Está se sentindo inchado e percebe que seu corpo está retendo líquidos? Chá de cavalinha. Amanheceu com diarreia e vômito? Uma combinação de marcela e poejo é “tiro e queda”. Não consegue dormir e a ansiedade incomoda? A colônia e a aroeira salsa são a solução para um sono tranquilo. É com essa facilidade, fruto de anos de experiência, que Tercília Medin, popularmente conhecida como dona Bimba, atende a quem procura a Farmácia Verde, em Pato Bragado.
Envolvida desde a infância com o cultivo e manejo de plantas medicinais, a bragadense é referência na região Oeste do Paraná quando se fala em conhecimento fitoterápico e hoje figura entre o quadro de funcionários do município, prestando um trabalho ativo à comunidade. Ao O Presente, Bimba conta um pouco sobre o seu contato e amor pelas plantas medicinais, pelas quais é amplamente conhecida.
SABEDORIA POPULAR
Nascida no distrito rondonense de Iguiporã, Tercília se mudou para Pato Bragado aos seis anos e relata que o apreço por plantas medicinais é uma herança de família. “Desde a infância minha avó materna me levava junto na mata para procurar plantas. Ela era parteira e seus produtos eram todos naturais. Buscávamos plantas, raízes e ervas e eu fui aprendendo aos poucos”, lembra ela, hoje com 63 anos de idade, acrescentando que a patriarca sempre dizia que um dia aqueles conhecimentos seriam muito válidos.
Tempos depois, no auge dos 21 anos, Bimba se casou e foi morar ao lado do marido no país ao lado. “Aos sete meses de gravidez do meu primeiro filho, eu tive cachumba. Sem muitos recursos, aquele foi o momento de fazer uso da sabedoria popular que havia herdado. Junto com uma senhora descendente de índios, me recuperei da moléstia com plantas, ervas, chás e banhos. Hoje meu primogênito, com 43 anos de idade, é perfeito, assim como meus outros dois filhos”, expõe, lembrando das provações que já passou na vida.
E não para por aí. Se hoje o diagnóstico de algumas doenças pode ser difícil, antigamente, com a falta de recursos e tecnologias, era ainda pior. “Aos 28 anos, tinha recém retirado metade da bexiga e descobri que tinha um mioma maligno no útero. O médico me alertou que eu não resistiria a um novo procedimento”, rememora. “Sem desanimar, fiz uma promessa a Deus e entrei com as receitas que minha vó me ensinou. Hoje estou aqui”, enaltece.
Nascida e criada na agricultura, em sua promessa dona Bimba se comprometeu a ajudar ainda mais o próximo. “Se Deus me deixasse criar meus três filhos, eu faria trabalhos voluntários e ajudaria o próximo no que estiver ao meu alcance”, salienta, reiterando o juramento feito.

Tercília Medin, mais conhecida como Bimba, é agente da fitoterapia em Pato Bragado, responsável pelo cultivo, poda e cuidado das plantas medicinais da Farmácia Verde: “Eu sonho grande e quem sonha um dia consegue. Queria ter uma cobertura em toda a horta com sombrite e uma estufa para poder fazer muda” (Foto: O Presente)
FITOTERAPIA
Bimba diz que foi há cerca de 22 anos que seu trabalho com as plantas medicinais efetivamente alavancou para além dos usos da própria família. “Fiz um trabalho muito bonito com a Copagril, de Marechal Cândido Rondon, com a Pastoral da Criança, de Pato Bragado, e a Itaipu me ajudou muito no que diz respeito à capacitação, como cultivar e conhecer plantas medicinais. Tenho 42 certificados de participação em cursos, palestras e dias de campo. Posso dizer que para chegar onde estou hoje foram anos e anos de experiência”, comenta a bragadense, que já ministrou capacitações na região.
Em âmbito municipal, os trabalhos de Bimba se intensificaram há quatro anos, quando realizou oficinas sobre plantas medicinais no Projeto Piá. “Eu atendia 150 crianças, dos oito aos 12 anos, duas vezes por semana. Ensinava a plantar, colher e utilizar. Sempre dizia, se desta turma ao menos dez colocarem em prática o que fazíamos, eu seria feliz”, relata, dizendo que houve essa adesão: “Vejo jovens tomando tererê na praça com hortelã ao invés de produtos químicos. Houve adesão e fico muito satisfeita”.

