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Semanas após trágico acidente, familiares e sobreviventes contam o que estão fazendo para superar o trauma

calendar_month 20 de maio de 2022
9 min de leitura

O que era para ser apenas mais uma viagem de rotina para tratamento médico hospitalar em cidades vizinhas, transformou-se em uma grande tragédia que ficará marcada na memória da população de Pato Bragado.

Quase 20 dias depois do trágico acidente na PR-467, que resultou na morte de oito bragadenses e mais de dez feridos, a dor da perda ainda está muito presente no dia a dia de familiares das vítimas fatais e de quem sobreviveu ao desastre.

 

Dor da perda

A colisão envolvendo um micro-ônibus da Prefeitura de Bragado com um caminhão carregado de milho na região conhecida como “Curva do Rodeio”, no distrito de Iguiporã, em Marechal Cândido Rondon, vitimou fatalmente Nelson Ditz, 74 anos, esposo de Cleni Ditz. “Em todos os lugares da casa que eu olho sinto a falta dele”, contou ela ao O Presente.

Segundo Cleni, o marido tinha algumas limitações em razão de problemas cardíacos, motivo pelo qual o fez embarcar no ônibus para buscar atendimento médico. “Era uma consulta de rotina. Ele estava indo levar ao médico um exame que havia feito, mas estava bem de saúde”, relata.

Mesmo com as restrições em virtude do problema cardíaco, Cleni diz que o marido trabalhava muito para dar conta dos afazeres no sítio localizado às margens da mesma rodovia em que ocorreu o acidente. “Ele fez quatro pontes de safena em 2000, mas isso não o impedia de trabalhar na colônia. Ele não gostava de ficar parado”, menciona.

A bragadense lembra que na manhã do dia 02 de maio, data do acidente, o casal acordou cedo, como era de costume, e tomou chimarrão enquanto aguardava o ônibus da prefeitura, que iria pegá-lo. “Quando o ônibus chegou ele saiu e fechou o portão, eu perguntei se não ia dar tchau, ele virou, olhou para mim, acenou com a mão e disse: tchau então. Mas infelizmente não voltou mais”, lamenta Cleni com os olhos lacrimejados.

 

Perdão ao motorista

Apesar de perder o marido de maneira tão repentina, Cleni perdoa o motorista do caminhão que supostamente teria provocado o acidente. “Meu filho também é motorista de caminhão e isso pode acontecer com qualquer um. O único erro dele foi não parar para dar assistência, mas eu o perdoo mesmo assim”, afirma.

O motorista acusado de provocar o acidente com o micro-ônibus da Prefeitura de Pato Bragado foi preso no mesmo dia pela Polícia Militar (PM) na BR-163. O homem de 48 anos prestou depoimento à Polícia Civil (PC-PR) e no dia 07 pagou fiança de R$ 12 mil e foi solto. Ele deve responder em liberdade pelos crimes de homicídio culposo (quando não há intenção de matar), lesão corporal culposa e omissão de socorro.

Relembrar os bons momentos vividos em família ajuda a diminuir a dor e a saudade do esposo com quem teve dois filhos e era casada a quase 50 anos. “A gente comemoraria 50 anos de casamento no dia 20 de julho”, diz Cleni Ditz (Foto: Sandro Mesquita)

 

Sobrevivente

Com inúmeros hematomas, escoriações pelo corpo e um corte na perna, Pedro César Schneider, de 48 anos, é uma das principais testemunhas do acidente, pois estava sentado ao lado do motorista da prefeitura e viu como tudo aconteceu. Ele conta que na frente do micro-ônibus seguia uma carreta e uma caminhonete, e ambos veículos conseguiram fazer a curva. “Nesse momento veio o caminhão desgovernado e muito rápido. O motorista não conseguiu fazer a curva e o ônibus serviu de escora para ele não tombar”, relatou o sobrevivente ao O Presente.

Schneider diz que não perdeu a consciência e que assim que conseguiu tirar o cinto de segurança tentou ligar para pedir ajuda, mas não havia sinal de celular no local. “Quando olhei para o fundo do ônibus vi as pessoas gritando e pedindo socorro. Infelizmente não consegui fazer nada porque minhas pernas ficaram amortecidas”, menciona.

Ele comenta que os primeiros dias após o acidente foram marcados por constantes pesadelos. “Acordava com a imagem da carreta na minha frente. Foi muito triste o que aconteceu”, lamenta.

Schneider usava o cinto de segurança no momento do acidente e, segundo ele, o equipamento salvou sua vida. “Se eu estivesse sem o cinto teria sido jogado para fora e poderia ter sido atropelado pelo micro-ônibus”, supõe.

Pedro César Schneider é uma das principais testemunhas do acidente, pois estava sentado ao lado do motorista da prefeitura e viu como tudo aconteceu: “Fui uma das últimas pessoas retiradas do ônibus. Eu pedi para retirarem primeiro as pessoas que estavam com ferimentos mais graves” (Foto: Sandro Mesquita)

 

Da UTI para casa

Outra vítima que sobreviveu ao grave acidente é Rosilei Beatris Stresnke, de 38 anos. Ela estava sentada à direita do micro-ônibus, lado menos atingido pelo impacto e onde estavam as vítimas feridas com menor gravidade.

