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Paraná CRIME ORGANIZADO

“Piratas” do Lago

Constantes ocorrências de furtos e roubos de embarcações nos municípios que margeiam o Lago de Itaipu têm tirado o sossego da população. Segundo a polícia, crimes possuem linha direta e decisiva com o crime organizado, principalmente tráfico e contrabando

O Presente

As águas calmas do Lago de Itaipu são perfeitas para a prática da pesca esportiva e profissional, momentos de lazer ao lado da família e amigos, assim como para o descanso de embarcações atracadas à margem. Entretanto, no silêncio da noite, a calmaria é rompida pela ação dos “piratas” do Lago, ladrões que têm tirado o sossego dos proprietários de embarcações.

Seja na água ou na terra, as constantes ações dos “piratas” se refletem nos números expressivos de furtos e roubos de barcos registrados nos municípios que margeiam o Lago. Em 2017, cerca de 20 foram levados pelos criminosos na região. Somente o distrito rondonense de Porto Mendes registrou quatro furtos e um roubo de embarcações. De todas as ações foram levados quatro barcos e dois motores de popa. Já neste ano, até agora apenas um furto foi registrado, no mês de janeiro.

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Como a pesca é uma das atividades de lazer mais praticadas da região Oeste, outros municípios também sofrem com a ação dos criminosos. Exemplo disso é a cidade de Guaíra, que registrou três furtos e três roubos em 2017, quando ladrões levaram sete barcos com motores e um reboque. Santa Helena fechou o ano com seis furtos, nos quais foram levados cinco embarcações e quatro motores. No mês de janeiro deste ano mais um barco com motor foi furtado. Mercedes teve quatro furtos em 2017, com seis motores de popa retirados das embarcações. Em janeiro deste ano, um barco com motor e reboque foi furtado.

No ano passado, nos municípios de Pato Bragado e Quatro Pontes houve o registro de um furto de embarcação com motor e reboque, respectivamente. Em Entre Rios do Oeste dois motores foram furtados em situações distintas. Já em 2018 os três municípios não registraram furto ou roubo de embarcações.

 

Insegurança não apenas “em cima” da água

Para quem foi vítima da ação dos “piratas” do Lago, a insegurança permanece no cotidiano, e não apenas em cima da água.

O empresário e presidente do Clube de Pesca Marechal, Odair José Rossetto, conta que sempre costumava ir pescar ou aproveitar momentos de lazer com a família no Lago em Porto Mendes e Pato Bragado. Contudo, os hábitos foram modificados após sua embarcação ter sido alvo de ladrões em agosto de 2017.

Guardada na garagem da casa dos pais, em Marechal Cândido Rondon, a lancha com motor e reboque foi retirada durante a madrugada. Enquanto os pais dormiam, os ladrões entraram no local, estouraram dois cadeados, um do portão e o outro que protegia a embarcação, e retiraram a lancha. Ao menos três indivíduos participaram da ação.

De acordo com Rossetto, câmeras que flagraram o momento do crime mostram que os ladrões deixaram o carro duas quadras antes, foram até a residência e, após retirar a lancha, engataram a mesma no veículo e fugiram.

A lancha levada pelos criminosos era potente, com motor de 165 Hp e avaliada em R$ 65 mil. Apesar de ter seguro, o prejuízo ainda foi grande para o rondonense. “O seguro só cobre motor e casco. Com todos os acessórios que tinha nela o prejuízo passou de R$ 30 mil”, relata.

Apesar da insegurança, Rossetto resolveu investir e adquirir outra embarcação. “Quando começou a acontecer novamente os furtos, eu fiquei com medo de comprar outra. Eles (ladrões) não escolhem motor grande ou pequeno. Quando precisam, vêm e pegam. Não tem hora ou lugar”, diz.

Agora, contudo, o rondonense não deixa a embarcação guardada em casa, pois, segundo ele, “não é mais seguro”. “Quando somos roubados, a primeira ideia é não comprar outra embarcação, mas ela é nossa alegria e passatempo. Com ela vamos passear e pescar com a família nos fins de semana”, comenta.

