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“Vai demorar três anos para voltarmos ao calendário normal”, prevê reitor da Unioeste

calendar_month 22 de julho de 2020
13 min de leitura

Com aulas presenciais suspensas desde março de 2020, a Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) deve demorar cerca de três anos para voltar a ter um calendário normal, com aulas começando em março e terminando em dezembro. A estimativa é do reitor Alexandre Webber. Segundo ele, ao contrário do que muitos pensam, apesar de a pandemia dar a impressão de que a Unioeste está paralisada, ela não está; pelo contrário, está extremamente atuante, garante. “Todos os campi tiveram atividades voltadas para a Covid-19, às pesquisas e aos alunos. A universidade não parou. Estamos com atividade remota, mas não curricular. Optamos em um primeiro momento por atividades complementares, considerando que os alunos demonstraram claramente que preferiam esperar”, enalteceu ao O Presente.

Conforme Webber, ainda não há previsão para o retorno das aulas presenciais. “Daqui uns dois meses, alguma prática pode voltar, mas a teórica provavelmente continue em atividade remota”, menciona. “Provavelmente semana que vem (nesta semana) vamos discutir quando vamos retomar, de que maneira retomar”, amplia.

O reitor comenta que o recente questionário de caráter consultivo enviado para os acadêmicos, a fim de avaliar aspectos para planejar a retomada das atividades de ensino, revelou que a grande maioria tem acesso à internet e aceita ter aulas remotas, mas prefere esperar. “Eles preferem esperar, pois têm receio que as aulas percam qualidade, mas se tiver que voltar, a maioria poderia, a maioria teria acesso à internet”, salienta.

Webber também enaltece o papel de destaque das universidades públicas e suas estruturas de saúde neste período de pandemia, atuando na linha de frente de atendimento e tratamento, além da produção e distribuição de álcool gel e desenvolvimento de pesquisas. Confira.

 

O Presente (OP): O senhor assumiu a Reitoria da Unioeste em janeiro e em março a pandemia de Covid chegou e mudou a realidade de todos: empresas, instituições, governos… Como tem sido administrar a universidade em um período repleto de desafios?

Alexandre Webber (AW): Administrar a Unioeste por si só já não é algo fácil. Em um momento de pandemia, complica ainda mais. Contudo, a Unioeste é uma universidade muito forte. Apesar de a pandemia dar a impressão de que a Unioeste está paralisada, ela não está; pelo contrário, está extremamente atuante. A pós-graduação, mestrado e doutorado não pararam, continuaram no começo com a pesquisa e logo na sequência já entraram com as aulas em atividade remota. Desde o começo da pandemia, atualizamos e revisamos o projeto de ensino, pesquisa e extensão. Então, flexibilizamos uma maneira mais rápida de aprovar projetos para que todos os cursos fizessem projetos de ensino complementares, não curriculares, mas também foi um laboratório para cada curso puxar os alunos, ver se estão assistindo, se não estão. O Hospital Universitário (HU) é outro desafio. A equipe do HU trabalhou firme e hoje ela é a grande referência de Covid-19 na região. Começamos com dez leitos e já estamos com 30 UTIs.

 

OP: Muitas universidades e colégios particulares aderiram a aulas remotas, até mesmo a rede estadual de ensino adotou este formato. Por que a Unioeste não aderiu às aulas on-line?

AW: A Unioeste está com atividade remota, mas não curricular. Até pelo fato de a Unioeste ser uma das últimas que adentrou nessa questão do ensino a distância no passado e considerando as limitações, é claro, optamos em um primeiro momento por atividades complementares, considerando que os alunos demonstraram claramente que preferiam esperar. Eles entendem que (este formato) pode prejudicar a qualidade e também é assustador pensar que uma parcela não tem acesso (a tecnologias). Isso é algo que, passando a pandemia, vamos ter de trabalhar, porque não é concebível um aluno dentro de uma universidade não ter acesso à tecnologia.

 

OP: Em quanto tempo a Unioeste estima recuperar este tempo de aulas presenciais paralisadas? Haverá aulas até 2021, coincidindo com um novo ano letivo?

AW: É muito difícil saber. Provavelmente em agosto vamos entrar com uma parte de atividades, mas depende do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe). É até perigoso falar isso antes do Conselho definir, mas pela conversa que vemos em todos os cantos, o entendimento de todos é que a maioria entendia que em agosto já voltariam as aulas presenciais. Então, essa mudança de quadro (de aumento de infectados por coronavírus no Paraná) pegou todo mundo, e não dá para continuar desse jeito, é preciso fazer alguma coisa. Mas o fazer alguma coisa é dando a garantia para os alunos de que, inclusive, se precisar refazer, nós vamos refazer. Eu estimo que se conseguirmos ter aula presencial em setembro, outubro que seja, vamos levar uns três anos pelo menos para colocar em dia o cronograma.

 

OP: Então a Unioeste ainda não tem nenhuma perspectiva quanto à previsão de data para a retomada das aulas presenciais?

