O projeto final do novo modelo de concessão das rodovias do Paraná, apresentado na última quarta-feira (11) pelo ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, tem gerado debates acalorados em todo o Estado, principalmente no Oeste, região que vai receber três novas praças de pedágio, dentre as novas 15 previstas para serem implantadas nas vias paranaenses. Serão entre Cascavel e Toledo, Mercedes e Terra Roxa e Lindoeste.
É consenso entre lideranças oestinas que entre o projeto apresentado inicialmente e o divulgado na semana passada houve avanços, mas ainda há pontos merecedores de críticas.
“Fizemos uma exposição dos nossos pensamentos e dissemos que gostaríamos de uma mudança. O governador (do Paraná, Ratinho Junior) falou com o presidente Jair Bolsonaro e a proposta inicial foi mudada. Nesse quesito, ok. O Paraná pleiteou uma luta e conseguiu mudar o modelo primeiramente apresentado. O que estamos discutindo nesse momento é a praça de pedágio entre Cascavel e Toledo”, declarou ao O Presente o presidente da Associação dos Municípios do Oeste do Paraná (Amop) e prefeito de Cascavel, Leonaldo Paranhos.
Assim como a comunidade regional, o prefeito é da opinião de que “a nova praça não deve acontecer”. Segundo ele, o local indicado imporia custos aos mais de 500 mil habitantes das duas cidades juntas, visto que o tráfego ali é intenso e bilateral. “Temos uma relação de negócios comerciais, industriais e culturais. A pista já está duplicada, então entendemos que não deve haver a instalação de uma praça de pedágio nesse local e é o que estamos discutindo agora”, expõe.
Na quarta-feira, quando do anúncio do projeto em Curitiba, Paranhos chegou a conversar pessoalmente com o ministro da Infraestrutura sobre a situação da região Oeste, solicitando a revisão da praça, e ouviu como resposta de Tarcísio que verificaria com os técnicos sobre a possibilidade.
De acordo com Paranhos, a decisão agora é exclusiva do governo federal, por isso é importante que os bolsonaristas cobrem a retirada da praça. “O nosso apelo é para as pessoas ligadas ao presidente Bolsonaro. Ele tem um grupo de pessoas aqui que sempre lhe dá apoio. Temos que cobrar de quem é devido essa responsabilidade. As rodovias federais são de responsabilidade do governo federal então é uma decisão do presidente da República e do ministro Tarcísio em ter ou não esse pedágio. Faço um apelo aos apoiadores que têm a influência para fazer essa reivindicação.
Nós não queremos fazer barulho, briga, confusão, queimar pneu, buzinaço. Apenas precisamos resolver o problema”, expôs. “Foi dito o seguinte: a praça não terá degrau tarifário, além disso, haverá para os usuários permanentes, aqueles que passam várias vezes, um desconto, um bônus, mas isso não nos convence. Entendo que é uma proposta e tal, mas não nos convence. Nós queremos que não tenha a praça entre Cascavel e Toledo”, ampliou.

Presidente da Amop e prefeito de Cascavel, Leonaldo Paranhos: “É possível rever o projeto, desde que o governo tenha sensibilidade e respeito com a gente” (Foto: Divulgação)
SENSIBILIDADE DO GOVERNO
Diante da manifestação de muitas autoridades contra a praça de pedágio entre Cascavel/Toledo, Paranhos vê possibilidade de revisão do projeto, considerando que ainda não foi oficialmente publicado para licitação. “É possível rever, desde que o governo tenha sensibilidade e respeito com a gente”, pontua.
Na mesma linha de pensamento de Paranhos, o prefeito de Toledo e vice-presidente da Amop, Beto Lunitti, vê condições da reivindicação ser acatada. “O pedágio, da forma que estava no Estado, não poderia permanecer. As forças do Oeste do Paraná iniciaram a mudança do modelo proposto inicialmente e foi uma batalha, em partes, vencida. Mas agora a luta continua em prol da não instalação da nova praça”, enfatizou ao O Presente.
Em reunião extraoficial realizada ontem (16), os chefes do Poder Executivo de Toledo e Cascavel se posicionaram contra a nova praça e exploraram encaminhamentos de resposta à proposta.
“AVENIDA” ENTRE CIDADES
Para Lunitti, a praça não deve ser implantada, haja vista que a rodovia já está duplicada e tem baixa manutenção. “Mesmo com um valor menor e mais descontos, esse pedágio não é bem-vindo. Essa rodovia será quase como uma avenida entre Toledo e Cascavel. Nós estaríamos pagando a conta por obras que não serão realizadas aqui”, frisa.
“SANGRIA NO BOLSO”
As novas praças representam, de acordo com o prefeito de Toledo, um prejuízo completo da maneira que se apresentam. “Será nociva, porque vai tirar dinheiro do bolso dos moradores de Toledo e Cascavel”, lamenta.
Ele destaca que o posicionamento em questão é contrário à instalação dessa nova praça e não ao governo federal propriamente dito. “Não estamos fazendo movimentos políticos, estamos defendendo a economia do município, porque entendemos que a sangria vai ser feita no bolso do usuário que mora em Toledo. Em outros contextos, produtos locais e da região que passem pela nova praça terão esse custo adicionado ao preço final, o que causa perda de competitividade dos nossos produtos”, aponta.