Além disso, para evitar as ações dos “piratas” em cima da água, Rossetto conta que ele e outros membros do grupo evitam ir pescar sozinhos, o que era constante há algum tempo. “Hoje temos um grupo com os demais membros de clubes de pesca e procuramos sempre ir com mais de uma embarcação para o Lago”, revela.

 

Impactos

Para o rondonense, não são apenas os proprietários das embarcações que arcam com os prejuízos por conta das ações dos “piratas”, mas sim todo o comércio. “Aquela pessoa que costuma ir duas vezes por semana pescar, por exemplo, já deixa de ir. Logo não compra mais combustível e nem iscas. O prejuízo é geral”, avalia.

Rossetto usa a sua embarcação não apenas para a pesca esportiva ou lazer, mas também para trabalho. Como conhece os locais de pesca, ele faz trabalhos como guia de pesca em Porto Mendes para pessoas de outras cidades e Estados, como também para aquelas que são do município. “Quando acontece algum furto ou roubo as pessoas já entram em contato pedindo se está tranquilo para ir pescar. Esse é outro ponto negativo dos furtos e roubos”, diz, acrescentando: “A que ponto chegamos de não podermos ir pescar no dia e horário que quisermos por conta das ações criminosas”.

 

Medo

Presidente do Clube de Pesca Marechal, Odair José Rosseto: “Eles (ladrões) não escolhem motor grande ou pequeno. Quando precisam, vêm e pegam. Não tem hora ou lugar”

Outro empresário rondonense, que preferiu não se identificar, teve o motor da sua embarcação furtado há dois anos de dentro da garagem da sua residência durante a madrugada e até hoje não conseguiu recuperá-lo. O motor foi desmontado durante o dia e à noite os ladrões voltaram para buscá-lo. “Um dia depois, postaram fotos nas redes sociais vendendo o motor por R$ 8 mil na cidade. Acabei descobrindo onde ele estava, fui até o local, mas não consegui recuperar”, relembra.

O equipamento furtado tinha capacidade de 60 Hp e deixou um prejuízo de R$ 25 mil para o empresário. “Acabei adquirindo outro, mas hoje vou para o Lago com insegurança, até mesmo para ir passear com a família. Qualquer embarcação que chega próximo já traz medo”, relata.

Ainda admirado com a ação dos ladrões na sua residência, o rondonense chama a atenção para o fato de como eles chegam preparados para cometer o crime. “Eles têm todas as ferramentas que precisam para quebrar correntes, estourar cadeados e sabe-se lá o que mais. Não apenas uma embarcação pode ser levada do local, mas pessoas também podem ser feridas”, expõe.

O empresário diz que utiliza a lancha para lazer e pesca, mas mesmo assim pede para que a polícia intensifique o patrulhamento no Lago de Itaipu. “Que façam abordagens a qualquer tipo de pessoa e embarcação. Se estiver tudo correto e com a documentação, a pessoa não vai fugir”, menciona.

 

Precaução

As ocorrências de furtos e roubos de embarcações colocaram os proprietários de barcos e lanchas em alerta. O medo e a insegurança de se tornarem a próxima vítima dos criminosos fizeram, inclusive, com que pessoas renunciassem às suas embarcações. “Nós que praticamos a pesca amadora, com famílias e filhos pequenos, temos receio de sermos abordados pelos ladrões em cima do Lago ou sermos vítimas de um eventual roubo dentro da propriedade”, revela o empresário e presidente do Clube Amigos da Pesca, Marcos Mantovani.

De acordo com ele, algumas embarcações têm valores elevados e por mais que se tenha seguro para ter um ressarcimento, não é apenas o valor material que deve ser avaliado. “O bem material podemos tentar recuperar, mas o medo real é com a insegurança da família. Por esses motivos eu vendi a embarcação”, declara o empresário, emendando: “Minha ideia é comprar outra, mas com um valor menor e que seja menos visada para um eventual furto ou roubo”.

