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“Precisamos migrar do analógico para o digital”, diz vice-presidente do POD

calendar_month 13 de maio de 2020
12 min de leitura

O desafio que o período de pandemia do novo coronavírus deixa à sociedade é que ela saia do campo clássico para um campo mais virtual. A avaliação é do vice-presidente do Programa Oeste em Desenvolvimento (POD), Elias Zydek. “Essa pandemia trouxe um despertar de que precisamos sair da economia clássica e procurar avançar mais na economia espacial, ou seja, migrar do analógico para o digital”, opina ele, que é diretor-executivo da Frimesa.

Em entrevista ao O Presente, Zydek faz uma análise do cenário econômico brasileiro, fala das expectativas positivas que o Oeste do Paraná tem em relação às demais regiões do país para sair da era pós-Covid menos “machucado” dos efeitos da crise e revela as iniciativas do POD para a retomada do desenvolvimento da região. Confira.

 

O Presente (OP): O POD é considerado um tradutor das demandas do Oeste a partir das suas inúmeras iniciativas, estudos e projetos que visam colaborar com o desenvolvimento da região. Essa pandemia inesperada muda alguma coisa no andamento das atividades da entidade e de suas câmaras técnicas?

Elias Zydek (EZ): O POD foi constituído pela união de todas as forças do Oeste do Paraná, envolvendo entidades públicas, privadas, associações, lideranças, pessoas do campo econômico, político e social para que as reivindicações sejam faladas na mesma linguagem para dar força às reivindicações da região Oeste. Nossa grande diretriz são eixos estabelecidos. A prioridade para este ano e o próximo ano é trabalhar com a sanidade agropecuária. Várias conquistas já foram obtidas, mas temos um plano e um trabalho pela frente. O segundo eixo é infraestrutura e logística, que são projetos com recursos públicos e projetos privados para a nossa região na questão de ferrovias, a duplicação da BR-277, duplicação de rodovias com maior circulação, modernização do Porto de Paranaguá e implantação de um aeroporto regional, além das melhorias programadas para a cidade de Foz do Iguaçu. O terceiro eixo é o plano energético do Oeste, a partir do qual pretendemos melhorar para os sistemas que fornecem energia através da geração e distribuição no Oeste atendam a necessidade de consumo de energia, principalmente para o parque industrial projetado à região e também estimular a produção de energia alternativa. Existe um comitê trabalhando em cima disso, junto com o Governo do Estado. O quarto eixo trata do Sistema Regional de Inovação (SRI) criado para fazer um mapeamento de tudo o que existe hoje em inovação e tecnologia da informação, desde parques tecnológicos, universidades, centros de pesquisa. No movimento Iguassu Valley diversas cidades criaram seus núcleos e há troca de informação e de experiência muito grandes. O Biopark, em Toledo, tem papel importante no desenvolvimento da inovação no Oeste do Paraná, vai muito bem e podemos citar exemplos durante o coronavírus, quando foram criados grupos que geram tecnologias, como o desenvolvimento e aperfeiçoamento do respirador a ser produzido na cidade de Marechal Cândido Rondon. O quinto eixo é o da educação, no qual estimulamos a formação da educação empreendedora para colocar na mente dos jovens o espírito inovador, empreendedor, para que saiam da escola buscando os desafios de criação, produção e do desenvolvimento. O sexto eixo é o da sustentabilidade ambiental, com uma equipe sendo formada para atuar na solução e destinação dos dejetos oriundos das produções do Oeste e também do aproveitamento e da reciclagem do que é gerado no ambiente urbano. Esses programas começaram muito bem, acredito que em breve teremos projetos de integração, principalmente para esse tratamento do lixo urbano, além de estimular programas de conservação de solo e das águas no Oeste paranaense. Por último, o sétimo eixo é o dos pequenos negócios, estimular as pequenas e médias empresas, principalmente aquelas que produzem materiais e equipamentos, a atender as grandes empresas e exportar para outros Estados. O Sebrae coordena mobilização para que este movimento se expanda, no entanto houve uma pequena parada em função da dificuldade de reunir esses grupos, mas é um projeto que trará bastantes soluções e ideias para desenvolver novos negócios.

 

OP: Em relação aos eixos prioritários já definidos para 2020 e 2021 há alguma mudança, novos focos ou estratégias diante do cenário atual?

EZ: Em alguns casos, houve uma pequena pausa devido à dificuldade de reunir os grupos, mas a intenção é que o POD continue estimulando, mesmo que de forma virtual, todas as entidades envolvidas, as pessoas e lideranças para cumprir essas diretrizes estabelecidas.

 

OP: Por ser um polo de inovação no agronegócio, por ter o agro como o maior pilar de sustentação, o Oeste sentirá de forma mais amena os efeitos da pandemia de Covid-19? Sairá ileso?