AW: Não tem. Esta semana (semana passada), a comissão criada através do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão finalizou estudos. Esta comissão primeiro fez uma pesquisa com os alunos, depois fez uma pesquisa com os professores e agora finalizou o relatório. Então, provavelmente semana que vem (nesta semana), ela vai me entregar o relatório e eu marcarei uma reunião com o Cepe para fazer essa discussão de quando vamos retomar, de que maneira retomar. Daqui a pouco também, daqui uns dois meses, alguma prática pode voltar, mas a teórica provavelmente continue em atividade remota. É muito difícil fazer previsão, é uma situação que nunca passamos.

 

OP: O senhor mencionou que pode levar uns três anos para recuperar o prejuízo deste ano pandêmico. Como fica a situação do acadêmico que está se formando? Pode demorar todo esse tempo para ele concluir a graduação e receber o canudo?

AW: Eu falo recuperar no sentido de nós voltarmos recuperando o ano começando em março, voltar o calendário e começar do zero, porque depende do mês que irá o outro calendário, vai iniciar no meio do ano e aí você avança em janeiro. Por isso que eu falo três anos para você voltar ao calendário normal, (com as aulas) começando em março e acabando em dezembro.

 

OP: A qualidade de ensino pode ficar prejudicada para o acadêmico?

AW: Nós vamos fazer de tudo para que isso não ocorra. Até por isso, desde o início, não falamos em fazer tudo remoto. Primeiro, nem todos os alunos têm acesso, é isso o que detectou a pesquisa (feita com os acadêmicos). Segundo, nem todo professor foi treinado para fazer esse tipo de atividade, não é um negócio simples. Em boa parte dos cursos há atividades práticas que não têm como fazer de forma remota. Então, a prioridade para nós é a qualidade, e essa garantia será dada aos alunos. Inclusive, se alguma atividade for dada e chegar à conclusão através dos colegiados que não teve qualidade, ela será refeita.

 

Reitor da Unioeste, Alexandre Webber: “Há vários anos vínhamos apanhando muito da sociedade por esta não entender a universidade pública e eu vejo que nesses meses de pandemia ficou demonstrada a importância da universidade e da saúde pública. Graças a Deus que temos um SUS”

 

OP: A Unioeste avaliou, então, que seria menos prejudicial manter as aulas presenciais suspensas do que aderir a aulas on-line e correr o risco de perder a qualidade do ensino?

AW: Sim, a prioridade, para nós, é a qualidade. Todo mundo sabe, estamos vendo com os nossos filhos em casa (com as aulas virtuais). Não dá para falar que é a mesma coisa; é óbvio que não é a mesma coisa. Mas é algo importante para você segurar esse aluno. Daqui a pouco os alunos desistem. Já estamos há tanto tempo afastados, mas, como eu falei, teve uma série de atividades complementares, seminários e palestras em todos os cursos.

 

OP: O senhor acredita que após o retorno das aulas presenciais haverá muita evasão ou desistência por parte de acadêmicos?

AW: Há uma grande preocupação neste sentido. Vamos fazer de tudo para que isso não ocorra. Temos há anos uma resolução que nunca foi implantada e que queremos implantar. Eu queria ter implantado em março, mas, devido à pandemia, isso não aconteceu. Então, nas próximas semanas, vamos implantar o Conselho de Assistência Estudantil. Vai ser um conselho com os alunos. Todos os cursos devem montar grupos, comissões para fazer um acompanhamento do dia a dia, como é que as atividades estão acontecendo, se todos estão assistindo ou se não estão. Vai ser bem difícil. Nós estamos em uma pandemia, há uma crise econômica absurda e tudo interfere.

 

OP: O senhor comentou que deve receber nesta semana oficialmente o relatório sobre o questionário de caráter consultivo enviado e respondido pelos acadêmicos, buscando avaliar vários aspectos para poder planejar a retomada das atividades de ensino. É possível adiantar aspectos em relação às respostas dos estudantes? O que mais chamou a atenção?

AW: De 27% a 30% dos acadêmicos não responderam o questionário. Reenviamos para esse público que não respondeu. Se ainda assim eles não responderem, os colegiados vão entrar em contato via telefone. Dos que responderam, a grande maioria disse ter acesso à internet e que aceita ter aulas remotas, mas que prefere esperar. Esse é o pensamento dos alunos, eles preferem esperar, pois têm receio que as aulas percam qualidade, mas se tiver que voltar, a maioria poderia, a maioria teria acesso à internet. Se 5% não tem, nós vamos ter que resolver e por isso mantive contato com a Receita Estadual para receber uma doação de smartphones que estão disponibilizando para todas as universidades, um aplicativo que através do smartphone ou tablet o aluno não consome o seu pacote de internet, porque muitas vezes os chips têm pacote pequeno. Ele só precisa ter um chip 3G ou 4G e acessar via aplicativo, não vai consumir o pacote de internet.

