Paralelamente a outras atividades agropecuárias, o produtor rural Valcir Zanini cultiva tilápias há mais de dez anos, em Cascavel. “No começo, eu criava peixe mais por gosto, para o nosso consumo mesmo”, relembra. Nos últimos anos, com apoio da prefeitura, Emater e Sindicato Rural de Cascavel, os piscicultores da região passaram a se organizar. Em 2018, criaram a Associação dos Aquicultores do Oeste do Paraná (AquiOeste).
De lá para cá, a entidade ganhou corpo. E não é para menos: segundo o Anuário da Peixe BR, o Oeste do Paraná responde por 90% da tilápia produzida no Paraná.
“Hoje, a associação tem 48 produtores de tilápia. Mas temos outros 50 se cadastrando para começar na atividade, esperando o licenciamento e a outorga da água”, diz Zanini, presidente da AquiOeste. “Nós temos um potencial enorme de crescimento. Temos 60 hectares de lâminas d’água aproveitados pela piscicultura. Mas Cascavel tem 600 hectares que ainda podem ser usados na atividade. É uma boa oportunidade, um setor que vem remunerando bem”, expõe.
Em Palotina, Edmilson Zabott cultiva tilápias há 23 anos. Como um dos pioneiros, acompanhou o desenvolvimento da cadeia produtiva. Hoje, ele produz 280 toneladas por ano. O produtor – que também se dedica à avicultura – fala com orgulho da potência que a região se tornou na piscicultura e das perspectivas para o setor nos próximos anos.
“O grande produtor de peixes de cultivo no Brasil chama-se Oeste do Paraná. Somos a Capital. Palotina se destaca pelo volume de lâminas d’água, mas não é só: todos os municípios da região, juntos, permitem esse destaque. Foi essa força conjunta que fez com que a gente estruturasse a cadeia produtiva”, aponta. “Tivemos o primeiro abatedouro de peixes do Brasil. Depois, aumentamos a tecnificação e a produção. Agora, com as cooperativas fomentando o setor produtivo, temos um produto ainda melhor, mais competitivo e em maior volume”, avalia.
Além das cooperativas, Zanini destaca a atuação da Emater e do Senar-PR para a consolidação da cadeia produtiva na região. Segundo o presidente da AquiOeste, ambas as entidades levaram conhecimento técnico por meio de consultorias e de cursos de qualificação oferecidos aos produtores da região. Ele diz que cerca de 150 piscicultores da região já frequentaram.
“No início, muitas pessoas pensavam que era só escavar um tanque e encher de peixes. Tem que acompanhar diariamente o PH, o oxigênio, os nitritos, fazer alimentação no horário certo. O Senar-PR e a Emater foram e têm sido fundamentais na profissionalização dos produtores da nossa região”, enaltece. “Quando passar a pandemia, vamos trazer um curso do SENAR-PR para ensinar as cozinheiras de hotéis, restaurantes e as merendeiras a fazerem novos pratos com peixe. Tudo isso ajuda a movimentar o setor”, aponta.
Energia e alimentação são gargalos para o setor
Apesar do bom momento e das perspectivas alvissareiras, a piscicultura do Paraná ainda tem que superar alguns entraves, relacionados aos custos de produção. Um deles é a energia elétrica, já que a produção de peixes depende de aeradores – equipamentos que mantêm a oxigenação dos tanques no período noturno -, que precisam ficar ligados das 19 às 07 horas do dia seguinte. Recentemente, o Governo do Paraná tornou lei a Tarifa Rural Noturna, que concede desconto de 60% na tarifa da energia consumida em unidades rurais, das 21h30 às 06 horas. O desconto é limitado a 6 mil kilowatts/hora (kw/h).
“Para o piscicultor, o desconto é insuficiente. Todo produtor gasta pelo menos 25 mil kw/h. A gente precisa que o governo entenda que a energia é um dos nossos principais custos de produção e que a piscicultura é importante para a economia do Estado”, destaca o produtor Edmilson Zabott.
A alimentação dos peixes também tem pesado no bolso do produtor. A ração tem como principais insumos o milho e a soja – que vêm com as cotações nas alturas. Por isso, se o piscicultor não se organizar e fizer a gestão do negócio, pode perder renda lá na frente. Para o produtor Valcir Zanini, o segredo é acompanhar o mercado bem de perto. “Hoje, o custo que mais aumentou é o da ração. O produtor tem que ter tudo na ponta do lápis para não tomar susto”, observa.
Além disso, os produtores que ainda não são integrados podem ter dificuldades – e perder dinheiro – na hora da comercialização.
Como o ciclo de produção da tilápia é de nove meses, a recomendação é de que os piscicultores pensem com antecedência na destinação do produto final. Uma boa dica são os contratos prévios de comercialização.
“Em anos anteriores, tivemos produtores que levaram calote de alguns aventureiros que vinham, compravam o peixe e, depois, não pagavam. O produtor que cria por conta pode apostar nos contratos de comercialização, que dão uma segurança. Tem que pensar na comercialização, porque quando o peixe está pronto, o produtor tem um custo desnecessário de deixá-lo no tanque”, salienta.
Paraná de olho no mercado internacional
Um dos novos olhares para os próximos anos deve ser a exportação. Hoje, o Paraná é o terceiro no ranking de Estados que mais embarcam tilápia para outros países.
Mesmo assim, a expansão impressiona: só no ano passado, as vendas externas aumentaram 32%.
Essas operações se dão a partir de logísticas bem ajustadas, para que o peixe chegue ao destino ainda fresco, em 48 horas. Em novembro do ano passado, o Boletim Informativo detalhou a logística de embarque de tilápias a Miami, nos Estados Unidos, por meio de aviões.
“O mercado de tilápia no Paraná cresce pelo menos 10% a cada ano. Em 2020, não foi diferente, mesmo com os desafios sanitários. A expectativa para os próximos anos é que cresça ainda mais, porque a indústria está investindo pesado, além de gerar mais empregos, oferecer boa remuneração”, aponta Edmar Gervásio, do Deral.
“As perspectivas são de crescimento. Temos um potencial gigantesco de produção e espaço para consolidar a tilápia no mercado internacional. Além disso, temos espécies tropicais que o mundo não conhece, que também podem ser boas alternativas internacionais”, comenta Guilherme Dias, da Faep.
Com Boletim Faep