A expectativa da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) é concluir o ano letivo 2020 no mês de setembro. A informação é do reitor Alexandre Webber. Segundo ele, o ano letivo 2021 deve começar no máximo em novembro. “A pós-graduação e a pesquisa fluíram no ensino remoto, funcionando, a extensão atuou dentro das suas possibilidades e a graduação teve 20% das suas atividades remotas. Isso retorna agora em janeiro com 100% em aula remota até que, provavelmente, venha um sistema híbrido com práticas presenciais e a teoria remota”, menciona.
Em entrevista ao O Presente, Webber fez uma avaliação do seu primeiro ano à frente da Reitoria e explicou como vão funcionar as atividades letivas do II período especial e emergencial, com aulas on-line que começam na próxima semana. Ele também comentou sobre a adesão dos acadêmicos e o concurso vestibular que será realizado em julho. Falou, ainda, sobre a atuação do Hospital Universitário do Oeste do Paraná (HUOP) neste período de pandemia e opinou sobre a vacinação contra Covid-19. Confira.
O Presente (OP): O senhor completa neste mês um ano à frente da Reitoria da Unioeste. Qual avaliação faz deste primeiro ano de gestão, considerando que 2020 foi marcado por uma pandemia, aulas suspensas e muitos desafios?
Alexandre Webber (AW): Dentro das possibilidades, tivemos avanços. Foi um ano extremamente difícil, em que priorizamos a saúde, mas chegamos no fim de 2020 com as contas da universidade pagas. Claro, não tivemos grandes investimentos. Foi R$ 1 milhão dividido entre os cinco campi. No final do ano tivemos um investimento de R$ 3,1 milhões em uma parceria entre a Reitoria e os cinco campi em uma negociação junto ao Governo do Estado. O investimento dará uma renovada, digamos assim, no coração da rede lógica e de telefonia da universidade, que era um grande problema e poderia parar a qualquer momento.
OP: A universidade decidiu retomar o calendário letivo de 2020 em 17 de agosto com aulas remotas para algumas disciplinas, dando a opção ao acadêmico de cursar ou não as disciplinas de maneira virtual, em tese, sem prejuízos à sua graduação. Como foi esse processo, houve muita adesão ou grande parte não participou, já que não era obrigatório?
AW: Nós tivemos praticamente 70% dos alunos matriculados, optando pelo ensino remoto. Então, a adesão foi boa, mas eu não tenho o resultado ainda de quantos concluíram essas disciplinas.
OP: Na segunda-feira (18) iniciam as atividades letivas do II período especial e emergencial, com aulas on-line. Como vai funcionar? A partir de então os acadêmicos terão aulas de todas as disciplinas? Será obrigatório, agora? Serão aulas gravadas ou em tempo real?
AW: A partir do dia 18 é 100% de todos os cursos. As aulas serão tanto remotas como em atividades. Mas não será obrigatório. Se o aluno não quiser fazer, ele vai ter de esperar acabar esse período e retornar em outro. A decisão é do acadêmico. Já para os professores e para os colegiados agora não é optativo. Todos retornam dia 18. Cada colegiado vai organizar de que maneira vai fazer isso, quais disciplinas serão dadas primeiro. As aulas serão síncronas, ou seja, em tempo real. O professor e cada colegiado têm a liberdade de ofertar outras atividades. Nos dois últimos anos (dos cursos da área) de saúde estamos tendo aulas práticas presenciais.
OP: O senhor acredita que a adesão vai se manter nos 70%?
AW: Acredito que teremos a adesão da maioria dos acadêmicos. De qualquer forma, não há nenhuma penalidade para quem não fizer. Claro que se não fizer agora tem que fazer depois, quando o ensino for ofertado de maneira presencial.
OP: Recentemente havia previsão de o calendário letivo de 2020 terminar no segundo semestre de 2021. Essa previsão ainda se mantém?
AW: A previsão se mantém. O calendário vai até o meio de setembro.
OP: O ano letivo de 2020 vai coincidir com o de 2021, ou seja, com aulas ao mesmo tempo, ou primeiramente será encerrado o período letivo de 2020 para só então ser iniciado o de 2021?
AW: Não teremos aulas dos dois anos letivos juntos. Pretendemos concluir até o mês de setembro o ano letivo de 2020 e em outubro, no máximo em novembro, iniciar o período letivo de 2021.
OP: O senhor acredita que o retorno das aulas presenciais pode acontecer ainda no primeiro semestre de 2021?
