Marechal

Mais do que sucessores, administradores rurais

Filhos saem das propriedades rurais em busca de conhecimento em faculdades e universidades para agregar novos modelos de gestão, tecnologia e sustentabilidade nas propriedades rurais
(Foto: Mirely Weirich/OP)

"Quando uma porta se fecha, há sempre uma janela que se abre”. Até o ditado ser vivenciado na prática, muitos dizem que ele serve apenas para tranquilizar alguém que passou por uma recente frustração.

Para Adriel Roding, no entanto, foi dito e feito. Depois de duas tentativas frustradas de ingressar na faculdade de Zootecnia, para não ficar parado, o jovem de 19 anos começou a cursar Administração e, à primeira vista, é um tanto quando excêntrico aplicar conceitos de Taylor e Fayol no plantio de 15 alqueires de terra e na ordenha de 39 vacas. Mas só à primeira vista.

Já no primeiro ano em que o filho de seo Adilson e da dona Rejane passou a trazer os conhecimentos de gestão de dentro da sala de aula para a pequena propriedade familiar, a média diária da produção leiteira passou de 350 litros para 750 litros.

O jovem sai todas as noites da Linha Santo Ângelo, no interior de Marechal Cândido Rondon, para uma instituição do município e aplica os conceitos de organização do trabalho de forma racional direto na propriedade. “Apoiamos essa escolha dele porque sabíamos que traria bons resultados para toda a família e para a propriedade como um todo”, diz a mãe.

Adriel explica que, além de introduzir alguns conceitos no processo de gestão do sítio, outros pontos que colaboraram para o resultado positivo foi o estabelecimento de data correta para a prenhez das vacas e indução do cio. “Em sala tudo que o professor passa eu consigo aplicar aqui na propriedade, só preciso pensar como, qual a melhor forma de fazer para ter os resultados que precisamos”, afirma.

 

Conhecedores

O futuro administrador faz parte de um novo grupo de jovens que estão aos poucos surgindo entre as terras semeadas do município. Não apenas simples sucessores das propriedades rurais, eles buscam o conhecimento nas faculdades e universidades para agregar tecnologia, processos de gestão e sustentabilidade nas chácaras, transformando a realidade de suas famílias e projetando um futuro promissor para cidade que, já hoje, possui a economia especializada no agronegócio.

Em 2016 - que tem como ano base 2015 -, a produção primária, ou seja, a agricultura, representou sozinha 45% do valor econômico adicionado do município, que é o valor adicional que adquirem os bens e serviços ao serem transformados durante o processo produtivo. A indústria e o comércio completam a arrecadação com 31% e 22%, respectivamente.

Isso é resultado principalmente do trabalho de 7,6 mil habitantes, aproximadamente 16% da população total da cidade, que, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é a população rural residente em Marechal Cândido Rondon. Ativos no Bloco do Produtor Rural, ou seja, aqueles que tiram nota fiscal por produtos comercializados em sua propriedade, são apenas 4,4 mil.

Algumas entidades sociais também iniciaram projetos e programas para a juventude rural a fim de desenvolver, entre outros aspectos, cursos de formação de liderança, gestão e empreendedorismo entre os jovens do campo. O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), que no município está junto ao Sindicato Rural Patronal, oferece cursos e capacitações para desenvolver competências profissionais e sociais em aproximadamente 300 profissões do meio rural.  “Por termos a maioria pequenas propriedades em Marechal Rondon, nem sempre há lugar para todos os filhos permanecerem, por isso alguns ainda vêm para a cidade. Por outro lado, para quem quer tecnificar a propriedade, é preciso buscar conhecimento para trabalhar com a mesma mão de obra por conta do custo do serviço ou a propriedade se inviabiliza, por isso é preciso estudar fora para trazer esse conhecimento para dentro do campo”, avalia o presidente do Sindicato Rural, Valdemar Kaiser.

