Apesar da volta às aulas presenciais, ainda que em alguns casos em sistema híbrido, muitos pré-adolescentes, adolescentes e jovens não querem retornar ao ambiente escolar. Após mais de um ano sem sair de casa para assistir aulas e ver amigos, alguns deles têm desenvolvido sentimentos como desconforto, medo e ansiedade, os quais se tornaram comuns em meio à pandemia.
Como passarinhos nascidos em cativeiro que decidem não voar quando têm oportunidade, estes estudantes se acomodaram ao lar e têm preferido o ensino remoto, ao invés de voltar a frequentar a escola.
Sendo esta a realidade de muitas famílias atualmente, especialistas alertam para o risco de pais e filhos desenvolverem a chamada “síndrome da gaiola”, quando a resistência em sair de casa ou deixar o outro sair passa a ser um sofrimento.
E o alerta não é à toa. Merece atenção considerando que o isolamento social pode gerar grandes impactos e prejuízos, principalmente em jovens e adolescentes que vivenciam uma fase de transformações e ganho de autonomia.
Mais do que isso, porque a escola não é apenas um ambiente de aprendizagem acadêmica. Ela é fundamental para a criação de valores, de noções de sociedade, regras, politização, independência e habilidade de lidar com conflitos que, com certeza, não acontecem dentro de um quarto.
MUNDO SEGURO E CONFORTÁVEL
“A ‘síndrome da gaiola’ se refere a uma série de comportamentos, principalmente entre adolescentes e jovens, por não se sentirem mais confortáveis como antes da pandemia em sair à rua ou ter qualquer tipo de interação social, mesmo seguindo medidas preventivas. O medo e a ansiedade têm impedido esses indivíduos de sair de casa, mesmo quando as restrições estão sendo amenizadas”, explica ao O Presente a psicóloga Daniela Blatt.
Ela diz que é importante observar a intensidade do medo e da ansiedade apresentada pelos adolescentes e jovens e, além disso, compreender que a princípio não é algo com demanda medicamentosa. “Privados do convívio social, a casa, particularmente o quarto, se transforma no ‘mundo seguro e confortável’ desses jovens. Em contrapartida, a possibilidade de uma vida fora de casa se transforma em algo potencialmente assustador, principalmente pelo medo de contrair o vírus e contaminar a família. Com a retomada gradativa de algumas atividades, especialmente as aulas, muitos deles se veem extremamente ansiosos e resistem a sair. É nessa hora que se acende um sinal de alerta”, expõe.
MEDO DE SENTIR MEDO
A psicóloga chama a atenção para uma tendência em criar síndromes novas para problemas antigos. “Antes mesmo de ser conhecida como ‘síndrome da gaiola’, ela já era vislumbrada em tempos remotos, a exemplo do Mito da Caverna de Platão. Podemos também associar esta síndrome ao transtorno de ansiedade denominado de agorafobia, que é caracterizado como o ‘medo de sentir medo’”, compara.
Segundo ela, mesmo em situações corriqueiras, a superação de medos se faz presente.
O medo é um sentimento comum a todo ser humano, lembra, e permite proteção de possíveis perigos do cotidiano. “O que não pode acontecer é ele nos paralisar. O medo não pode afetar e comprometer a rotina, trazendo sofrimento”, destaca, ampliando: “Há muitos estigmas sobre a temática, mas aquilo que costumamos ignorar tende a limitar a nossa vida, o que pode ser solucionado com o auxílio de um atendimento especializado, como a psicoterapia”, pontua.

