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Sombras que sombreiam Camboriú ameaçam sombrear Cascavel: a quem e por que é dado o direito de roubar o sol?

calendar_month 4 de setembro de 2021
3 min de leitura

Décadas antes da elite econômica da Capital do Oeste eleger Boa Vista da Aparecida como litoral de Cascavel, a opção mais distante estava a exatamente 724 quilômetros e 600 metros, ou dez horas e nove minutos de carro: Balneário Camboriú (BC).

Nos anos 1970 e 1980, o sonho que embalava as noites de muitos cascavelenses da tributada e esgualepada classe média era se aposentar e mudar de mala e cuia para o litoral catarinense, com indisfarçada predileção por BC. Muitos de nós, o máximo que conseguimos, foi usufruir da “praia” de água doce do Clube de Campo Lago Azul, alternativamente às águas barrentas de Santa Helena.

Mas os passeios a BC começaram muito antes. O pioneiro Francisco Konalseisen recorda-se das férias de dezembro de 1967, quando o Fuscão bege da família partiu de Cascavel com seis pessoas a bordo em direção a Camboriú. “O maior prédio da cidade era o Hotel Camboriu, com três andares”, relembra Chico, na época com 14 anos de idade. “Havia um pequeno povoado na Barra Norte. Na Barra Sul só tinha uma vila de pescadores”.

Pois bem, é neste ponto que entramos no causo. Balneário Camboriú foi manchete nos principais jornais do Brasil esta semana. O “Estadão de São Paulo” e a “Folha” trouxeram amplas reportagens sobre o início das obras para o alargamento da faixa de areia para 75 metros, a segunda maior, atrás apenas de Copacabana.

A ampliação vem em boa hora para os muitos cascavelenses que moram e alugam seus imóveis na cidade praiana. A “suruba” imobiliária permitida nos últimos anos subtraiu da praia algo que deveria ser considerado essencial em qualquer balneário do planeta: o sol. E como não é possível empurrar um prédio 100 metros para trás com um trator, o jeito foi recuar o Oceano Atlântico.

Dois milhões de metros cúbicos de areia, buscados há 15 quilômetros da praia mar adentro, serão despejados na orla ao custo de R$ 66 milhões.

Para o sombreamento da praia de BC, portanto, há solução. Já para a captura do sol em Cascavel há discórdia. O problema começou no Country, bairro tipicamente horizontal, onde seus felizes moradores imaginavam que não teriam que disputar os raios solares com edifícios.

E a controvérsia se espalha. O prefeito Leonaldo Paranhos vem sofrendo pressões para “liberar geral” na região do Maria Luiza e Lago Municipal. Na Bairro Neva também há incômodo. Um dos queixosos é o ex-deputado Alfredo Kaefer.

“Vão erguer um espigão bem ao lado de minha casa, matando minha piscina e a privacidade da família”, disse o indignado cidadão de quem se ameaça roubar o astro-rei.

De fato, nunca foi fácil compatibilizar interesses distintos de vizinhos, como bem sabem os síndicos que estão lendo esse texto. Neste aspecto, Cascavel e Camboriú estão bem mais próximas que os 724 quilômetros e 600 metros representam.

 

Balneário Camboriú: onde a liberalidade e a voracidade imobiliária acabaram com a praia (Foto: Divulgação)

 

Pitoco

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