Mantovani comenta que como há participantes do clube que já foram vítimas de roubo ou furto de embarcação, outros membros também estão migrando para embarcações menores e que chamem menos atenção. “Preferimos reduzir um pouco o conforto, mas continuar com nosso esporte”, salienta.

Segundo ele, o prejuízo para alguém que tem uma embarcação ou apenas o motor furtado é muito variado. “Há embarcações de R$ 20 e 30 mil até R$ 100 mil. Contudo, percebemos que hoje o pessoal está perdendo muitos motores de 90 Hp, 100 Hp, 115 Hp, que giram em torno de R$ 30 mil cada”, expõe.

O empresário diz perceber que os ladrões estão preferindo levar apenas motores ao invés das embarcações. “Até mesmo porque como eles já possuem embarcações grandes, também precisam de motores grandes e potentes”, observa.

 

Mais cautela

Conforme Mantovani, os clubes de pesca e as autoridades de segurança de Marechal Rondon já se reuniram para debater a questão dos furtos e roubos de embarcações na região do Lago de Itaipu. “Na reunião eles repassaram que são recuperadas muitas coisas, mas que não ficam aqui, porque se uma embarcação é apreendida com contrabando ela vai para a Receita Federal, e sem documentação para a Marinha”, declara, emendando: “Quando embarcações são apreendidas, normalmente pelo BPFron, os policiais entram em contato e pedem se não é de algum membro dos grupos de pesca da cidade ou de outras pessoas da comunidade”.

Contudo, enquanto a ação dos “piratas” não for extinguida, resta aos proprietários de embarcações terem mais cautela. “Nós sempre conversamos uns com os outros e combinamos de não irmos mais sozinhos ao Lago para pescar. Orientamos que é melhor tentar reunir mais de um barco para chegar e sair sozinho de Porto Mendes. Se for chegar mais tarde, deve redobrar a atenção e cuidar com a presença de pessoas no atracadouro”, orienta.

 

Mais embarcações, mais crimes

Empresário e presidente do Clube Amigos da Pesca, Marcos Mantovani: “Nós que praticamos a pesca amadora, com famílias e filhos pequenos, temos receio de sermos abordados pelos ladrões em cima do Lago ou ser vítima de um eventual roubo dentro da propriedade”

O comandante da 2ª Companhia da Polícia Militar de Marechal Cândido Rondon, capitão Valmir de Souza, diz que analisa os dados de furtos e roubos com base na grande presença e movimentação de embarcações na região. “Quanto maior o número de embarcações, maior o número de delitos relacionados a esses bens”, destaca.

Conforme ele, o trabalho que a polícia desenvolve é buscar identificar as pessoas que realizam esses crimes, efetuar as prisões e encaminhar à Justiça para que respondam por esses atos. “Nosso combate é com patrulhamento, informações e ações conjuntas com a Polícia Civil, para que possamos encontrar as pessoas que realmente praticam esses crimes e assim ter uma segurança mais efetiva”, reforça Souza.

 

Tendência

Na visão do comandante, os furtos de embarcações têm uma tendência de acontecer de forma mais reiterada. “Por isso, o trabalho que a Polícia Militar tem é fazer o patrulhamento como um todo, identificar algumas pessoas ou quadrilhas que atuam na área e sempre orientar os proprietários de barcos para que procedam de forma mais segura com seus equipamentos, não abandonando em locais perigosos ou deixando sem segurança”, enaltece.

 

Perigo fora da água

A grande maioria das embarcações furtadas ou roubadas são subtraídas não apenas no Lago ou próximo dele, mas também e principalmente dentro das próprias residências. E pelo fato da região do Lago de Itaipu ser extensa, muitas vezes pessoas que utilizam essas embarcações não estão em território brasileiro. “Trabalhamos com a questão de muitas vezes sabermos onde estão os produtos roubados ou furtados, mas não temos jurisdição sobre o território onde elas se encontram, o que dificulta um pouco o trabalho no sentido de recuperar os bens e prender as pessoas envolvidas nesses crimes”, explica o capitão.