Psicóloga Daniela Blatt: “Os pais, como conhecedores dos filhos, devem ficar atentos ao comportamento deles e avaliar sinais que possam caracterizar situações mais graves. A escola também é fundamental neste sentido. A sensibilidade dos professores, por vezes, é mais perceptiva a vários detalhes” (Foto: Divulgação)
REFLEXOS NO FUTURO
Ao pensar o ambiente residencial como sinônimo de segurança, versus a contaminação do mundo exterior, Daniela afirma que o desenvolvimento psicossocial pode ser comprometido. “Nesse local eles se sentem confortáveis, já que isolados não há a exigência de enfrentamento do perigo. A retomada das aulas tem sido vista por muitos adolescentes e jovens como uma ameaça, pois com isso podem se deparar com situações de conflitos inesperados. Aqui está o grande problema: é nesse espaço, da escola, que crianças, adolescentes e jovens se conectam com os seus grupos, suas ‘tribos’”, enaltece.
A interação, observa a profissional, faz com que o adolescente construa a sua identidade de maneira natural e espontânea, o que não acontece no conforto do quarto. “Estímulos que eram normais e necessários para um adolescente deixam de existir, afetando a maneira de lidar com problemas e interações sociais a longo prazo, principalmente durante a vida adulta, quando será obrigado a se desvincular de todas as suas referências de segurança”, relata.
“CÔMODO DO INCÔMODO”
A psicóloga ressalta que ansiedade e medo ao desconhecido podem acontecer em qualquer faixa etária, contudo, a “síndrome da gaiola” é mais suscetível a adolescentes. “Ocorre mais com pessoas com histórico de vida conturbado por perdas, medos e doenças. A necessidade de enfrentamento pode ser um gatilho emocional que deflagra experiências traumáticas não elaboradas. Aqueles com problemas relacionados à timidez ou à ansiedade, mais do que os outros, tendem a não conseguir encarar essa ‘situação de perigo’ e preferem o ‘cômodo do incômodo’ ao desconhecido”, salienta.
REAÇÃO NORMAL EM SITUAÇÃO ANORMAL
Considerando que a pandemia de Covid-19 impacta cada um de maneira diferente, Daniela frisa que nem todos os problemas psicológicos e sociais apresentados podem ser qualificados como doenças. “A maioria será classificada como reações normais diante de uma situação anormal”, enfatiza.
Em relação à “síndrome da gaiola”, a psicóloga orienta os pais, como conhecedores dos filhos, a ficarem atentos ao comportamento deles e avaliar sinais que possam caracterizar situações mais graves. “A escola também exerce um papel fundamental na vida destes adolescentes e jovens. Raramente um professor não conhece seus alunos por nome, gostos e personalidade, isso quando não raro se torna referência de acolhimento de angústias, medos e sofrimentos. Precisamos construir pontes entre pais e professores, grandes aliados nessa missão. Alunos são filhos e isso impõe a responsabilidade de cuidado aos pais, entretanto, a sensibilidade dos professores, por vezes, é mais perceptiva a vários detalhes”, pontua.
É por meio da escola, segundo ela, que crianças e adolescentes normalmente são encaminhados para atendimento especializado, quando necessário. “Portanto, precisamos que, de forma gradativa, haja esse retorno às escolas. Acima de tudo, é preciso estimular a criação de políticas públicas com estratégias que considerem a saúde mental dos estudantes na retomada das atividades”, opina.
ENSINO REMOTO POR SEGURANÇA
A rondonense Maria Lourdes da Silva Costa e sua filha Eduarda, aluna do 2º ano do Ensino Médio, avaliaram os prós e contras das aulas presenciais e a estudante decidiu permanecer no ensino on-line. “Trabalhamos com outras pessoas todos os dias. Ainda não fomos vacinados, então ficamos preocupados”, relata a mãe.
Ao ver a quantidade de alunos que retornaram às salas de aula, a família Silva Costa teve medo da aglomeração, contudo, Maria Lourdes garante que não se trata da “síndrome da gaiola”. “Não é porque ela fica em casa neste momento que não pode ganhar o mundo daqui para frente. Não vemos a hora dessa situação passar”, afirma.
A mãe ressalta que, após um ano de aulas remotas, as notas da filha se mantiveram boas, mas reconhece que “as atividades presenciais podem levar a resultados mais verdadeiros”. “Não é problema não frequentar a escola, é uma forma de se adaptar. Neste formato, todavia, é importante encontrar alternativas para se manter por dentro dos conteúdos, como ler textos extras e assistir vídeo aulas”, avalia.
Eduarda diz que diante da pandemia prefere o formato remoto, mas considera que a melhor forma de estudar é presencialmente. “Há matérias que só funcionam com um professor do lado. Se não fosse a pandemia, de jeito nenhum estudaria em casa, mas já que existe essa opção, faço proveito dela”, menciona.
Ao longo da pandemia, relata a estudante, houve situações difíceis. “Teve vezes que a sensação era como se eu fosse explodir. Meus amigos também contam que se sentem ansiosos e que passam mal em certos momentos”, conta.
Agora, Eduarda afirma se sentir “mais leve”. “A pressão sobre os estudantes existe e isso será um sufoco até que termine. Não precisamos saber lidar com ela, pois somos jovens. O primeiro passo é não se comparar com os outros. Sonhos e trabalho duro geram resultados e é dessa forma que devemos pensar. Peço que todos sejam gentis e pratiquem a empatia”, enaltece.

Com apoio da mãe Maria, Eduarda da Silva Costa segue estudando por meio de atividades remotas, aguardando o melhor momento para retornar à sala de aula: “Agora, prefiro o modo remoto, mas se não fosse a pandemia, de jeito nenhum estudaria em casa” (Foto: Divulgação)
RETORNO GRADATIVO
Quando do retorno das aulas presenciais, Júlia Werner Oliveira, primeiramente, optou por permanecer no sistema remoto, mas, com algumas dificuldades nos conteúdos e concentração, um tempo depois, ela decidiu retornar ao colégio, seguindo os protocolos de prevenção ao coronavírus.
“Durante as aulas remotas, ela tinha bons resultados, mas perdia o foco com distrações. Depois que retornou, houve uma melhora no desempenho”, conta a mãe Lílian Raquel Werner.
Na opinião de Júlia, aluna do 2º ano do Ensino Médio, é mais fácil ter foco nas aulas presenciais. “Nas aulas remotas, mesmo me esforçando para ter autonomia e mais disciplina, acabava me distraindo constantemente”, relembra.
Lílian avalia que o período em que a filha esteve em aula remota não se caracterizou como “síndrome da gaiola”, visto que não havia, por parte da menina, “falta de vontade em retornar às atividades presenciais, apenas receio pela pandemia”.
Na contramão ao conforto de casa, a falta de contato com amigos causou angústia na família. “Tivemos várias conversas para amenizar essa fase que é difícil para todos, indiferente da idade ou contexto”, compartilha a mãe.
Júlia comenta que teve problemas de ansiedade no início da pandemia, mas que, com acompanhamento psicológico, conseguiu se adaptar. “Muitas pessoas estão passando por situações difíceis também, o que me faz entender que não estou sozinha nessa”, assegura.

Por receio da Covid-19, Júlia Werner Oliveira permaneceu na modalidade remota por um período, mas, um tempo depois, decidiu pela retomada presencial (Foto: Divulgação)
O Presente