No entanto, diretor-presidente da Copagril enfatiza que em nenhum momento a Rússia e o Brasil se manifestaram contra a venda e a compra do insumo agrícola
O conflito militar que atinge a Ucrânia, desde o último dia 24, tem sido motivo de preocupação para diversos segmentos no mundo, seja humanitário, econômico, de saúde, dentre outros. No agronegócio brasileiro, o receio é que eventualmente faltem alguns insumos considerados essenciais, como o fertilizante.
O Belarus, por exemplo, suspendeu as vendas do produto para o país, pois o escoamento foi proibido pela Lituânia, que fechou as fronteiras. Navios que levam mercadorias do Paraná também não estão atravessando regiões portuárias da Rússia.
Ao Jornal O Presente, o diretor-presidente da Cooperativa Agroindustrial Copagril, Ricardo Sílvio Chapla, disse que acima de tudo vê com muita tristeza o desenrolar da guerra. “Nos dias de hoje e no mundo em que vivemos não entra na nossa cabeça que ainda existem pessoas que querem destruir e matar. Não cabe mais isso. Não concordamos e é algo lamentável. Evidentemente que essa guerra vai trazer consequências, como já trouxe”, declarou.
Ele recorda que o mundo ainda atravessa a pandemia da Covid-19, embora o avanço da vacinação tenha permitido reduzir os casos da doença, e destaca que o cenário hoje indica que as imunizações podem perdurar nos próximos anos.
“O mundo ficou turbulento desde março de 2020 com a questão da pandemia e descontrolou muita coisa, surgiram problemas de toda ordem, como nos negócios e nas produções. E agora, que poderíamos talvez voltar à normalidade, apesar das consequências da pandemia que ainda levarão mais tempo, surge essa guerra. Para ninguém isso é interessante”, observa.
De acordo com o dirigente cooperativista, o conflito militar ainda não ocasionou diretamente influência sobre o Brasil, mas nos próximos meses o cenário pode mudar e ser prejudicial em termos de negócios. “Lamentamos que isso tenha acontecido no mundo”, resume.
POSTURA NEUTRA
Chapla elogia a postura do governo brasileiro, que, segundo ele, está se mantendo neutro, mas, ao mesmo tempo, se posiciona contra a guerra.
“Quanto aos negócios, há preocupação, mas ainda não temos certeza se não teremos daqui a pouco a matéria-prima da Rússia para produção de adubo. Isso não está definido. Se chegar ao ponto de não podermos importar da Rússia, claro que vamos ter algumas consequências, mas sabemos muito bem que estão sendo trabalhadas outras alternativas no mundo, outros países que podem suprir essa parte. Nem tudo vem de lá. É uma parte, mas que é importante sim. Acredito que no momento não tem esse problema ainda. A safra que está plantada e que está sendo concluída não tem problema algum, e da próxima de verão, que começa a ser cultivada no Brasil em setembro, tem a projeção normal por enquanto. Até o momento e dentro do que temos não há nenhum problema ainda. Agora, se continuar e se agravar a situação da guerra, poderá haver consequências. Friso que até o momento há uma certa segurança de que o plantio da próxima safra não deve ter grandes problemas no fornecimento de fertilizantes”, afirma.
Conforme o presidente da Copagril, se o Brasil não conseguir comprar fertilizante da Rússia pode haver certa falta para a próxima safra. Contudo, ele é enfático de que a relação entre os dois países está, por ora, normal. “O Brasil e a Rússia têm, por enquanto, relacionamento normal. Em nenhum momento a Rússia se manifestou que não ia fornecer o produto ou o Brasil informou que não ia comprar. Portanto, o negócio está em andamento”, avalia.
Mesmo assim, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, tem buscado alternativas em outros países, como o Canadá, para suprir a demanda da agricultura brasileira. “Não é momento de se apavorar com isso. O momento ainda é de cautela e, evidentemente, a preocupação existe, e tem que existir, mas não no sentido de que a próxima safra não será plantada porque não haverá fertilizante. Vai ter, mas talvez não o suficiente daquilo que poderia ser utilizado. É uma possibilidade”, argumenta.
IMPACTO NA PRODUTIVIDADE
A liderança rondonense lembra que se não houver fertilizante suficiente haverá impactos na produtividade da próxima safra. O Oeste do Paraná pode, em termos, não ser tão prejudicado neste sentido devido à qualidade de sua terra, mas em outras regiões do Brasil a situação é diferente.
