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Suinocultura paga conta de luz da Prefeitura de Entre Rios do Oeste

calendar_month 21 de maio de 2021
6 min de leitura

A contribuição da suinocultura para o desenvolvimento sustentável parece não ter limites. No Paraná, 40 mil suínos estão reduzindo em mais da metade os gastos de uma prefeitura com as contas de luz do município. Ao todo, 60 prédios públicos da pequena Entre Rios do Oeste são alimentados com a energia elétrica produzida através do biogás. Os produtores vendem o biogás para a prefeitura, que o transforma em energia para alimentar os equipamentos públicos, como escolas, postos de saúde e o próprio paço municipal. Por outro lado, produtores ganham entre R$ 500 e R$ 6 mil por mês com a venda do gás resultante do tratamento dos dejetos. Ainda, usam o biofertilizante que sobra depois do processo para adubar as lavouras de milho e pastagem na região.

A experiência é uma parceria entre produtores rurais, CiBiogás, o braço de pesquisa em biogás da Itaipu Binacional, e administração de Entre Rios do Oeste. Os biodigestores são ligados a uma tubulação de 22 quilômetros, que leva o gás até uma minicentral termelétrica. Lá, é transformado em energia que é injetada na rede da companhia elétrica estadual, a Copel. Nesse processo, a prefeitura reduz sua conta de luz em cerca de R$ 70 mil por mês. Desde o início do projeto a economia na conta já passa de R$ 1 milhão.

Já os 17 suinocultores que fazem parte do projeto dividem cerca de R$ 25 mil por mês com a venda do gás ao mesmo tempo que tratam, diariamente, 215 toneladas de resíduos.

 

O COMEÇO

O projeto começou a ser pensado em 2008, mas entrou em operação mais de dez anos depois, em julho de 2019. “Em 2008 a Itaipu contratou a Adeop (Associação de Desenvolvimento do Oeste do Paraná) para realizar um estudo do potencial energético da biomassa na região Oeste, que inclui alimentos, resíduos de madeira, resíduos de bovinos e suínos, entre outros, e se constatou que o município tinha um grande potencial com os resíduos da suinocultura, por termos uma grande quantidade de animais no município”, explica o secretário de Saneamento Básico, Energia Renováveis e Iluminação Pública, Carlos Eduardo Lewandowski.

O município de aproximadamente cinco mil habitantes, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem cerca de 150 mil cabeças de suínos.

“Em 2010 começamos a avaliar como seria feito e, inicialmente, iria contemplar todas as 63 propriedades de suinocultores do município. O projeto começou a ser executado a partir da primeira chamada pública da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para projetos com biogás. O CIBiogás cadastrou esse projeto na chamada pública e a proposta foi contemplada. Em 2016, a Copel alocou recursos e o projeto começou a sair do papel. Em 24 de julho de 2019 começou a operação”, relembra Lewandowski.

 

Secretário de Saneamento Básico, Energia Renováveis e Iluminação Pública de Entre Rios do Oeste, Carlos Eduardo Lewandowski: “São 40 mil suínos em um universo de 150 mil suínos. A gente está resolvendo um problema ambiental muito grande” (Foto: Divulgação)

 

COMO FUNCIONA?

O projeto é uma parceria que tem dado resultados para todos os lados: produtores, administração pública, cidadãos e meio ambiente. Todos os dias são tratadas mais de 200 toneladas de dejetos de propriedades que possuem entre 800 e 5,5 mil animais, a maior parte de terminação. “Cada propriedade possui um biodigestor dimensionado de acordo com o número de animais, além de uma casa de máquinas, que são ligados a um gasoduto que passa por todas as propriedades e chega até a minicentral termelétrica através de um compressor. Na minicentral, o gás passa por um sistema de purificação, que realiza a filtragem desse material. Na sequência os geradores convertem esse biogás em energia elétrica e ela alimenta a rede”, destaca o secretário.

De acordo com ele, a energia produzida pelo consórcio, em média, é suficiente para pagar cerca de 60% da conta de energia elétrica de toda a administração municipal. “A energia gerada na minicentral abate a conta de energia em 60 prédios públicos da Prefeitura de Entre Rios do Oeste. São 90 MW (megawatts) produzidos para um consumo da prefeitura de cerca de 150 MW por mês. Isso representa algo em torno de R$ 70 mil a menos nas contas de energia da administração por mês”, frisa.

Lewandowski salienta que esses valores, no entanto, podem ser variáveis, para mais ou para menos. Isso porque é preciso levar em conta questões como idade dos animais, pois quanto maiores, mais dejetos produzem, e até o vazio sanitário, quando as granjas estão vazias e a produção de biogás na propriedade é muito baixa. Varia também a rentabilidade do produtor. “Atualmente os suinocultores recebem R$ 0,28 por metro cúbico enviado à minicentral, que rende entre R$ 500 a R$ 6 mil por mês, conforme o tamanho do plantel e ciclo do lote”, menciona o secretário.

Na época em que o projeto foi concebido, explica Lewandowski, os produtores investiram entre R$ 60 mil e R$ 150 mil nos biodigestores. “O município fez a rede de biogás, auxiliou com máquinas na construção das lagoas e cedeu a área onde é a minicentral. E o CIBiogás foi o executor do projeto”, pontua.

Cerca de três mil metros cúbicos de biogás são produzidos todos os dias (Foto: Divulgação)

 

SUSTENTABILIDADE ATÉ O FIM

Apesar do sucesso em transformar um passivo ambiental em ativo financeiro, o objetivo principal do projeto, aponta o secretário, é fazer o tratamento adequado dos dejetos. “São 40 mil suínos em um universo de 150 mil suínos. A gente está resolvendo um problema ambiental muito grande”, considera.

Outro ponto positivo, sustenta, “é a economia circular que é criada, pois os recursos pagos aos produtores permanecem na região. Hoje existem empresas de peças e manutenção, por exemplo, que vivem desse projeto”.

Ainda segundo o secretário, o condomínio pode receber mais propriedades futuramente. Conforme ele, o projeto tem capacidade para aumentar em 40% a produção de energia elétrica. “O projeto pode ser ampliado. Quando a rede foi feita, foi projetada para agregar outras propriedades. Hoje poderia aumentar em mais 40% a produção”, expõe.

Atualmente, a produção de biogás gira em torno de três mil metros cúbicos por dia. Depois que sai das propriedades, o material restante, que passou por processo de digestão anaeróbica e tem características fertilizantes, vai para lagoas de digestato e na sequência é usado nas lavouras como adubo orgânico em áreas de milho ou para pastagem. “É um adubo extremamente eficaz e de baixo custo. Passando pelo biodigestor, o dejeto melhora sua qualidade, perde sua acidez, chega a um ponto de equalização propício para usar na lavoura”, enalteceu Lewandowski.

Minicentral termelétrica gera energia para 60 prédios públicos (Foto: Divulgação)

 

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