Policial

BPFron fecha 2017 com números recordes de apreensões

Apreensões realizadas no ano passado superaram as dos últimos quatro anos de trabalho da unidade. Somente de maconha foram 18,5 mil quilos retirados de circulação; cigarro se destaca entre os produtos contrabandeados, com 670 mil pacotes apreendidos
(Foto: Arquivo/OP)

Responsável pelo policiamento ostensivo preventivo fardado, para a preservação da ordem pública, e por operações diversas na região de fronteira do Brasil com o Paraguai e Argentina, o Batalhão de Polícia de Fronteira (BPFron) encerrou o ano de 2017 com um saldo de apreensões expressivo. Ao todo, foram 18,7 toneladas de drogas, com destaque para a maconha, que totalizou 18,5 mil quilos até o fim do ano e cerca de 670 mil pacotes de cigarros contrabandeados. Em 2016, o número de cigarros apreendidos chegou a pouco mais de 611 mil pacotes, enquanto a maconha somou quase três toneladas.

Criado há cinco anos para coibir diversos crimes, entre eles o contrabando, o descaminho e o tráfico de drogas, o BPFron atua no recobrimento das unidades já instaladas e apoiando outras forças de segurança pública. A unidade é formada por três companhias sediadas em Marechal Cândido Rondon, Guaíra e Santo Antônio do Sudoeste, sendo as duas primeiras na fronteira do Brasil com o Paraguai e a terceira na fronteira com a Argentina. No total, 139 municípios são atendidos pelos militares.

Entre os produtos apreendidos pela unidade em 2017 estão cinco mil quilos de agrotóxicos, 18 mil cartelas de medicamentos proibidos, 2.390 unidades de anabolizantes, 4.880 pneus contrabandeados, 5.993 munições, 107 armas de fogo, mais de R$ 63 mil em dinheiro e 17 mil unidades em volumes diversos. Somados a esses números estão as prisões realizadas pelos policiais militares. No total, 649 foram presas ou encaminhadas às autoridades judiciais competentes. Além disso, foram cumpridos 104 mandados de prisão e outros 61 de busca e apreensão.

 

Integração como peça-chave

Os resultados das ações do Batalhão, para o comandante da 1ª Companhia do BPFron, capitão Nairo Cardoso da Silva, são significativos. “O trabalho em 2017 foi bastante diferenciado em relação aos anos anteriores, com ações mais efetivas e números bastante precisos”, destaca.

Na visão do capitão, os números foram diferenciados principalmente porque desde novembro de 2016 o BPFron passou, após uma normatização federal do Programa de Proteção Integrada de Fronteiras (PPIF), a atuar de forma mais integrada com outras forças de segurança. “Nós já fazíamos algumas ações integradas, mas eram mais pontuais, como as operações Fronteira Blindada e Muralha, além de outros trabalhos pontuais com a Polícia Federal”, menciona.

A partir de então, o trabalho de policiamento de fronteira foi intensificado. Segundo o comandante, o Corpo de Operações de Busca e Repressão Anfíbio (Cobra), pelotão de ações aquáticas do BPFron, passou a atuar na Base Estaleiro, no Rio Paraná, com o Núcleo Especial de Polícia Marítima (Nepom), da Polícia Federal, como também na Ponte Internacional da Amizade, em conjunto com a Receita Federal, desenvolvendo ações diuturnamente. “Esse trabalho de integração fez com que operássemos em conjunto com essas forças de segurança e os números das apreensões consequentemente aumentaram, como foi o caso da maconha”, ressalta Nairo.

Conforme ele, as apreensões realizadas em 2017 pelo BPFron superaram os últimos quatro anos de trabalho da unidade. “Isso é prova de que essa sinergia das forças de segurança, em prol do mesmo objetivo, operando de forma conjunta e unindo esforços, é um diferencial. Mesmo que cada um faça o seu trabalho de forma específica, não teríamos os mesmos resultados”, salienta.

