado no mesmo momento”, expõe o engenheiro agrônomo da Agrícola Horizonte, Cristiano da Cunha. “No sábado encerrou o zoneamento agrícola e praticamente 95% das áreas de milho já estavam plantadas”, mensura.
Sobre outras culturas plantadas em Marechal Rondon, o engenheiro agrônomo expõe que são um número relativamente baixo se comparadas com a quantidade de milho. “Alguns agricultores deixam parte da área para semeadura do trigo ou de outras culturas de inverno, de adubação verde, como aveia e nabo. A porcentagem desses produtores chega em torno de 10%”, informa.

Engenheiro agrônomo da Agrícola Horizonte, Cristiano da Cunha: “A maioria dos agricultores conseguiu fazer o seguro. As lavouras estão asseguradas, seja em seguradoras particulares ou pelo Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária)” (Foto: Arquivo/OP)
PLANTIO ATRASADO
Como a soja foi plantada em grande parte em outubro, o plantio do milho safrinha também atrasou cerca de 30 dias, menciona Cunha. “O milho está plantado fora da melhor época, mas as expectativas em relação à safrinha sempre são boas, o agricultor é esperançoso e investe no milho”, salienta.
Segundo ele, ainda que tardiamente, parte da safrinha foi semeada dentro do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc). “A maioria dos agricultores conseguiu fazer o seguro. As lavouras estão asseguradas, seja em seguradoras particulares ou pelo Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária)”, comenta.
A SAFRINHA E A CHUVA
Considerando que o outono é uma estação convencionalmente com poucas chuvas e as previsões não são otimistas para este ano, o engenheiro agrônomo ressalta que o milho safrinha é uma cultura que suporta melhor a falta de chuva.
“No outono as temperaturas tendem a baixar devagar e, consequentemente, a evapotranspiração da planta, ou seja, a perda de água da planta, não é tão acentuada como em épocas com altas temperaturas. Se tivermos chuvas espaçadas, de dez a 20 dias, já é o suficiente para que o milho safrinha se estabeleça e passe pelo processo vegetativo e reprodutivo com tranquilidade”, detalha.

Com o controle de pragas realizado, milho plantado no início de março pelo seu Eugênio se desenvolve bem (Foto: O Presente)
RISCO DE GEADAS
Sobre a possibilidade de geadas, Cunha destaca que tal intempérie sempre é um risco. “O milho plantado dentro do mês de março está suscetível a geadas sim, caso venham com intensidade alta, principalmente nos meses de junho e julho. O agricultor lida com esse risco, por isso as lavouras estão no seguro. Temos esperança de que a geada não aconteça e a safrinha seja satisfatória”, pontua.
PLANTAS JOVENS E SUCETÍVEIS
Nesse momento inicial, aponta o agrônomo, o produtor precisa ter cuidados especiais com as plantas do milho, pois estão jovens e suscetíveis a ataques de pragas. “O agricultor tem que ter atenção no controle do percevejo, da lagarta e, principalmente, da praga nova, a cigarrinha do milho, que há dois anos está em nossa região”, frisa.
Cunha explica que nesse momento a cigarrinha pode aparentemente não causar problemas, mas ela introduz molicutes na planta e o dano aparece somente na fase de enchimento do grão do milho. “É importante monitorar e controlar a cigarrinha se for necessário. Fazemos o monitoramento diário das lavouras da região e praticamente em todas elas há presença de cigarrinhas. Não sabemos se estão infectadas ou não. Como não sabemos, é importante que se faça o controle delas para que não tragam prejuízos maiores ao agricultor”, finaliza.
CHUVAS ABAIXO DA MÉDIA INDICAM POSSIBILIDADE DE GEADAS
No sábado, o Hemisfério Sul iniciou o outono, estação que vai até 21 de junho, quando abre espaço para o inverno. “O fenômeno La Niña segue atuando sobre as águas do Oceano Pacífico e influenciando as condições climáticas no Paraná neste outono e a tendência é de que os sistemas sejam enfraquecidos”, informa o meteorologista do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), Fernando Mendonça Mendes.
Segundo ele, é de praxe que as chuvas diminuam no outono se comparado com o período de verão. “Entramos em uma descendente em relação às chuvas. Quanto mais próximo do inverno, mais diminuem. No Paraná são esperadas chuvas de normal a abaixo do normal, com grande possibilidade de ser abaixo da média da estação”, indica.

Meteorologista do Simepar, Fernando Mendonça Mendes: “As geadas ocorrem à medida que tivermos deslocamento ou aproximação de massas de ar mais intensas. A questão de termos chuvas provavelmente abaixo do normal é um indicativo de que tenhamos geadas” (Foto: Divulgação)
OESTE E SUDOESTE
Mendes explica que tanto o setor Oeste como o Sudoeste do Paraná estão na rota de aproximação dos sistemas frontais que vêm do Sul do globo. “Normalmente, os dois setores se beneficiam com chuvas, com maiores instabilidades que outras regiões. Oeste e Sudoeste se beneficiam também da formação de instabilidades na região do Paraguai”, destaca.
PRECIPITAÇÕES
Favorecida pelas condições climáticas, Mendes relata que as precipitações devem ocorrer mais próximas da normalidade no extremo Oeste paranaense, no qual se enquadram Marechal Rondon e municípios da microrregião. “Em abril, as chuvas devem ocorrer mais normalmente, em maio e em junho podem vir abaixo da média no extremo Oeste”, analisa.
De acordo com a Rede Agroclimatológica do Instituto de Desenvolvimento Rural (IDR) do Paraná, a faixa de variação de chuvas, segundo média histórica, para abril é de 80 a 130 milímetros, em maio é de 70 a 150 milímetros e em junho é de 50 a 130 milímetros.
TEMPERATURAS
O outono, aponta Mendes, é uma estação transitória e aos poucos os dias ficarão mais frios. “No início ainda se parece com verão, no meio é outono de fato e no final da estação é parecido com inverno”, expõe.
Dados da Rede Agroclimatológica do IDR paranaense apontam que na média histórica as temperaturas oscilam entre 16,8°C e 26,3°C em abril no Oeste paranaense, em maio variam entre 15°C e 23,7°C e em junho entre 13,7°C e 22,2°C.
GEADAS
Prever geadas atualmente é difícil. “Apenas em maio e junho é possível saber melhor a respeito de geadas. Em abril os casos de geada são raros. As geadas ocorrem à medida que tivermos deslocamento ou aproximação de massas de ar mais intensas. A questão de termos chuvas provavelmente abaixo do normal é um indicativo de que tenhamos geadas”, observa.
Por outro lado, o meteorologista destaca que não há tantos deslocamentos de frentes de chuvas. “Se não temos tantas frentes trazendo chuvas, consequentemente não temos massas de ar frio na retaguarda”, menciona, frisando que a ocorrência de geadas depende do deslocamento de frentes com massas de ar com potencial de resfriamento ao ponto de geada.
O Presente