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Indígena baleado em confronto no Paraná perdeu movimentos do corpo: “Espero andar de novo”

Ataque à comunidade foi no início de janeiro, além de Doroteu Martines Jara, outras três pessoas ficaram feridas, incluindo uma criança de sete anos e um adolescente de 14


calendar_month 13 de março de 2025
4 min de leitura

O indígena Avá-Guarani Doroteu Martines Jara, de 25 anos, perdeu os movimentos do peito para baixo depois que foi baleado em ataque em uma área de disputa de terras entre as cidades de Guaíra e Terra Roxa, no oeste do Paraná, fronteira do Brasil com o Paraguai.

O ataque à comunidade foi no dia três de janeiro. Além dele, outras três pessoas ficaram feridas, entre elas uma criança de sete anos e um adolescente de 14 anos. A região, sem demarcação, é palco de conflitos fundiários entre indígenas e fazendeiros há décadas. Entenda mais abaixo.

“Espero andar de novo. Os médicos falaram que falta bastante para andar de novo”, lamenta.

No dia do ataque, Doroteu visitava a irmã para comemorar as festas de fim de ano. Ele, que não vivia na comunidade alvo dos tiros, contou que foi baleado no braço e na coluna.

O indígena ficou internado em um hospital da região por sete dias, e os projéteis que estavam alojados foram retirados, mas ele perdeu parte dos movimentos.

A Polícia Federal (PF), responsável por apurar os ataques, informou que as investigações estão em andamento e correm em segredo de Justiça.

No fim de janeiro, uma equipe da RPC teve acesso à aldeia e conversou com Doroteu, que estava sendo cuidado pela própria família. Até aquele momento, nenhum órgão público havia procurado a aldeia para dar assistência aos indígenas, de acordo com a comunidade.

Falta de tratamento adequado e intervenção de autoridades

Entre os dias 27 e 30 de janeiro, quase um mês após o ataque, o Ministério Público Federal (MPF) realizou visitas técnicas em quatro aldeias no oeste paranaense que estão no centro de conflitos fundiários.

Durante as visitas, o MPF conseguiu atendimento emergencial para Doroteu e para uma criança baleada durante os conflitos.

O órgão também intermediou junto à Prefeitura de Terra Roxa a entrega de uma cesta verde por semana e fraldas descartáveis a Doroteu.

Além disso, solicitou a regularização da documentação do indígena junto a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e a inclusão dele no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) do Governo Federal, o que possibilitará acesso a programas sociais, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

No caso da criança que foi baleada no mesmo ataque que atingiu Doroteu, quando o MPF foi até a aldeia, a bala ainda não havia sido retirada e a lesão estava inflamada. O órgão solicitou o tratamento necessário à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Guaíra, que foi feito no mesmo dia.

Após a retirada, o projétil foi entregue à Polícia Federal, que atua no inquérito aberto sobre os disparos contra indígenas da comunidade.

Conflito histórico

Início do conflito envolvendo indígenas remete à construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, entre os anos de 1973 e 1982 (Foto: Alexandre Marchetti/Itaipu Binacional)

O início do conflito remete à construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, entre os anos de 1973 e 1982.

Na escolha do local para a construção da usina, houve a retirada de indígenas dos locais de interesse e a hidrelétrica inundou milhares de hectares de terras cultivadas e terras originariamente ocupadas por indígenas, segundo o relatório final da Comissão Estadual da Verdade do Paraná.

Além de serem retirados dos locais onde viviam, espaços sagrados para a comunidade, como cemitérios, as casas de reza e o maior conjunto de cachoeiras do mundo em volume de água, o Salto de Sete Quedas, foram submergidos por conta da construção.

Muitos dos indígenas que viviam no local inundado foram reassentados em Guaíra. Tanto indígenas quanto fazendeiros reivindicam a área, em debate na Justiça.

O impasse sobre a propriedade das regiões de conflito motivou, em julho de 2024, a criação de um grupo de trabalho da Secretaria de Estado de Segurança Pública do Paraná (SESP) com representantes de entidades ligadas aos direitos dos indígenas e de outras forças de segurança para intermédio e busca de uma solução.

O objetivo foi mediar uma discussão para que a Itaipu Binacional compre uma área, que será usada para realocação dos indígenas.

No fim de fevereiro, a Itaipu Binacional fixou R$ 240 milhões para compra emergencial de até 3 mil hectares de terra para comunidades indígenas Avá-Guarani que vivem sob ameaça e em constantes conflitos na região. Não há um data para que a compra seja feita.

Conflitos entre indígenas e agricultores são registrados no oeste do Paraná (Foto: Artes/RPC)

Com G1

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