Os peixes do Lago de Itaipu estão sumindo. Entre os pescadores amadores e profissionais que frequentam o reservatório da Usina Hidrelétrica, não é difícil encontrar um e outro que exalte a afirmação de que determinadas espécies já não dão mais as caras nas águas calmas que banham os 15 municípios da Costa Oeste e que daquelas que sobraram, o tamanho dos animais diminuiu drasticamente nos últimos anos. “Dourado, pintado, jaú e pacu não pega mais aqui, porque são peixes que ficam na correnteza. Se pega, é só um filhotinho que a Itaipu solta lá em baixo e o pessoal pega na barranca e logo mata”, descreve o pescador Breno Lunkes, que há 24 anos está na Colônia Z-15, em Porto Mendes, mas já vive da pesca há 32.
Na avaliação do pescador artesanal, quando espécies como estas – consideradas por ele nobres – são colocadas no reservatório, muitos pescadores até mesmo profissionais capturam os peixes ainda pequenos, impedindo que as espécies atinjam seu potencial máximo de crescimento. “Um pintadinho, por exemplo, vem subindo pela barranca e com uma malha oito ou sete ele pega esse peixe e leva para casa para comer, dizendo ‘ah, já estava morto mesmo’”, conta. “Isso a maioria dos pescadores profissionais fazem, mas o que eles não sabem é que um pintadinho desses não tem nem gosto de carne de peixe, é só água. Ao invés de soltar e deixar o pintado alcançar o seu potencial, que pode chegar a 60 ou 70 quilos, ele leva embora do lago um peixe com menos de um quilo”, critica.
Atualmente, as espécies que os pescadores mais fisgam na região de Porto Mendes são curimba e armado, corvinas quando há a “maré do sul” e raras aparições de barbados. “No dia que encerrar a curimba e o armado, acabou a pescaria no lago”, garante Breno.
Na visão do presidente da Colônia de Pescadores Z-15, Marino Both, os peixes “sumiram” do Lago de Itaipu porque logo que houve o represamento a atividade pesqueira foi executada de forma excessiva, fazendo com que agora os pescadores sintam os reflexos da pesca desenfreada. “Penso que o processo de colocação de peixes no lago também não está ocorrendo da melhor forma, tanto por parte da Itaipu quanto por grupos que têm a iniciativa própria de soltar alevinos para ajudar no repovoamento. Alguns são colocados muito pequenos e logo são capturados pelos peixes predadores, por exemplo”, opina.
Mais pescadores
Apesar da percepção de alguns pescadores e participantes dos cerca de 24 eventos anuais de pesca esportiva que são realizados anualmente nos municípios margeados pelo lago, a zootecnista e gerente do Departamento de Reservatório e Áreas Protegidas da Itaipu Binacional, Carla Canzi, detalha que anualmente são soltos em torno de 700 mil a um milhão de peixes no reservatório, em diferentes épocas do ano, conforme os peixes atinjam em cativeiro tamanho ideal, enquanto a média de captura anual é próxima a 1,3 mil tonelada de pescados. “Com base no histórico de capturas de monitoramento da pesca profissional, pode-se notar que nos últimos 20 anos não houve diminuição da quantidade global de peixes capturados no reservatório anualmente, sendo que a média de captura gira em torno de dez quilos de pescado por pescador por dia de pesca”, salienta.
O reservatório de Itaipu possui um histórico pioneiro na América Latina de monitoramento da pesca profissional iniciado em 1985, nos primeiros anos logo após a formação do reservatório, em 1982, e a consequente regulamentação da atividade pesqueira. Carla explica que o monitoramento é realizado por meio de fichas repassadas à Itaipu mensalmente, nas quais os pescadores profissionais que atuam no reservatório anotam a quantidade de peixes capturados diariamente. “Os dados de monitoramento da pesca profissional também não demonstram que a pesca está diminuindo. O que está havendo é um aumento do número de pescadores, o que pode ser constatado também no site da Secretaria de Pesca e Aquicultura pelo número de registro de pescadores com carteira de pesca, que aumentou consideravelmente”, enfatiza. “Tanto com base nos dados do Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP), como na carteira de pesca, regulamentada atualmente pelo Ministério da Indústria, Desenvolvimento, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), nos últimos anos houve um aumento do número de pescadores profissionais artesanais autorizados a exercer a atividade no reservatório”, complementa Carla.