Souza, porém, destaca que o trabalho é incansável e a polícia procura sempre ressaltar que as pessoas precisam ajudar com informações e adotar medidas de segurança com seus próprios bens. “São diversos os casos de pessoas que deixam o reboque com o barco estacionado na rua e isso chama a atenção dos criminosos”, alerta.

 

Perfil do “pirata”

Com mentes e ações implacáveis, a índole criminosa vai além daquilo que o cidadão de bem pode imaginar. O perfil de pessoas que praticam esses crimes é variado, mas em sua maioria relacionado a crimes de tráfico e contrabando. “Não encontramos pescadores profissionais ou esportivos envolvidos nessas situações. Pelo contrário, são eles as maiores vítimas dos criminosos”, enfatiza o comandante.

O cenário, na visão de Souza, mostra que o crime de contrabando e descaminho não deve ser tolerado pela sociedade brasileira, principalmente na região de fronteira. “Para muitos o contrabando e o descaminho são vistos como atividades legais ou ‘menos ilícitas’. Todavia, a verdade é que são crimes tão perigosos quanto muitos outros, pois ensejam roubos, furtos, violência e até mesmo mortes”, enaltece, acrescentando: “Crimes de tráfico, contrabando e descaminho devem ser extirpados da sociedade para que tenhamos mais segurança”.

 

Ligação com o crime organizado

Segundo o comandante da Polícia Militar, não se pode afirmar que todas as embarcações furtadas têm relação com o crime organizado, mas grande parte desses furtos e roubos se liga às associações criminosas. “Contrabando, tráfico e descaminho possuem uma ligação forte com a criminalidade local, no aspecto de que furtos e roubos de embarcações servem ao tráfico e ao contrabando, muitas vezes, inclusive, ceifando vidas inocentes”, lamenta.

Por conta disso, Souza reitera que um crime de furto e roubo de embarcação pode despontar em muitos outros. “Quando os criminosos levam uma embarcação, eles também estão ‘violentando’ as famílias, deixando marcas psicológicas, físicas e financeiras nas pessoas. Muitas vezes são traumas irreparáveis”, salienta.

E o que fica para as vítimas é tão somente o trauma, não apenas pela questão financeira por si só, mas também pelo sentimento de impotência e perda do próprio trabalho ou conquista pessoal. “Sabemos desse impacto e fazemos o máximo para trazermos segurança à comunidade, mas infelizmente nossos esforços são limitados e a gama criminosa é muito maior”, pontua Souza.

 

Modo criminoso

Comandante da 2ª Companhia de Polícia Militar, capitão Valmir de Souza: “Quando os criminosos levam uma embarcação, eles também estão ‘violentando’ as famílias, deixando marcas psicológicas, físicas e financeiras nas pessoas. Muitas vezes são traumas irreparáveis”

Como diz o velho jargão: “a ocasião faz o ladrão”, e os furtos são muitas vezes frutos de um descuido e uma oportunidade. “Nesse sentido os criminosos têm um modus operandis bem definido porque se eles forem abordados não estarão armados, então não tem nenhuma situação que possa incriminá-los”, explica o comandante.

Já nos roubos grande parte dos criminosos estão armados. “No furto isso não acontece, então não temos condições de fazer uma abordagem e imputar a responsabilização criminal ou penal em relação a essas pessoas. Por isso eles têm uma vantagem com relação ao trabalho da polícia”, expõe Souza.

Nos furtos a dificuldade de prevenir é muito maior. “A pessoa pode estar andando na rua, já com o crime premeditado, mas não está armada, e quando é abordada diz que está fazendo qualquer outra coisa que no momento não possibilita o flagrante delito”, exemplifica.

 

Confira a reportagem completa na edição impressa do Jornal O Presente desta terça-feira (20).

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