AW: Penso que antes do meio do ano não vai acontecer em sua totalidade. Quando começar a vacinação e isso for evoluindo, teremos um período de transição. Acredito que vamos começar com as aulas 100% remotas, depois de um determinado tempo passar para o sistema híbrido, com as teóricas remotas e as atividades práticas presenciais divididas em grupos, até que se tenha a possibilidade de voltar a uma rotina normal, de ter aula teórica e prática presencial.
OP: Foram realizadas pesquisas com os acadêmicos para verificar a qualidade de ensino no sistema remoto e como o estudante estava diante dessa situação. Entre os acadêmicos se comentou sobre uma possível queda na qualidade, ao contrário do que mostraram os levantamentos. Qual sua opinião sobre isso?
AW: Entre aqueles que responderam a pesquisa não se percebeu isso. Quando se faz uma pesquisa, você tem que usar os dados de quem respondeu. Não adianta chegar no conselho e dizer que apenas mil e poucos responderam; quem não respondeu, não respondeu porque não quis. Então, é uma amostragem e essa amostragem demonstra os resultados da pesquisa. Os resultados apresentados pela pesquisa mostram que foi satisfatório. É óbvio que não é a mesma coisa que o ensino presencial, mas é o modelo possível no momento. Precisamos lembrar que foram 20% das atividades. Voltar com 100% é outra realidade.
OP: Neste período de pandemia, houve muito registro de matrículas trancadas por parte de acadêmicos?
AW: Não, porque nós deixamos em aberto para o aluno. Ele não precisou trancar e ele não foi obrigado a se matricular. Aqueles 20% foram opcionais. Agora, nesta nova etapa, o aluno que decidir não se matricular, vai precisar trancar, mas não vai ter prejuízo, não vai perder aquele ano de graduação do curso. Este ano não vai ser descontado do período dele de integralização na universidade. Então, quem não fizer a disciplina remota vai poder fazer a disciplina quando ela for ofertada presencialmente.
OP: A Unioeste remarcou a data do concurso vestibular 2021, que seria realizado no dia 31 de maio, para 04 de julho. Quem for aprovado vai iniciar a graduação no segundo semestre de 2021 ou somente em 2022?
AW: A ideia é tentar até o meio de outubro, máximo início de novembro, iniciar o ano letivo de 2021. Isso desde que não aconteça algum caos a mais, porque está muito difícil de planejar algumas coisas.
OP: O que esperar deste ano que acabou de começar quanto ao ensino público superior e em específico quanto à Unioeste?
AW: Houve um esforço coletivo muito grande por parte dos professores, estudantes e servidores. Nós só vamos saber o resultado lá na frente. O Ensino Superior público respondeu fortemente em várias áreas na pesquisa, no ensino remoto. O que foi possível manter nos cursos de saúde para formar esses profissionais foi feito. Se em um momento desse não se percebeu a importância do Ensino Superior público para o Brasil, fica difícil, porque as universidades foram essenciais para o país nesse processo. A Unioeste está aí, trabalhando com a sociedade. Inclusive, não foi só o HUOP que trabalhou na pandemia. Nós tivemos um projeto de extensão junto com a Fundação Araucária e a Secretaria de Estado da Educação, que atuou em toda a nossa região, nas fronteiras, nas regionais de saúde, nos hospitais, os laboratórios produziram álcool gel. Foi uma série de atuações que não se resumiram ao hospital. A universidade e todos os campi atuaram fortemente junto da comunidade na pandemia, mantendo o funcionamento do que era possível, principalmente a pesquisa. A pós-graduação não parou.

Reitor da Unioeste, Alexandre Webber: “Foi um ano extremamente difícil, em que priorizamos a saúde, mas chegamos no fim de 2020 com as contas da universidade pagas. Acredito que pelo meio do ano a gente consiga voltar a algo parecido com a normalidade” (Foto: Divulgação)
OP: O Hospital Universitário do Oeste do Paraná é hoje referência na Macrorregião Oeste no combate ao coronavírus. Quantos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) o hospital ganhou desde o início da pandemia?
AW: Nós tínhamos 19 leitos de UTI, sendo 14 na UTI propriamente dita e cinco UTIs do nosso pronto-socorro. Agora, continuamos com os 19 e temos mais 38 exclusivos para Covid-19.
OP: A alta demanda de atendimentos por Covid-19 tem prejudicado os demais atendimentos no HUOP? O foco, nesse momento, é a pandemia?