Na área do reservatório, estima-se que sejam 1,7 mil pescadores na Bacia do Rio Paraná, que contempla o Lago de Itaipu. Somente na colônia Z-15, que conta com famílias de pescadores de Marechal Cândido Rondon, Mercedes e Pato Bragado, são 160. Em Porto Mendes, são aproximadamente 30 pescadores, sendo que 16 sobrevivem exclusivamente da atividade pesqueira, e em Mercedes são 60 pescadores.
Por outro lado, Carla concorda com os pescadores quando eles dizem que determinadas espécies não são vistas no lago por conta de alguns pescadores praticarem a pesca indiscriminada e chama a atenção para a necessidade de mais esforços na fiscalização a montante do reservatório. “É uma área muito importante para a reprodução e recrutamento das espécies, demandando uma fiscalização mais criteriosa, principalmente nos períodos de reprodução, que ocorre no defeso”, pontua a zootecnista.
Peixes nobres
No reservatório são soltas espécies como curimba, piracanjuba, piaus, pacu e surubim, que é um complemento dos estoques naturais do Lago de Itaipu e é realizado desde 1988. Desde então, conforme Carla, já foram soltos mais de 12 milhões de peixes, que são criados até que apresentem tamanho adequado para sobreviver no reservatório, que é de aproximadamente 300 gramas.
A profissional da Itaipu explica que espécies como dourado, pintado, jaú e pacu, citadas por Breno como peixes nobres, ocupam naturalmente ambiente lótico (de águas correntes), que são diferentes do reservatório. “Após as alterações no ambiente em função do enchimento do reservatório, estas espécies tendem a se distribuir mais em locais como os trechos livres de rio acima do reservatório, ou cabeceira dos rios tributários do reservatório, fato comprovado pelo monitoramento de ovos e larvas de peixes realizado no reservatório, que revela a presença de formas jovens destas espécies nos tributários”, expõe.
A zootecnista diz que, conforme o que é vivido pelos pescadores, são realmente as espécies de curimba e armado que sustentam a pesca no reservatório, com participação de aproximadamente 50% do total das capturas da pesca profissional. “Já quando se trata de turismo de pesca, baseado na pesca esportiva, as espécies exploradas são outras, geralmente alóctones, ou seja, nativas de outras regiões que não do Rio Paraná, como é o caso dos tucunarés e a corvina”, enfatiza, ressaltando que a legislação não permite a realização de manejos do estoque pesqueiro destas espécies, a exemplo do repovoamento.
Peixe não tem nacionalidade
No início do projeto Itaipu, Carla expõe que foi construída a estação de piscicultura em Toledo, que na época foi passada para gestão da antiga Superintendência dos Recursos Hídricos e Meio Ambiente (Surehma), sendo repassada posteriormente ao Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e, atualmente, para o curso de Engenharia de Pesca da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), com uma estação concebida especificamente para o repovoamento do reservatório.
Posteriormente, a Itaipu construiu outra estação na área do projeto, na margem paraguaia. “Essa estação realiza o repovoamento no lago, mas deve-se entender que não há importância do lado, pois o reservatório não possui cercas e o peixe não tem nacionalidade, ele transita livremente no ambiente”, esclarece.
A Itaipu também concebeu o Canal da Piracema, que é uma medida de manejo pesqueiro para aumentar o estoque e atuar no monitoramento e conservação ambiental da área a montante do reservatório: a planície de inundação de Ilha Grande, local de grande relevância para a reprodução dos migradores e recrutamento.
