As mulheres estão assumindo cada vez mais protagonismo nas forças de segurança do Paraná. Em diferentes frentes, do resgate ao policiamento, da investigação à ciência forense e à gestão do sistema penal, elas ajudam a escrever uma história marcada por pioneirismo, superação e compromisso com a população. Atualmente, são 4,5 mil profissionais nas polícias Militar, Civil, Penal e Científica, além do Corpo de Bombeiros. É o maior contingente da história.
O Corpo de Bombeiros Militar do Paraná (CBMPR) foi a mais recente entre as cinco corporações a somar a presença feminina em seu efetivo. Há vinte anos, em 2005, a primeira turma mista de homens e mulheres foi formada e desde então as bombeiras paranaenses vêm conquistando espaço e protagonizando avanços importantes dentro da corporação.
Entre elas está a sargento Josiane Aparecida Luchetta, que há 12 anos integra o efetivo do CBMPR. Formada em Enfermagem, ela já atuava na área da saúde quando decidiu prestar o concurso para a corporação, motivada pela irmã, hoje também bombeira. O interesse pelo atendimento pré-hospitalar e a admiração pelo trabalho dos socorristas acabaram conduzindo a profissional para uma trajetória marcada pela atuação operacional nas ocorrências, de ambulâncias a viaturas de combate a incêndios.
Hoje, ela está à frente de uma função que, tradicionalmente, sempre foi associada aos homens: motorista de caminhão. No quartel do bairro Portão, em Curitiba, é a sargento quem conduz a Auto Plataforma Mecânica (APM), viatura empregada no combate a incêndios e em salvamentos em altura.
“Ser condutora nunca fez parte dos meus planos profissionais, mas hoje eu posso dizer que amo de paixão o que faço. A responsabilidade é grande, chegar na ocorrência no melhor tempo-resposta, sem danos aos bombeiros ou às pessoas na via, mas é indescritível a sensação de missão cumprida”, afirma.
A sargento conta que os desafios são muitos, mas as mulheres vieram para somar ao trabalho já realizado pela corporação. “A gente está aqui em prol da população e não tem nada mais gratificante do que perceber que o serviço foi bem feito e conseguiu mudar a vida de alguém. Quando todo mundo está saindo de um lugar de risco, nós estamos indo pra lá, para ajudar, salvar e evitar que a situação fique pior”, relata.
Nas ruas e investigações
Apesar do pai policial, foi a mãe médica que incentivou a major Carolina Pauleto Ferraz Zancan a entrar para a Polícia Militar do Paraná (PMPR). “Ela sempre me dizia que eu tinha que fazer aquilo que eu tinha vontade e que me faria feliz, e no primeiro dia já me identifiquei com a PM. Hoje sou totalmente apaixonada pela profissão. Se voltasse no tempo, escolheria ser policial militar novamente”, afirma.
Ao longo da carreira, ela atuou em diferentes setores da corporação. Hoje coordena a Patrulha Maria da Penha, iniciativa voltada ao acompanhamento e proteção de mulheres vítimas de violência doméstica.
Ela comenta que atuar em uma instituição historicamente marcada pela presença masculina traz muitos desafios para as mulheres e exige preparo físico, emocional e psicológico. “Somos mais cobradas, por exemplo, quando temos filhos. Ninguém questiona um homem que não vai à reunião do filho no colégio porque está trabalhando, mas se for uma mulher a cobrança social e o julgamento são grandes”, ressalta.
Mas mesmo diante das exigências da carreira, a major resume a motivação que a mantém na atividade. “Na corporação, desde a escola de formação, somos ensinados que temos um compromisso com a vida. Com o tempo eu aprendi que isso não se refere apenas ao risco de morte em confronto, mas ao nosso dia a dia, em que abrimos mão de momentos com a família ou de projetos pessoais para cumprir a missão”, destaca.
Filha de policiais rodoviários federais, a agente da Polícia Civil do Paraná (PCPR) Carla de Cássia Soares Gonçalves cresceu acompanhando de perto a rotina da segurança pública. Mas foi, principalmente, ao ver a mãe vestir a farda com dedicação e coragem que surgiu o desejo de seguir o mesmo caminho. “Eu via nela uma mulher forte, comprometida com a missão, e aquilo me inspirava”, recorda.