 

OP: Além da crise da saúde, estamos vivendo uma crise econômica. Isso afetou também o orçamento da Unioeste, as atividades da universidade?

AW: Tivemos um contingenciamento no custeio que já não era bom. Houve um contingenciamento de 20%, mas também tivemos redução nas despesas, não na mesma proporção, mas o consumo de água e luz teve uma boa redução. Com certeza, agora para o segundo semestre vamos ter de conversar com o governo sobre esse contingenciamento, porque as despesas básicas não chegam pagas no fim do ano com esse contingenciamento que foi feito.

 

OP: O HU tinha dez leitos e hoje tem 30. É o hospital referência em Covid na macrorregião Oeste. Passada a pandemia, esses investimentos ficam? Os leitos conquistados, por exemplo, entre outros investimentos, permanecem no hospital?

AW: Se depender da nossa gestão, sim. Eu tenho certeza que todos os políticos e a sociedade perceberam isso, o quanto desprovidas eram as estruturas de UTI na nossa região. Quando você olhava desde o começo nos mapas estaduais das regiões, era gritante a capacidade de leitos de UTI da nossa região. Então, entendemos por que historicamente escutávamos a reclamação de que não tinha leito de UTI. É só pensar, o nosso hospital que é um hospital para uma macrorregião de mais de dois milhões de habitantes tinha 14 leitos de UTI. Na ala de UTI eram 14 e mais cinco leitos no pronto socorro. Pelo menos do que veio, se não manter tudo, no mínimo é ideal manter 30 leitos na nossa ala de UTI, manter os de Assis, manter a expansão de Toledo, manter o hospital de retaguarda que foi ampliado. Eu acho que é fundamental, e nas conversas que tive ao longo desse processo, o pessoal da Amop, entre outras associações, todo mundo percebeu isso.

 

OP: A falta de leitos de UTI sempre foi evidente na região. Por que só agora foi possível ampliar e de forma mais rápida? Por que antes não era possível e agora foi possível?

AW: Agora, como se diz, a necessidade trouxe progresso. Não tinha como não ampliar. Montamos os dez primeiros leitos e depois de alguns meses outros dez. Em três dias nós estávamos com os 20 leitos ocupados e os 14 que já tínhamos e os cinco do pronto socorro não esvaziaram em momento algum.

 

OP: A Unioeste tradicionalmente realiza seu vestibular em novembro/dezembro e desta vez adiou para maio de 2021 devido à pandemia. Que reflexo isso terá para quem ingressar no ano acadêmico? Trará, de alguma maneira, prejuízos à instituição?

AW: Se tem alguém que pode falar que não sou eu, porque fiz o vestibular em maio. O primeiro vestibular da turma de Odontologia, Medicina e Engenharia Civil, na época, de Cascavel, foi em maio, e eu acredito que nos outros campi também tiveram cursos com vestibular em maio.

 

OP: Então não trará prejuízo aos alunos?

AW: Não, ele apenas começa o ano mais tarde. O maior prejuízo nesse processo todo é para o último ano. Esse não tem como falar que não tem prejuízo. Agora, do terceiro ano para baixo, em dois ou três anos você recupera. No quarto, penúltimo ano, vai atrasar também a formatura.

 

OP: Quem for aprovado no vestibular 2021 vai começar os estudos quando? Em 2021 ou 2022?

AW: Não temos essa certeza ainda, mas há grande probabilidade de iniciar ainda no segundo semestre (de 2021).

 

OP: Em relação ao atual ano letivo, como é que vai funcionar: as aulas do período letivo de 2020 vão adentrar em 2021 e serão dadas de forma paralela ao ano letivo de 2021?

AW: Não. Acaba um ano e depois inicia outro. O que pode acontecer, e eu acredito que aconteça, assim que for possível ter alguma atividade presencial, a partir de acordo coletivo de alunos e professores, é acelerar os últimos anos. É possível fazer um acordo com o colegiado, você dá um pouco de carga horária semanal, porque aí você não vai ter a obrigação de ter 200 dias letivos. Nosso calendário foi suspenso, então, é possível acelerar as últimas turmas.

 

OP: A pandemia mostrou novos caminhos e antecipou tendências. Em relação ao ensino superior público, que legado vai ficar?

AW: Acho que o que fica é a importância das nossas universidades públicas. Quem não percebeu a importância delas é porque não prestou atenção. Tanto as universidades quanto as suas estruturas de saúde na parte de pesquisa e extensão no Paraná, os editais da Fundação Araucária, estão atuando junto às Regionais de Saúde, junto aos hospitais, estão atuando nas fronteiras, estão atuando na produção e distribuição de álcool gel e numa série de pesquisas. Há vários anos vínhamos apanhando muito da sociedade por esta não entender a universidade pública e eu vejo que nesses meses de pandemia ficou demonstrada a importância da universidade e da saúde pública. Graças a Deus que temos um SUS (Sistema Único de Saúde).

 

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