Rosilei recorda que ficou o tempo todo desacordada e que recuperou a consciência somente no hospital em Cascavel. Ela fraturou o braço direito, teve vértebras da coluna deslocadas, costelas quebradas, o pulmão e o fígado perfurados, além de dois traumatismos cranianos. “Ainda sinto muita dor, principalmente nas costelas. Isso impede que eu me movimente direito”, expõe.

Ainda muito abalada, ela se recupera em casa ao lado do marido e do filho de 14 anos, depois de ficar oito dias internada, quatro deles em uma unidade de terapia intensiva (UTI). “Depois do que aconteceu tenho ainda mais certeza de que Deus existe. Foi ele que me salvou”, afirma.

Durante os dias em que esteve internada, Roselei diz que o apoio da família foi fundamental para começar a superar o acidente. “Eu só pensava em me recuperar para voltar a ver meu marido e meu filho que, são tudo para mim”, ressalta.

Roselei trabalha há mais de 20 anos como empregada doméstica. Ela relata que o casal nunca conseguiu conciliar as férias para aproveitarem em família. “Estamos com planos de assim que eu me recuperar irmos passar uns dias em Foz do Iguaçu”, revela.

Rosilei Beatriz Stresnke, sobrevivente: “Passei a perceber que a vida é muito mais do que somente trabalhar. Quero viver mais para minha família” (Foto: Sandro Mesquita)

 

8ª vítima

Além dos sete óbitos registrados logo após o acidente, 13 pessoas ficaram feridas e foram encaminhadas para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Marechal Rondon. Posteriormente, algumas delas foram levadas para hospitais da região. No momento, somente uma pessoa segue internada recebendo cuidados médicos.

Ontem (19) faleceu a 8ª vítima do acidente – uma das 13 pessoas que ficaram feridas. Trata-se de Cissi Margarete Doerzbacher, de 54 anos. Ela ficou internada em quarto normal no Hospital Bom Jesus, em Toledo, e teve alta no dia 13, vindo a óbito na quinta-feira.

“Ela estava super bem em casa desde que saiu do hospital, mas na manhã de quinta-feira sentiu um mal-estar e foi acionado o socorro. Os socorristas a colocaram na maca e levaram ao posto de saúde, mas não conseguiram reanimá-la”, relatou um familiar da bragadense ao O Presente.

De acordo com a família, a principal complicação de Cissi devido ao acidente foi no intestino. “Ela fez duas cirurgias. A primeira para reconstituir músculo e tirar um pedaço do intestino. A segunda para colocar uma tela para segurar o intestino, porque ela perdeu a musculatura da barriga”, expõe o familiar. – clique aqui e confira a matéria na íntegra.

 

Em casa há seis dias, depois de 11 internada em hospital, Cissi Doerzbacher teve um mal-estar na manhã de quinta-feira (19), foi socorrida, mas acabou falecendo: 8ª vítima do acidente (Foto: Divulgação)

 

Única internada

Helmi Doerzbacher, de 71 anos, uma das 13 pessoas que ficaram feridas no acidente, segue internada em um hospital de Francisco Beltrão. A idosa é a última – daquelas que ficaram feridas – que segue sob cuidados médicos.

A bragadense é mãe de Cissi Margarete Doerzbacher, de 54 anos, que faleceu na quinta-feira (19). De acordo com familiares delas, Cissi estava no micro-ônibus envolvido no acidente para acompanhar Helmi em exames médicos.

Ao O Presente, a família informou que a idosa está com suspeita de pneumonia e foi informada sobre o falecimento da filha . “Os médicos estão monitorando”, destaca o familiar. clique e leia a matéria na íntegra

Cissi Doerzbacher, de 54 anos, acompanhava a mãe Helmi Doerzbacher, de 71 anos, quando o micro-ônibus em que estavam se envolveu no acidente. Filha faleceu e a mãe segue internada (Foto: Divulgação)

 

Suporte psicológico

De acordo com a secretária de Saúde de Pato Bragado, Neili Koch, além do atendimento médico para as vítimas do acidente, a prefeitura está oferecendo suporte psicológico para os familiares. “Toda a equipe está empenhada para dar toda a assistência às famílias das vítimas e às pessoas que sobreviveram”, enfatiza.

Em relação ao falecimento da 8ª vítima do acidente, ontem, Neili diz que é preciso esperar a necropsia para identificar a causa da morte de Cissi, ainda que se suspeite de embolia pulmonar (acesse a matéria sobre o pronunciamento sobre a 8ª morte do acidente).

 

Secretária de Saúde de Pato Bragado, Neili Koch: “A prefeitura está oferecendo suporte psicológico para os familiares” (Foto: Sandro Mesquita/OP)

 

Vítimas

As 13 pessoas que ficaram feridas no acidente são: Eldir Raspe, Roseli Beatris Strenske, Cissi Margarete Daerzbacher, Carla Andressa Rieth, Pedro Cesar Schneider, Helmi Doerzbacher, João Carlos Humeres, Deinerson Liberato Coimbra, Antônio Carlos Gomes, Miguel Franco, Nadir Schons e Marli Maia Franco.

Já as sete pessoas que perderam a vida logo após o acidente: César Schaeffer, conhecido como Tcheco, que era o motorista do coletivo, João Szczuk, Ivone Gentilini, Nelson Ditz, Claci Inês Specht Werlang e Lurdes Monteiro e Fabiane Monteiro (mãe e filha).

Cissi Margarete Daerzbacher, uma das feridas, faleceu ontem, 17 dias depois do acidente.

 

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