A volta dos peixes e dos turistas
Na última assembleia geral ordinária do Conselho de Desenvolvimento dos Municípios Lindeiros ao Lago de Itaipu, um dos principais assuntos tratados foi o repovoamento de peixes do reservatório, tanto com o objetivo de melhorar a atividade pesqueira, quanto de fomentar o turismo de pesca nesta área.
A presidente da entidade e prefeita de Mercedes, Cleci Loffi, ressalta que muitas pessoas dos Estados do Sul buscam a pesca esportiva em regiões como a Argentina e o Pantanal Mato-Grossense, todavia, ela aponta que “temos no Oeste do Paraná um lago imenso para explorar, com o mesmo potencial desses locais”.
Cleci explica que a entidade solicitou à Itaipu um projeto de repovoamento do lago que, na concepção do Conselho, precisaria acontecer com o reservatório totalmente fechado para a pesca, tanto profissional como amadora e esportiva. “Não sabemos se é por conta da pesca, da alimentação, das espécies, mas hoje os peixes não chegam a crescer ao ponto de atrair turista. Nossa ideia é trabalhar o repovoamento, com a orientação de um engenheiro de pesca ou de outro profissional da área da Itaipu, com o lago fechado por um, dois, três anos, para que esses peixes alcancem um porte maior e isso nos possibilite tornar o Lago de Itaipu um atrativo pesqueiro”, enaltece a presidente da entidade.
De acordo com ela, a ideia de melhorar a atividade pesqueira e o turismo de pesca nos municípios margeados pelo lago com o aumento da quantidade de peixes vai caminhar junto com a reestruturação das áreas de lazer dos terminais turísticos, possibilitada pelos novos contratos de concessões de uso desses espaços, os quais darão maior liberdade para a exploração comercial dos terminais aos municípios lindeiros. “Reestruturando nossas áreas de lazer e repovoando o lago, conseguiremos atrair novamente os turistas para a nossa região”, acredita.
Por outro lado, a gestora reconhece que para realizar este tipo de projeto demanda-se muito tempo. Além disso, é necessária uma discussão com os pescadores, já que muitos dependem unicamente da pesca para sobreviver. “Isso também precisa ser analisado porque se a pesca for totalmente proibida por um determinado período, nem amadores nem profissionais poderão pescar”, enfatiza Cleci.
Impacto
Para Breno e Marino, proibir a pesca por um determinado período para fazer o repovoamento do lago seria importante para melhorar a quantidade de peixes disponíveis, porém, dois outros aspectos importantes também precisam ser levados em consideração, na opinião dos pescadores: “Não adianta repovoar o reservatório se não houver fiscalização efetiva de quem faz a pesca predatória e da malha de rede”, diz Breno.
Já Marino alerta que o medo dos pescadores é pensar na possibilidade de, assim como ocorreu com os rios Ivaí e Piquiri, o Lago de Itaipu ser fechado com prazo definido e não reabrir mais para a pesca. “Os rios foram fechados com o prazo de reabrirem em três anos e depois de 15 anos ainda não foi liberada a pesca. Seria importante repovoar o reservatório sem a pesca indevida, mas é apavorante pensar na possibilidade de não termos mais de onde tirar o sustento”, alerta.
Na visão da zootecnista da Itaipu, o fechamento da pesca não representa a opinião da maioria dos pescadores profissionais que utilizam a atividade como forma de sustento. “Impedir a pesca nas modalidades profissional ou amadora e implementar um programa de repovoamento com base em espécies migradoras ou ‘nobres’ para atender a ambos os públicos no reservatório de Itaipu é um processo inviável, principalmente pelo hábito dessas espécies”, ressalta a especialista.
Segundo ela, existem exemplos em outros reservatórios em que esta prática foi realizada por mais de 20 anos sem sucesso. “Além disso, o fechamento da pesca representaria prejuízos econômicos incalculáveis aos pescares que utilizam a atividade como forma de sustento e aos municípios que recebem aportes do turismo relacionado à pesca”, conclui Carla.