Farmácia Verde possui cerca de 150 espécies e dona Bimba está no local 20 horas por semana (Foto: O Presente)
FARMÁCIA VERDE
Há dois anos, Bimba também faz parte do programa Farmácia Verde. “É legalizado por lei, veiculado à Secretaria Municipal de Saúde e deve continuar independente de quem esteja no comando. No momento, o doutor Paulo Giesta Filho é nosso fitoterapeuta, consulta e atende as pessoas. Se não tem manipulado na farmácia, a indicação é para vir buscar in natura no Projeto Piá, onde estou 20 horas semanais”, expõe. Dona Bimba fica na horta nas segundas, terças e quartas-feiras pela manhã, das 07 às 11 horas, e nas quintas e sextas-feiras à tarde, das 13 às 17 horas.
Mesmo com estrutura simples, a Farmácia Verde funciona na Rua Guarapuava, aos fundos do Projeto Piá Luz do Futuro e tem uma vasta gama de plantas, informa a bragadense, com cerca de 150 espécies diferentes e sempre ministradas com responsabilidade e aval do médico responsável. “Cada pessoa tem sua receita e é preciso ter essa variedade. No início foi difícil, porque algumas plantas não se adaptaram ao calor de Pato Bragado. Além disso, não havia legalidade e eu não era remunerada. Hoje, sou servidora e as estruturas da horta melhoraram muito, temos irrigação e apoio da municipalidade no que precisar”, comenta.
ADESÃO DA COMUNIDADE
Mesmo com a prática implantada e reconhecida há anos em Pato Bragado, Bimba aponta que o principal meio de divulgação é o “boca a boca”. “São de 120 a 130 pessoas que passam aqui mensalmente. Vejo que a aceitação é grande. A pessoa usa, fala para outra sobre os resultados positivos e essa vem até aqui conhecer. Com o tempo, a gente já percebe se a pessoa precisa de um chazinho ou um abraço apertado e palavras agradáveis já amenizam o problema”, ressalta, afirmando que uma mão amiga é sempre um bom remédio.
Segundo Bimba, a pessoa pode escolher entre ir procurar atendimento na Unidade Básica de Saúde ou na Farmácia Verde em casos de moléstias como vômito, diarreia, mal-estar, sem subestimar problemas maiores. “Desde a implementação do projeto percebemos uma diminuição nas filas do atendimento público. Antes, a pessoa ia primeiro lá e talvez vinha pegar um chá depois. Hoje não, muitos preferem vir direto para cá, porque sentem confiança de que as plantas a ajudarão”, evidencia.
MEDICINA POPULAR
Com a pandemia do coronavírus, a bragadense conta que muitos munícipes a procuram para reforçar a imunidade. “É como dizem, em casa fechada não entra ladrão”, pontua.
Bimba afirma que, em conversa com os profissionais de saúde, observou-se um aumento na população obesa de Pato Bragado, com colesterol alto e ruim. Sabendo disso, segundo ela, muitos optam por fazer o tratamento da medicina popular, sem usar o químico no momento. “Se não der certo, ainda tem a opção de usar o remédio, mas é muito gratificante ver as pessoas tentarem por esses meios naturais”, considera, informando que as pessoas consomem moringa consorciada com alcachofra para essa moléstia.

Bimba garante que a simplicidade do lugar não afeta a sua funcionalidade, tanto que percebe diminuição na procura por atendimentos de saúde (Foto: O Presente)
EFICÁCIA DO TRATAMENTO
A bragadense sabe que algumas pessoas são receosas com tratamentos naturais, por outro lado, ela compartilha casos de descrentes que foram curados por esse meio. “Meu marido tinha um longo tratamento por intestino desregulado. A gente fez um tratamento com uma planta e hoje ele é meu garoto propaganda. Fala que foi curado, e todo mundo pode ser, basta usar a planta certa do jeito certo”, destaca.
Ela reconhece que muitas vezes o tratamento fitoterápico leva um prazo mais longo para trazer resultados. “Às vezes as pessoas desistem do tratamento e falam que não deu certo, mas faltava pouco tempo para funcionar. A gente vê que até na Unidade de Saúde os pacientes querem uma resposta imediata e nem sempre é assim”, pondera.
Em casos específicos, aponta Bimba, as plantas medicinais levam de dois a três dias para trazer resultado. “É preciso ter paciência. É muito bom quando alguém fica bem com os meus chás e logo me liga ou manda mensagem no WhatsApp dizendo que melhorou”, expõe.
FUTURO
“Quem ver a matéria pode pensar que é majestoso, mas é de uma simplicidade total”, afirma Bimba, que vê o local de trabalho como a extensão de sua casa. Por ora, a horta não tem cobertura e nem estufa, mas a bragadense cuida de suas plantas da melhor maneira que pode. “Eu sonho grande e quem sonha um dia consegue. Queria ter uma cobertura em toda a horta com sombrite e uma estufa para poder fazer muda, seja de semente ou de estaquia”, projeta.
Mesmo sem a infraestrutura de seus sonhos, Bimba dá seu jeito de produzir mudas, seja para a própria Farmácia Verde ou para distribuir a quem tem interesse. “Amanhã ou depois uma espécie rara minha pode adoecer e aí terei como resgatar com outras pessoas. Às vezes, uma raiz que dou quase como perdida consegue vir à vida. É impressionante como Deus é perfeito”, resplandece.
DE LONGA DATA
A servidora Neiva Bressan é uma das pessoas que não troca a assistência de Bimba por nada. “Desde que desenvolve esse trabalho a gente recorre a ela para tratar doenças e não precisar ir ao médico. Às vezes, optamos por algum chá para ver se faz efeito e evitamos de tomar medicação contínua”, relata.
Neiva diz que o reconhecimento da Bimba vai muito além de Pato Bragado. “Ela é reconhecida regionalmente, damos graças que a temos como munícipe para ajudar as pessoas daqui”, enaltece.
Tanto na prefeitura quanto nos demais órgãos públicos bragadenses a hora do chá tem um diferencial. “A maioria prefere chás naturais e não de saquinho. A Bimba fornece esses chás para a gente”, menciona, emendando que para uso pessoal costuma recorrer aos kits de chás consorciados.

Neiva Bressan é usuária de longa data dos conhecimentos em plantas medicinais de Bimba: “Ela é reconhecida regionalmente, damos graças que temos ela como munícipe para ajudar as pessoas daqui” (Foto: O Presente)
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