EZ: O Oeste do Paraná é uma região diferenciada. Temos uma energia propulsiva que é uma energia própria que o agronegócio traz para o Oeste do Paraná. Somos capazes de produzir, transformar, processar e criar riquezas e agregar valores aos nossos produtos. Podemos dizer que somos uma região privilegiada por ter uma cultura empreendedora, com clima, solo, pessoas com cultura empreendedora e de produção, e isso faz com que o nível cultural e socioeconômico dos habitantes seja maior do que a média nacional. Certamente enfrentaremos melhor essa pandemia do novo coronavírus. Ileso é difícil, mas sairemos menos machucados do que as demais regiões do Brasil. Temos certeza e também a capacidade de recuperação de trabalho, de persistência do povo oestino. Apostamos muito nesse potencial todo do Oeste do Paraná. As empresas mais ligadas ao agronegócio sofrerão menos nessa pandemia e certamente sairemos da crise com maior velocidade do que outras regiões.

 

Vice-presidente do POD, Elias Zydek: “Apostamos muito nesse potencial todo do Oeste do Paraná. As empresas mais ligadas ao agronegócio sofrerão menos nessa pandemia e certamente sairemos com maior velocidade da crise do que outras regiões”

 

OP: Como o senhor imagina ser a retomada em prol do desenvolvimento regional no período pós-pandemia?

EZ: Nessa semana tivemos uma reunião remota com todas as lideranças do POD, quando foi discutido exatamente como e o que fazer para retomar o desenvolvimento econômico da nossa região. Vamos retomar a criação dos conselhos municipais de sanidade, pois o coronavírus é um problema de sanidade humano, mas existem problemas de sanidade animal e vegetal que podem se transformar em pandemia e afetar nossos rebanhos e plantações. Por isso, junto dos agentes da Secretaria de Agricultura, Emater, Adapar, Faep e Ocepar vamos estimular com bastante energia a criação desses conselhos. Outra ação envolve cinco programas para a retomada da economia urbana. O primeiro deles é o Programa Desenvolve Paraná, criado e moldado pelo Sebrae com o subtítulo de “Reinvente a sua cidade”, ou seja, transformar a crise em oportunidade. O Sebrae criou a “Trilha para a retomada da economia”, cartilha que mostra a rotina e todo procedimento para as empresas utilizarem de organização administrativa, operacional, fluxo de caixa, sistema de comercialização, questão financeira, de como seguir para uma retomada mais firme, rápida e mais segura. Outro projeto chama-se “Projeto Oeste Compra Oeste”, o qual já começamos a divulgar principalmente no setor público, mas também nas empresas privadas, para dar preferência para compras em sua cidade. Acho este um fermento para que a economia do município volte mais rapidamente a circular e a produzir. O terceiro programa trata de ações do SRI, através do Iguassu Valley, com atuação muito intensa, dez grupos de trabalho em vários segmentos para acelerar o desenvolvimento de plataformas, sistemas e programas que facilitem o empresário na sua gestão e criação de novos negócios. Um quarto item discutido é a criação de uma moeda ou espécie de cartão regional Oeste. Está no campo das ideias, sendo amadurecido e ao invés de distribuir recursos, criaríamos um fundo com a distribuição de cartões, seja de auxílio a famílias e desempregados para esse cartão ser gasto dentro da cidade. Outra ideia é ampliar o Fundo Regional de Investimentos, pois hoje existem as garantidoras, como a GarantiOeste, onde as entidades, empresas, setor público e cooperativas de crédito e bancos depositem em um fundo de aval que garantiria aos bancos e cooperativas de crédito emprestar dinheiro para o empreendedorismo da região. Esse fundo seria uma espécie de garantia para quem empresta o dinheiro e gera capacidade de alavancagem de dez para um, inclusive com taxa de juros bem menor.

 

OP: Consegue visualizar os principais desafios?