Na concepção do comandante, não é possível falar em policiamento de fronteira sem falar em integração entre as forças de segurança. “Qualquer apreensão que o efetivo do BPFron faça vai ter como destino final as delegacias das polícias Civil e Federal, a Receita Federal ou, dependendo da ocorrência, até mesmo a Marinha”, expõe.

Comandante da 1ª Companhia do BPFron, capitão Nairo Cardoso da Silva: “Estamos entendendo melhor e buscando aprender e aprimorar novos métodos e formas de se trabalhar, mas isso também requer investimentos, capacitação do efetivo e até mesmo a formatação de alguns procedimentos”

 

Contrabando de cigarros é atrativo

Segundo o Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf), o contrabando de cigarros ainda é o maior atrativo em áreas de fronteira.

Na fronteira entre o Brasil e o Paraguai o contrabando é uma maneira fácil de ganhar dinheiro, o que faz com que jovens ingressem no mundo do crime atraídos pela alta lucratividade ilícita. Com a promessa de mudar de vida, só se dão conta dos perigos quando já estão envolvidos e muitas vezes o caminho não tem volta e nem final feliz.

De acordo com o Idesf, o contrabando de cigarros é o mais atrativo nesta área de fronteira, pois, devido à alta rotatividade do produto e aos preços elevados, o trabalho é garantido diariamente. Atualmente, 30% do cigarro vendido no Brasil é ilegal e o contrabando do Paraguai lidera este percentual.

“As apreensões de cigarros nunca param. Inclusive o próprio crime organizado está migrando para o contrabando de cigarros e investindo na prática ilícita”, diz o comandante da 1ª Cia do BPFron, acrescentando: “Hoje o cigarro oferece um lucro de 200%, por isso se continua investindo no contrabando, seja de cigarros, medicamentos ou outros produtos”.

Apreensões de maconha e cigarros despontaram na região em 2017

 

A logística do crime

O problema do contrabando no Brasil tem se agravado muito nos últimos anos, o que levou o governo federal a implantar diversas operações específicas para fortalecer a segurança nas fronteiras. São elas as operações Ágata, do Ministério da Defesa; Sentinela, do Ministério da Justiça; e Fronteira Blindada, do Ministério da Fazenda. Além disso, essa preocupação também já atinge os governos estaduais dos Estados fronteiriços, que criaram os Grupos Especiais de Fronteira para fortalecer a segurança nessas regiões.

Para o comandante da 1ª Cia do BPFron, o aumento nas apreensões de contrabando, principalmente de cigarros, não necessariamente indica que os contrabandistas estejam mais audaciosos, mas, sim, que estão buscando “arriscar” mais, principalmente pela própria crise econômica. “Às vezes, por questões financeiras, as pessoas acabam optando pela prática de algum crime ou uma contravenção. Não estou dizendo que isso justifica as ações, mas é preciso pensar que o atual cenário econômico pode ter feito com que mais pessoas migrassem para o crime”, comenta.

Em 2017, o BPFron também tirou de circulação 578 veículos e recuperou outros 117. O Batalhão registrou ainda a apreensão de 73 embarcações e 48 motores de vários tamanhos. A maioria dos barcos era de grande porte e utilizado para o contrabando de cigarros ou outras mercadorias. “A apreensão dessas embarcações, que têm grande capacidade de carga, quebra de forma direta a logística operacional dos traficantes e contrabandistas”, diz Nairo.

As ações, nestes casos, contam diretamente com a atuação do Pelotão Cobra, que faz patrulhamentos aquáticos nas áreas de fronteira. “Pela continuidade das nossas ações no Lago de Itaipu, os criminosos não tentavam passar com barcos grandes, mas com as cargas fracionadas, já com medo de serem flagrados”, conta o capitão.