“A nossa região suporta utilização de menos produto, mas não que o produto não seja necessário. Em outras regiões, como o Centro-Oeste, que é grande produtor de grãos, a terra é um pouco diferente da nossa. Então pode, sim, prejudicar a produtividade. Sem fertilizante em qualquer região haverá impacto na produtividade, mesmo na nossa”, salienta.
“Aqui na região praticamente estamos garantidos com fertilizante para o próximo plantio. Agora não dá para dizer 100%. Pode faltar alguma coisa, mas também não podemos garantir que não compraremos da Rússia. Até agora eles não disseram que não vão vender e nós não falamos que não vamos comprar. As coisas estão abertas e precisamos aguardar”, complementa.
CUSTOS DE PRODUÇÃO
Sobre os custos de produção, o dirigente diz que já estão altos e reforça que essa elevação não é em razão do conflito na Ucrânia. “Já está vindo de mais tempo, praticamente desde quando começou a pandemia. Os custos foram aumentando e as commodities também. O custo de produção da safra colhida agora era um e a safra que será plantada já terá um custo bem maior. Os custos gerais em termos de produção têm aumentado e a tendência é elevar ainda mais”, expõe.
Por outro lado, ele menciona que depende ainda do câmbio, sendo que a cotação recuou mesmo diante da guerra. “Às vezes nos surpreendemos, porque alguns falavam que com a guerra o câmbio poderia disparar, mas tem sido ao contrário. Tudo que falarmos pode ser um mero palpite, porque certeza ninguém tem. A certeza que temos é de que o custo de produção elevou, e elevou bastante, mas não foi só agora. Esse aumento vem mais de um ano e o próximo plantio da safra terá um custo bem maior do que foi a safra agora”, resume.
Além disso, ele informa que outro motivo para a elevação no preço envolve a falta de alguns insumos. “Tivemos um período em que faltaram alguns defensivos. No final houve similares que supriram essa falta, pois sempre se acha uma alternativa, mas houve um aumento no preço do produto”, conta.
PRODUÇÃO PRÓPRIA
Para o diretor-presidente da Copagril, o Brasil poderia aproveitar o momento para voltar os olhos à produção de fertilizante no próprio país.
“O Brasil tem recursos naturais para isso, mas infelizmente parece que alguns brasileiros trabalham contra o próprio país. Temos recursos naturais para produzirmos o nosso fertilizante, sem depender de outros. Porém, precisa ter o entendimento e um investimento muito grande por parte do Poder Público. Se o Poder Público não tem recurso para investir, passa para o setor privado que ele investe, mas precisa ter todas as autorizações e liberações, sendo que no país, neste sentido, estamos muito truncados”, expõe.
REGRAS DE REGISTRO DE AGROTÓXICOS
Há aproximadamente um mês, o Congresso Nacional aprovou um projeto de lei que fixa prazo para a obtenção de registro de agrotóxicos no Brasil; centraliza no Ministério da Agricultura as tarefas de fiscalização e análise desses produtos para uso agropecuário; e prevê a concessão de registro temporário se o prazo não for cumprido.
Chapla declara que acompanhou o projeto e a tramitação da proposta e a avalia de forma positiva para o agronegócio. “Essa nova forma de acelerar os registros de defensivos agrícolas vem para o bem, para substituir produtos que são mais agressivos por produtos que são menos agressivos à natureza, ou menos tóxicos. É ao contrário do que alguns achavam, que seriam liberados de qualquer jeito. Acompanhamos e sabemos o que prevê a lei. É um avanço e felizmente a grande maioria entendeu”, destaca.
EXPORTAÇÃO DE CARNE
Como o Brasil não exporta uma quantidade significativa de carne para a Rússia, o dirigente cooperativista de Marechal Cândido Rondon observa que neste setor a guerra não trará significativas consequências.
“A Copagril até já exportou bastante para a Rússia no passado, mas de um tempo para cá os russos praticamente não compram mais carne do Brasil. Acredito que quanto ao mercado de carne não haverá muita mudança, mas é importante termos sempre os mercados abertos, pois independente se não compra hoje, amanhã pode comprar. Contudo, acredito que não haverá no momento muita mudança no mercado por conta da Rússia”, analisa.
Por Maria Cristina Kunzler/Jornal O Presente