EZ: Acreditamos que essa pandemia trouxe um despertar de que precisamos sair da economia clássica e procurar avançar mais na economia espacial, ou seja, migrar do analógico para o digital. A economia clássica é quando tem um restaurante aberto, as pessoas vão lá para desfrutar do almoço; já em uma economia mais digital, você faz o delivery, o restaurante produz e entrega na residência. Outro exemplo de passar do tangível para o intangível, é que você toca o restaurante e pode vender a ideia de alimentação através da presença de um cozinheiro preparando a refeição na casa do cliente. Você ainda pode evoluir mais indo para o intangível, usando canais de comunicação para ministrar um curso de culinária para as pessoas cozinharem em casa. Isso é totalmente virtual e digital, você faz de casa conforme o instrutor orienta a distância. É claro que o negócio clássico, tradicional e tangível vai continuar nas produções de grãos, carnes, equipamentos, mesa, cadeira, mas temos de agregar a informação digital a essa produção, seja através de softwares de gestão dessa propriedade, da programação virtual dos transportes, da logística, do cálculo de custo, de preço e de resultados virtualmente e que isso esteja interligado na cadeia produtiva com informações para a indústria e essa ao consumidor. Você produzir isoladamente suínos e frangos em uma oportunidade é uma coisa, mas estar interligado a um sistema todo aí é diferente, deve entrar com tecnologia da informação para otimizar as plataformas digitais e melhorar a produtividade, ganhar resultado, eliminar os custos “marginais” que existem em torno disso e conquistar mais agilidade e melhor desempenho nas suas atividades. Esse é o desafio que o coronavírus nos deixa. Nos faz pensar, sair do campo clássico para um campo mais virtual. Acho que a grande lição é ter um pensamento mais digital, porque isso certamente vai eliminar muitas etapas que são custos e não agregam valor ao produto. Já softwares, programas, busca mais rápida de solução, eliminação de custos e despesas vão ajudar na rentabilidade dos negócios. Precisamos pensar mais digitalmente e menos no presencial como vínhamos até agora.

 

OP: O que esperar do futuro?

EZ: Primeiro devemos fazer uma análise do Brasil. Nesse momento temos três grandes crises ao mesmo tempo. A econômica, pois há mais de cinco anos o Brasil produz déficit fiscal. Nesse ano tinha previsão de R$ 130 bilhões negativos, mas com esses programas da pandemia, e quem sabe alguns desvios, a previsão foi para R$ 610 bilhões de saldo negativo nas contas do governo brasileiro. Isso nos preocupa muito. Quanto tempo a população trabalhará para zerar essas contas? A fonte do governo é aumentar impostos para aumentar receita ou colocar a casa da moeda para produzir moeda, o que é altamente negativo, pois vai gerar inflação. Hoje o Brasil paga R$ 400 bilhões por ano só dos juros da dívida que já tem. Nossa dívida é imensa e estima-se que chegue a R$ 6 trilhões ou 90% do PIB (Produto Interno Bruto). Se olharmos esse aspecto econômico é um pouco desanimador. A outra é a crise política: não existe entrosamento entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, pois estão em constantes brigas e um parece que procura atrapalhar o trabalho do outro. Legislativo parece dissecar as propostas do Executivo; o Judiciário se mete a legislar. Essa disputa de poder precisa ser resolvida urgentemente pelas principais lideranças desses poderes. Se não tiver liderança, entrosamento e propósito único de alavancar e desenvolver o Brasil, isso vai complicar mais ainda a questão econômica. Em terceiro lugar tem a crise sanitária devido à pandemia do coronavírus, mas, apesar de ser mais visível e sentido nesse momento, acreditamos que o coronavírus estará dominado a partir de setembro, quando deve cair a quase zero e permitir a retomada das atividades, da economia e fazer a máquina rodar novamente. Essa tempestade perfeita nos preocupa e pode adiar ou prolongar a recuperação brasileira e, por consequência, o desenvolvimento das empresas. Há expectativa muito positiva em relação ao Oeste do Paraná pelas vantagens quando comparado a outras regiões competitivas e devemos aproveitá-las e potencializar para aumentar a velocidade de desenvolvimento e gerar mais oportunidades para todos. Acredito que o PIB ainda terá crescimento positivo no Oeste do Paraná em 2020. Temos muita força, união e vontade de fazer as coisas certas, o que tornará nossa região exemplo ao Brasil na retomada do crescimento e do desenvolvimento. Esta é a esperança.

 

OP: Qual legado/aprendizado essa pandemia nos deixa?

EZ: Primeiro é ter estrutura sólida, de pessoas e empresas cultivarem seu trabalho, seu negócio, administrarem com rigidez, buscando produtividade, administrar o fluxo de caixa, seja de pequena, média ou grande empresa para haver reservas para enfrentar esses períodos que acontecem de vez em quando na vida das pessoas. Fica o aprendizado de ter melhor preparação. Segundo, flexibilidade nas empresas, poder ajustar uma linha de produção, fazer ou mudar o serviço e se habilitar para fazer outro; se fechou um negócio você abre outro. Quem serve hotéis, restaurantes, lanchonetes tem impacto grande, então é necessário estar preparado para vender a vários canais para não ser dependente. Preparar a mentalidade para o mundo digital, visto já no presente, para sair na frente. Os diversos setores devem entender que liderança não é um cargo, mas, sim, postura, exemplo, se postar na vanguarda do que é correto e, principalmente, a postura da inovação, de quem está na linha de frente e enxerga o futuro que é hoje. A visão das lideranças é muito importante para a retomada do desenvolvimento do Oeste e também do Paraná e do Brasil.

 

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