Com 12 anos de atuação na instituição, ela recorda que, antes mesmo de ingressar na PCPR, trabalhou na polícia rodoviária federal como terceirizada, experiência que reforçou a decisão de prestar o concurso. Em 2014, tomou posse e iniciou sua trajetória na Delegacia de Araucária. No ano seguinte, passou a atuar no plantão da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), rotina que descreve como intensa e desafiadora.
Em 2016, conquistou uma vaga no Centro de Operações Policiais Especiais (COPE), uma das unidades mais exigentes da Polícia Civil. O ingresso na equipe trouxe também o desafio de atuar em um ambiente predominantemente masculino. “Quando entrei, as equipes tinham 13 homens e apenas uma mulher. No trabalho operacional, a cobrança é alta e muitas vezes a mulher precisa provar mais, mas eu sempre acreditei que preparo, disciplina e postura falam mais alto do que qualquer rótulo”, afirma.
Recentemente, a agente realizou mais um objetivo na carreira ao integrar o Núcleo de Operações com Cães (NOC), setor especializado que utiliza cães treinados para faro de drogas e armas em operações. “Trabalhar com os cães é unir vocação e paixão. É mais uma etapa de uma caminhada construída com esforço. Hoje, agradeço a Deus todos os dias por ter chegado até aqui. Não porque foi fácil, mas porque foi possível”, resume.
Ciência
Há 31 anos na perícia criminal, a perita oficial Nadir de Oliveira Vargas acompanhou de perto a evolução da atividade pericial no Paraná, desde o período em que a perícia ainda integrava a PCPR, até a atual estrutura da Polícia Científica do Paraná (PCIPR). Ao longo dessa trajetória, construiu carreira na área de Documentoscopia e Grafotecnia, onde hoje atua como chefe da seção, dedicada à análise de documentos e assinaturas que ajudam a esclarecer crimes.
Segundo ela, o ambiente profissional mudou significativamente ao longo das décadas, especialmente em relação à presença feminina nas instituições de segurança e na própria ciência forense. “Houve um avanço civilizatório muito grande. Hoje existe muito mais respeito, reconhecimento e espaço para a atuação das mulheres”, afirma.
A perita destaca que a ciência, assim como muitas áreas técnicas, ainda exige persistência e dedicação para conquistar reconhecimento. “A gente sempre precisa demonstrar competência e preparo técnico. É um trabalho que exige estudo constante, responsabilidade e muita atenção aos detalhes”, explica.
Para Nadir, justamente essa atenção minuciosa pode se tornar uma característica valiosa no trabalho pericial. “A perícia é a ciência dos detalhes. Muitas vezes são pequenos vestígios ou sinais quase imperceptíveis que ajudam a esclarecer um caso. E as mulheres têm uma sensibilidade e um olhar muito apurado para isso, então acredito que a contribuição das peritas é muito importante para a segurança pública”, diz.
Em busca de ressocialização
A diretora-geral da Polícia Penal do Paraná (PPPR), Ananda Chalegre, soma duas décadas de atuação na segurança pública. Quarta geração de policiais na família, seu pai foi major da PM e posteriormente delegado da PCPR, Ela chegou a ingressar na primeira turma de mulheres bombeiras do Paraná, mas depois foi chamada para integrar o então Departamento Penitenciário, iniciando ali sua trajetória na Polícia Penal. “A segurança pública sempre esteve presente na minha vida”, resume.
Ananda ingressou na instituição em 2006 e passou por diferentes áreas do sistema prisional atuando em regimes fechado, semiaberto e aberto, com monitoração eletrônica e também em unidades masculinas e femininas, além de setores voltados ao trabalho e à produção dentro das unidades penais. “Nunca disse não para um desafio e hoje vejo que não foi à toa, pois ganhei uma visão ampla para gerir a PPPR”, avalia a diretora-geral.
Ananda é a primeira mulher policial penal a assumir a chefia da instituição e, entre as cinco forças vinculadas à SESP, também é atualmente a única mulher à frente de uma corporação, posição que reforça o simbolismo de sua trajetória em um ambiente historicamente masculino. “Gestão não é questão de gênero, é competência e profissionalismo”, afirma.
Ao olhar para as novas gerações que desejam seguir carreira na segurança pública, Ananda deixa uma mensagem direta. “Busquem aquilo que vocês gostam. Tenham coragem, força e determinação. Muitas vezes teremos desafios, mas são esses desafios que nos fazem crescer e nos levam mais longe”, diz.
Com Agência de Notícias do Estado do Paraná
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