Ele reitera que a grande maioria dos veículos apreendidos são produtos de roubos. São famílias e pessoas que, conforme o comandante, talvez tenham morrido para que esses veículos chegassem nas mãos dos marginais. “A apreensão dos barcos e motores, assim como de caminhões, impacta diretamente na ação dos traficantes e contrabandistas, principalmente se avaliarmos a quantidade de droga e contrabando que pode ser transportada nesses veículos. Com isso, fazemos com que os meios de transportes sejam prejudicados, fazendo com que os criminosos tenham que conseguir outros meios e quem sabe até mesmo repensar a forma de operar, e nesse meio tempo nós agimos e fazemos a prevenção e repressão dos crimes”, enaltece.

 

Trabalho novo

Consolidado como a primeira unidade do gênero do país, o BPFron, com o conhecimento de seus policiais e o dinamismo das ações, faz a diferença na guerra contra o tráfico. As ações são feitas principalmente em áreas de difícil acesso, rotas do contrabando, como estradas rurais e ao longo do Lago de Itaipu, que possui mais de 1,3 mil quilômetros de margens vulneráveis e instalações de portos clandestinos. A principal dificuldade, segundo o comando do Batalhão, é blindar totalmente a fronteira. Com a 1ª Companhia sediada em Marechal Cândido Rondon, o BPFron cobre toda a região de fronteira do Paraná.

Contudo, o trabalho de policiamento de fronteira é algo novo para as polícias militares do Brasil. Resultado de investimentos do governo federal, através do programa de Estratégia Nacional de Segurança Pública nas Fronteiras (Enafron), as ações do Batalhão ainda estão sendo aprimoradas. “Estamos desenvolvendo tecnologias, estudos e metodologias para que a Polícia Militar possa focar realmente no trabalho de fronteira. Estamos atuando há cinco anos e agora é que estamos conseguindo criar metodologias, isto é, formas de trabalho próprias para operar na fronteira”, destaca Nairo.

O capitão também aponta o trabalho da Polícia Militar na fronteira como uma experiência nova. “Estamos entendendo melhor e buscando aprender e aprimorar novos métodos e formas de se trabalhar, mas isso também requer investimentos, capacitação do efetivo e até mesmo a formatação de alguns procedimentos”, salienta.

 

Prevenção e repressão

O trabalho de policiamento na fronteira, conforme Nairo, é permeado de muitas variáveis. O BPFron, de forma específica, demonstra seu trabalho através das apreensões. Logo, ao invés de fazer apenas a prevenção, está, principalmente, trabalhando na repressão dos crimes. “A partir do momento que coloco uma lancha para fazer patrulhamento ostensivo no Lago, estou gerando horas de prevenção, porque nesse tempo sabemos que ninguém vai se dispor a tentar passar”, frisa o comandante.

Dessa forma, Nairo diz que ao contrário de todas as apreensões realizadas em 2017, o tempo de repressão não é possível ser contabilizado. “Desde o momento em que colocamos viaturas e policiais em pontos de observações, fazendo patrulhamentos às margens do Lago ou bloqueios com as viaturas, estamos gerando prevenção. É algo que não conseguimos mensurar, mas que também precisa ser contabilizado como prevenção e trabalho realizado”, pontua.

 

Operações intensificam segurança

Ao longo de 2017, diversas operações foram desencadeadas pelo Batalhão de Fronteira, que culminaram significativamente no número de apreensões realizadas. Dentre as ações estão a Operação Fronteira Blindada, que se estendeu por duas longas edições, a Operação Fronteira Integrada, na Ponte Internacional da Amizade, com o apoio da Polícia Federal, Receita Federal, Marinha, Polícia Rodoviária Federal e outros órgãos de segurança pública, com focos de atuação também no Rio Paraná e no Lago de Itaipu, e a Operação Muralha, desenvolvida na praça de pedágio em São Miguel do Iguaçu. Além disso, foi desenvolvida em toda a região a Operação Captura, que teve como estopim a morte de um policial militar do BPFron durante um confronto armado com criminosos em Altônia. Operações aéreas com apoio do Batalhão de Polícia Militar de Operações Aéreas (BPMOA) e aeronaves da Casa Militar também foram realizadas. “Tivemos ainda várias edições da Operação Araupel, além de ações pontuais de recobrimento, tanto em Marechal Cândido Rondon quanto em outras cidades que solicitaram o apoio do BPFron, que ainda atua como segunda malha, dando apoio às unidades de área”, expõe o capitão.