As capacitações oferecidas pelo Senar são gratuitas para qualquer pessoa ligada ao meio rural, que tem direto de usufruir do serviço já que ele é custeado pelos 0,2% descontados da nota do produtor rural assim que ele vende seu produto. Apesar disso, algumas capacitações e em determinadas localidades não possuem demanda significativa. “A extensão de base do Sindicato Rural é, além de Marechal Cândido Rondon, Quatro Pontes, Mercedes, Pato Bragado e Entre Rios do Oeste. Santa Helena não é nossa extensão de base, mas nós atendemos com cursos do Senar e temos uma grande procura. Mas Quatro Pontes, aqui em Rondon mesmo é pouca demanda, enquanto que Mercedes, por exemplo, temos uma boa procura”, expõe.

A baixa busca pelos cursos, conforme a facilitadora do Senar, Tatiana Schneider, está voltada especialmente a capacitações para mulheres, na parte de alimentos, relacionados a agrotóxicos e ao Jovem Agricultor Aprendiz (JAA). “Quando existe o interesse do jovem pelo curso nós esbarramos no Ministério do Trabalho, porque abaixo de 18 anos eles não podem realizar nenhum curso além do JAA, que é exclusivo para pessoas entre 14 e 18 anos, e o Empreendedor Rural desde que tenha um adulto da família acompanhando entre 16 e 18 anos. Isso faz com que o jovem se desanime em se capacitar”, menciona. “A legislação é um entrave para nós. Esses cursos relacionados a defensivos, por exemplo, não podem ser feitos por pessoas acima dos 65 anos, então apesar da busca de pessoas até mais velhas, dos pais desses jovens, a lei ainda complica”, complementa Kaiser.

Para o presidente do Sindicato Rural, a maioria dos pais estão abrindo as portas das propriedades para os filhos, ou seja, deixam os sucessores tentarem aplicar novas ideias mesmo que venham a cometer erros. “Ainda que errem irão aprender, então os pais estão apostando nos filhos para tocar a propriedade”, observa.

Entre os produtores que receberam a comenda de Produtor Destaque 2017 na última semana, concedido pelo Conselho Municipal de Desenvolvimento Agropecuário (CMDA), Kaiser menciona que na maioria dos casos os premiados foram pessoas mais jovens ou, quando os pais receberam o prêmio, o filho ou filha estavam acompanhando porque já estão “tocando o negócio” da família. “Por que as melhores propriedades de Marechal Rondon possuem jovens na gestão? Para mim ali ficou bem claro, é o conhecimento que os filhos estão buscando fora”, expressa.

Tatiana acrescenta que, além da soma dos novos conhecimentos que os filhos trazem para casa, também há uma troca de experiência, já que tudo aquilo que o os pais construíram até hoje também não pode ser deixado de lado.

 

Sem desprezar a experiência

Para o diretor-presidente da Copagril, Ricardo Sílvio Chapla, há um aumento significativo no número de jovens que tem como planejamento permanecer na propriedade rural e boa parte dessa decisão é oriunda da participação deles em treinamentos e cursos especialmente pelas propriedades serem tratadas diferentes do passado. “Antes quem não tinha escolaridade tinha que ser produtor e quem tinha trabalhava na cidade, já hoje não é dessa forma”, comenta.

Na avaliação de Chapla, há um índice significativo de jovens formados em diversos cursos superiores das áreas agrárias que estão assumindo propriedades, trabalhando lado a lado com os pais. “Até porque nem sempre um emprego no meio urbano garante uma renda melhor do que trabalhar na propriedade rural”, aponta.

Por conta da evolução tecnológica, há uma exigência constante de conhecimento para quem trabalha na agricultura, por isso a formação hoje é essencial. “Com o passar dos anos teremos gradativamente a sucessão que todos os pais sonham em ter, mas é importante ressaltar que para ter sucessão não precisa esperar que os pais desapareçam. Já hoje vemos que muitos jovens estão bem alinhados com os pais”, enfatiza.