Vice-presidente da Amop e prefeito de Toledo, Beto Lunitti: “Nenhuma obra nos foi apresentada como mecanismo de convencimento, somente que a praça de pedágio seja implantada e se torne um caça níquel para formar milhões de reais para investimentos em outras regiões” (Foto: Divulgação)
OBRAS COMO MOEDA DE TROCA
A tentativa de impor a praça entre as cidades não sinaliza nenhuma vantagem aos usuários locais, assim como não vem acompanhada por obras na região, opina Lunitti. “Nenhuma obra nos foi apresentada como mecanismo de convencimento para essa praça. Além disso, não propuseram, por exemplo, que veículos emplacados em Toledo e Cascavel tenham apenas tarifa de manutenção, de centavos a real, no máximo. Nada disso foi oferecido, somente que a praça de pedágio seja implantada e se torne um caça níquel para formar milhões de reais para investimentos em outras regiões”, evidencia.
Caso a nova praça se confirme, o prefeito toledano sugere um “plano B”, que, segundo ele, visa levantar benefícios numa contrapartida à instalação. “Se essa vontade tão ferrenha do governo Bolsonaro prosperar, por que não damos opção de eles nos oferecerem obras?”, propõe.
Em Toledo, o chefe do Executivo diz haver gargalos que poderiam ser sanados, caso a praça se efetive. “Poderíamos melhorar o acesso dessa rodovia ao distrito de Bom Princípio e fazer as marginais do viaduto da BRF até a Rua Rio Grande do Sul, nos dois lados em um trecho de três a quatro quilômetros, além de um novo acesso à Avenida Maripá, porque o que temos é precário e desajeitado, e à ponte do Rio Toledo, que dá acesso aos bairros Jardim Europa, América e Bela Vista. Precisamos de um novo acesso ao Jardim Concórdia e um viaduto que transpõe o trecho ao Bairro Jardim Independência. Depois da Avenida Cirne Lima e até a Primato, trecho que vai para Marechal Cândido Rondon, precisamos de obra nas marginais”, enumera.
PAGAS E NÃO DUPLICADAS
No entendimento do prefeito de Marechal Rondon, Marcio Rauber, é preciso relembrar que os pedágios já existentes e os novos previstos no projeto estão alocados em rodovias federais, o que leva a demanda à federação.
Ao O Presente, ele afirmou que espera uma “redução significativa do valor dos pedágios já existentes, com a execução das obras que já foram” e se posiciona contrário às novas praças. “Quando saímos de Marechal Rondon e até chegarmos em Curitiba passamos por seis pedágios e pagamos por duplicações que não existem”, exemplifica.
MOBILIZAÇÃO
Assim como os prefeitos de Toledo e Cascavel, Rauber encara a nova praça de pedágio entre as duas cidades com maus olhos. “Pagamos compromissos de pedágios anteriores de que a nossa rodovia seria duplicada, mas ela não foi. Agora a ideia é instalar uma praça de pedágio para que o valor arrecadado aqui seja utilizado para executar obras em outro lugar. Isso é injusto”, enaltece.
“É uma rodovia construída com recurso do Tesouro, está pronta e agora querem permitir que uma empresa privada arrecade sobre uma obra executada pelo governo? Não podemos aceitar”, argumenta.
O prefeito rondonense adianta que as mobilizações políticas para pressão no governo federal já começaram e garante que “enquanto não for para leilão, há esperança de revisão”.

Prefeito de Marechal Rondon, Marcio Rauber: “É uma rodovia construída com recurso do Tesouro, está pronta e agora querem permitir que uma empresa privada arrecade sobre uma obra executada pelo governo? Não podemos aceitar” (Foto: Arquivo/OP)
O Presente