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Por longos anos, Cascavel frequentou Guinness Book pela confecção de um símbolo nacional; licitação subtraiu o título

calendar_month 26 de dezembro de 2021
4 min de leitura

Vídeos nem sempre são datados, embora tenham prazo de validade. E acabam induzindo a percepções erráticas. Voltou a pulular de zap em zap um vídeo que mostra Cascavel no Guinness Book pelo fato de uma indústria local confeccionar a maior bandeira oficial permanentemente hasteada no planeta.

Na gravação aparecem o empresário cascavelense Sergio Roberto Tomasetto e o ex-candidato ao Senado, Marcelo Almeida, na condição de entrevistador. O vídeo é de 2017 e retratava fielmente a realidade daquele momento. De fato, a Bandvel, indústria cascavelense, produziu a gigantesca bandeira de 280 metros quadrados hasteada na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Há pouco mais de dois anos a confecção não está mais a cargo da Bandvel. Como quase tudo no Poder Público, os fornecedores são periodicamente submetidos a certames licitatórios. Uma empresa concorrente da Bandvel ofereceu-se a produzir a bandeira por um terço do valor de mercado, algo como R$ 6,9 mil por unidade. “Esse valor não cobre o custo nem do tecido”, diz Sergio.

Provavelmente o bandeiroso que assumiu para si a responsabilidade de ornar a Praça dos Três Poderes esteja mesmo pagando para fazê-lo, enriquecendo seu portfólio, frequentando o Guinness. Pode ser por patriotada também.

Nada disso, porém, tira o mérito da Bandvel, menos ainda o conhecimento que ficou. Honrado com a missão de confeccionar a bandeira, Sergio tornou-se um especialista no símbolo nacional.

Ele relata na entrevista a Marcelo Almeida saberes que estão restritos a uma pequena fração de brasileiros.

Sergio sabe apontar a qual estrela do pavilhão corresponde cada um dos Estados da federação. E dá uma aula de história: “A constelação que está na bandeira foi vista no céu do Rio de Janeiro, às 08h30 (12 horas siderais), a partir de um observatório fora da terra, tanto assim que o Cruzeiro do Sul aparece invertido”.

Citando o positivista Augusto Comte, ele explica cada palavra, inclusive a ausente, no lema da bandeira. Amor por princípio, ordem por base, progresso por fim são premissas do positivismo, corrente de pensamento que até hoje influencia cabeças coroadas das Forças Armadas.

Na sequência da aula, Sergio explica que a bandeira é trocada todo mês na Praça dos Três Poderes por imposição legal. E sempre estará tremulando, já que antes de descer a atual, sobe a nova ao seu posto localizado a 100 metros de altura.

Em tempo: a confecção da bandeira pode voltar para Cascavel. Tem licitação novamente no início do próximo ano e o CNPJ do “professor” Sérgio estará lá na disputa. Boa sorte!

 

ANÁLISE

l A palavra “amor”, embora esteja presente na frase original que inspirou o lema na bandeira do Brasil, ficou fora. Para sermos fiéis aos fatos, deveríamos grafar: “Amor, ordem e progresso”. Talvez ao grupo que coube a decisão final pesou o fator concisão. Mais provável, porém, é que “amor” poderia parecer “fraqueza”, algo incompatível com hinos recheados de expressões que remetem para a suposta virilidade dos “patriotas” da época.

 

l Na polarização da política brasileira, há quem diga que determinado agrupamento, movido por projeto de poder, adonou-se da bandeira, da mesma forma que se apoderou da camiseta da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Bobagem. Vestir a bandeira sobre as costas ou na antena do carro não torna ninguém mais patriota que outros.

 

l Para o conceito de patriotismo, quando contaminado por projeto ideológico, há uma frase épica do literato inglês Samuel Johnson: “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. Sim, a frase é forte e até ofensiva para alguns. Mas é lapidar para a politicalha daqueles “patriotas” de ocasião, que usam as cores do Brasil de dia para saqueá-lo à noite.

 

l Em tempo: a bandeira na Praça dos Três Poderes tremula a igual distância do Judiciário, do Parlamento e da Presidência da República. Não é, portanto, símbolo de governo ou de qualquer agrupamento que reivindica para si a primazia da devoção pátria.

 

(Foto: Divulgação)

 

 

Pitoco

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