Chapla destaca que os filhos também não podem desprezar a experiência dos pais, que foi adquirida em épocas, condições e opções diferentes daquelas encontradas hoje. “Eles precisam ser valorizados até porque se os pais não tivessem feito aquilo o jovem não teria oportunidade nenhuma hoje. Por ele ter opções diferentes do que o pai tinha, existem alguns conflitos, mas não pode ser jogado fora tudo o que os pais construíram”, observa.

No âmbito da cooperativa, os Comitês de Jovens e Femininos proporcionam o desenvolvimento pessoal e profissional para que os jovens e mulheres desempenhem cada vez melhor suas atividades na propriedade rural, além de prepará-los para se tornarem futuros líderes. “Essas atividades são necessárias porque as propriedades se tornaram empresas. Já não existe mais o termo pejorativo ‘colono’. Hoje tanto os pais quanto os filhos são administradores porque uma propriedade rural precisa ser mantida com controles e com cálculos. O ‘fazer de qualquer jeito’ já passou”, sintetiza Chapla.

Há cerca de dois anos, a família Roding chegou a cogitar sair do campo por conta de um problema de saúde que a matriarca vem enfrentando, entretanto, Rejane diz que quando perceberam que os filhos permaneceriam na propriedade ao lado dos pais, descartaram a hipótese de deixar tudo e ir morar na cidade. “O Adriel tomou a frente de parte da gestão e passou a atuar lado a lado na administração, e os outros dois continuam conosco também pegando pesado. Decidimos permanecer porque vimos que podemos contar com o apoio dos nossos filhos. Agora, entendemos também que para ter sucesso não basta ser um administrador, precisa também saber administrar”, enfatiza.

 

Nem tudo são flores...

A sucessão familiar implica na formação de uma nova geração de agricultores e é de extrema importância para a manutenção de propriedades rurais, porém, de acordo com o diretor do Centro de Ciências Agrárias do campus rondonense da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), professor Nardel Luiz Soares da Silva, quem está no meio rural ainda é visto como uma pessoa “atrasada” e alguns jovens saem da propriedade dos pais para se livrar desta carga e o desejo “migratório” dos jovens em grande parte é justificado por uma visão negativa da atividade agrícola e dos benefícios que ela proporciona. “Ainda precisamos desenvolver estudos para ter essa percepção de sucessão familiar dentro da academia. Contudo, com base em algumas conversas com filhos de agricultores que estudaram conosco até mesmo no mestrado e voltaram para a propriedade, o grande problema é que os pais não abrem mão de passar a sucessão para o filho por conta do conservadorismo”, frisa. “Todavia, a sucessão precisa ser passada em vida e, na maioria dos casos, ela é passada ou quando o pai fica doente ou depois que ele falece e o filho despreparado pega a propriedade para fazer a gestão e acaba falindo o negócio porque não sabe gerir”, completa.

Por estarem há anos à frente da propriedade rural, cita, os agricultores são resistentes, por isso poucos aceitam que os filhos cheguem com ideias novas. “E é preciso mudar essa mentalidade porque o produtor precisa se profissionalizar no atual estágio da agricultura, mas ele não precisa necessariamente fazer uma faculdade. Hoje há cursos e capacitações disponíveis para isso. As tecnologias que estão à disposição hoje são muito caras e ele precisa saber se deve investir ou não de acordo com o mercado naquele momento”, evidencia Silva.

Mesmo concordando que os pais têm suas razões em serem cautelosos ao aceitar ideias provenientes dos filhos já que o que está em jogo é o patrimônio de uma vida, tanto aos estudantes filhos de agricultores como aqueles que não são e ingressam nos cursos de Zootecnia e Agronomia, o professor frisa que a academia aconselha para que eles sejam empresários e não empregados. “Eles têm o pai com a propriedade, podem investir e empregar conhecimento para melhorar a produtividade e tentamos mostrar isso para eles, entretanto, muitas vezes falta o pai decidir para quem vai deixar a propriedade ou apenas deixar aplicar a ideia”, pontua.