AW: O hospital não virou exclusivo Covid-19. Ele manteve todos os seus serviços, mas houve momentos em que as cirurgias eletivas foram suspensas no Paraná, como estão neste momento. Foi preciso dar uma priorizada. Com a montagem de leitos para coronavírus, tivemos que reduzir a ala de atendimento geral e vamos recompor conforme contratar mais profissionais por processo seletivo ou chamamento. Nós estamos fazendo um esforço para contratação. Naquele momento inicial, para ter uma abertura rápida das UTIs, nós fechamos duas alas e fomos abrindo elas novamente conforme conseguimos contratar pessoal. Agora, tivemos que usar uma ala do hospital. Hoje estamos com 30 leitos de UTI no bloco que é para queimados. O prédio estava pronto, mas não tinha e não tem previsão ainda de funcionamento. Com a necessidade de ampliar, nós tivemos que pegar mais uma ala. Essa outra ala que é dentro do hospital está isolada para Covid, com oito leitos de UTI e mais 12 de enfermaria.
OP: Como está sendo essa experiência diferenciada, com o HUOP, neste período de pandemia? Quais foram os principais desafios enfrentados?
AW: Acho que a maior dificuldade ainda tem sido a contratação de pessoal. Nós temos trabalhado em uma parceria muito forte com a Secretaria de Estado de Saúde e também com as secretarias municipais de Saúde. O Consamu (Consórcio de Saúde dos Municípios do Oeste do Paraná) também tem auxiliado na contratação de médicos. Então, a maior dificuldade tem sido de pessoal. Mesmo no pico da falta de materiais, por o Hospital Universitário ser talvez o maior consumidor, nós em nenhum momento ficamos desabastecidos. O que aconteceu foi que o gasto subiu absurdamente. Se nós gastávamos R$ 1,5 milhão de material por mês, foi para R$ 3,5 milhões.
OP: Tendo em vista esse aumento nos gastos, o HUOP tem conseguido manter as finanças em dia?
AW: Sim. Tivemos já no primeiro semestre, fora o recurso encaminhado exclusivo para Covid, uma suplementação de R$ 6,5 milhões e outra de R$ 10 milhões no segundo semestre. Então, fechamos o hospital em 2020 com todas as despesas pagas. Nós temos, o que não tínhamos ano passado quando assumi, um estoque regulador de material e estamos com todos os funcionários terceirizados do hospital em dia. Então, temos que agradecer a parceria com a Secretaria de Estado da Saúde. Ela tem visto a seriedade da equipe que administra o hospital e tem respondido dentro das possibilidades.
OP: Outros países já iniciaram a vacinação contra o coronavírus, inclusive muitos da América do Sul. Contudo, no Brasil a imunização ainda não é realidade. Como o senhor vê esta situação?
AW: Vejo uma necessidade urgente de separar a política da discussão da saúde pública. A política partidária é uma coisa e a saúde pública é outra. Nesse momento tem que haver união. As pessoas que foram eleitas, independente de ideologia política, foram eleitas para governar para a população e hoje o maior problema da população é uma pandemia instalada. É hora de trabalho conjunto, governos federal, estadual e municipal. Não é hora de discutir o sexo dos anjos.
OP: Como há muita gente que não pretende se imunizar contra a Covid, o cenário tende a seguir complicado por muito tempo? Na sua opinião, a vacina deveria ser obrigatória?
AW: Vão haver questões que se a pessoa quiser fazer uma viagem de avião vai ter de estar vacinada, por exemplo. Então, não é obrigar, mas se ela não se vacinar algumas coisas serão restringidas. Infelizmente, esse movimento anti-vacina vinha antes desse processo e nós já vimos surgir novamente doenças praticamente erradicadas, como o sarampo e uma série de outras. É preocupante quando se mistura, principalmente, alguns conceitos que não são científicos. O problema também vem das redes sociais, que servem para o bem e para o mal. Então, você hoje tem uma amplitude de publicidade. Quem é da área de saúde há tempos sofre, porque você estuda, se capacita e as pessoas vão no doutor Google e acham que sabem de tudo. É a grande diferença entre informação e conhecimento científico.
OP: O senhor acredita que as coisas só voltem ao normal depois da vacinação?
AW: Sim. Acredito que as coisas voltem a uma normalidade, pelo menos parecida com o que nós tínhamos, depois de uns 30 dias decorridos da vacinação. Precisamos iniciar o mais rápido possível a vacinação, porque depois dela tem um tempo ainda até que a vacina comece a proporcionar imunidade e você ter uma condição adequada para, devagar, flexibilizar a situação.
O Presente