Operação Muralha, desenvolvida na praça de pedágio em São Miguel do Iguaçu

 

Subunidades

O BPFron conta hoje com subunidades com focos diferenciados e especializados para a atuação na região de fronteira. O Pelotão Cobra, grupo especializado na atuação em ambiente hídrico na área de fronteira, trabalha preventivamente na repressão dos crimes transfronteiriços, como tráfico de armas, drogas, contrabando de pneus, cigarros, anabolizantes, medicamentos, agrotóxicos, tráfico de pessoas, evasão de criminosos e transporte de bens furtados pela fronteira. A ação ostensiva se faz presente em toda a região com o policiamento aquático e de barranca do Lago.

Além deste, o Batalhão passou a contar recentemente com o pelotão de Ronda Ostensiva com Aplicação de Motocicletas (Rocam), que consiste no policiamento com o emprego de policiais militares devidamente treinados para o uso eficiente e seguro de motocicletas em ações policiais, e com o Canil, que, embora esteja em processo de formação, já apresentou números expressivos em termos de apreensões de entorpecentes e demais ilícitos.

Ainda segundo o comandante da 1ª Companhia do BPFron, há uma célula do Batalhão, o Grupo de Repressão ao Contrabando (Precon), que atua diretamente com a Receita Federal na prevenção ao crime de contrabando. O desdobramento dessa ação integrada faz um trabalho volante com a Receita na região de Foz do Iguaçu. “O fato de nós atuarmos diuturnamente faz com que produtos que normalmente passariam desapercebidos hoje sejam apreendidos. Atualmente são poucos aqueles que se dispõem a lotar um veículo com contrabando e tentar atravessar a fronteira, por isso estão migrando para os chamados ‘fundos falsos’ e, por conta disso, já precisamos fazer as abordagens de uma forma mais diferenciada, buscando identificar essa possível tática”, explica Nairo.

 

Peculiaridades

As fronteiras do Estado com a Argentina e o Paraguai possuem suas peculiaridades, por isso, para o comandante, não é possível dizer que há locais mais ou menos perigosos. “Guaíra tem suas peculiaridades principalmente pela sua maior proximidade com o Paraguai, o que facilita a evasão de veículos e criminosos. Além disso, também registra um número alto de veículos roubados e apreensões de drogas, muitas vezes em pequenas quantidades, mas que ao serem somadas se tornam bem mais expressivas”, menciona.

O mesmo acontece com Mercedes, acrescenta o capitão, que hoje, segundo ele, tem forte presença do contrabando, além dos municípios de Pato Bragado e Itaipulândia, portas de entrada e passagem de maconha. “Cada unidade do BPFron tem as suas peculiaridades e com isso vamos nos desdobrando para atender a demanda específica de cada área”, enfatiza. 

 

Foco na capacitação

Investir na especialização do operador de fronteira, na capacitação técnica deste profissional, é um dos nortes do comando do Batalhão para o ano de 2018. “Tivemos no ano passado mais uma edição do Curso de Unidades Especializadas de Fronteira, que visa justamente preparar o profissional dentro das especificidades do Batalhão de Fronteira, com base em uma norma geral de ação, que estamos implementando para padronizar os procedimentos e condutas dos operadores de fronteira”, explica Nairo.

O capitão também comenta que a busca pela padronização dos procedimentos e condutas do operador de fronteira tem como foco trazer mais segurança para o policial, para que ele, consequentemente, possa dar mais segurança à população. “Investindo no aprimoramento temos policiais mais motivados, técnicos e com uma conduta de um batalhão especializado no policiamento de fronteira”, finaliza.

Curso de Unidades Especializadas de Fronteira