Policial Missão estratégica na fronteira

“Sede do Pelotão Cobra pode ser uma das bases da Operação Hórus”, diz capitão Nairo

Oficial de comunicação social e coordenação operacional do BPFron, capitão Nairo Cardoso: “Estamos com uma proposta bem trabalhada para que seja uma das bases integradas da Operação Hórus, para que várias forças de segurança, defesa e fiscalização dali espraiem o policiamento de Entre Rios, da Base Cobra, para operar no Lago de Itaipu” (Foto: Sandro Mesquita/OP)

Com oito anos de atuação em 139 municípios na região de fronteira do Brasil com o Paraguai e também com a Argentina, o Batalhão de Polícia de Fronteira (BPFron) tem conquistado bons resultados no combate aos crimes transfronteiriços, entre eles contrabando e tráfico de armas e drogas.

Em entrevista ao O Presente, o capitão Nairo de Oliveira Cardoso da Silva, oficial de comunicação social e coordenação operacional do BPFron, enfatiza que a corporação com sede em Marechal Cândido Rondon – e companhias em Marechal Rondon, Guaíra e Santo Antônio do Sudoeste – é o primeiro batalhão de fronteira do país. Segundo ele, o Estado do Mato Grosso do Sul conta com o Departamento de Operações de Fronteira (DOF), enquanto no Mato Grosso existe o Grupo Especial de Fronteira (Gefron).

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O capitão destaca que o trabalho do BPFron vem sendo aprimorado, de forma que novos pelotões foram criados, caso do Pelotão Cobra (Corpo de Operações de Busca e Repressão Aquática) e do Pelotão de Operações com Cães. Além disso, frisa que o empenho de forma integrada com outras forças de segurança, fiscalização e defesa no âmbito da Operação Hórus, do Programa de Vigilância, Integração, Governança, Interoperabilidade e Autonomia (Vigia), tem surtido efeitos positivos nas apreensões de contrabando, drogas e prisões de acusados.

Ele também revela que a sede do Pelotão Cobra, instalada desde dezembro na base náutica de Entre Rios do Oeste, pode se tornar uma das bases da Operação Hórus. O objetivo é ampliar os patrulhamentos na região ribeirinha ao Lago de Itaipu para com isso desenvolver mais ações bem-sucedidas.

Ainda pede para que os cidadãos repassem ao disque denúncia informações sobre atuação de criminosos, por meio do número (41) 99106-6815, sem a necessidade de identificação. “Queremos que a população auxilie a Polícia Militar e o Batalhão de Polícia de Fronteira a fazer um trabalho com mais eficiência”, diz. Confira.

 

O Presente (OP): Em 166 anos esta é a primeira experiência que a Polícia Militar do Paraná tem em realizar policiamento de fronteira de fato?

Nairo de Oliveira Cardoso da Silva (NOCS): Sim. Nós já fazíamos o policiamento da fronteira nos batalhões tradicionais, mas fomos buscando e estamos construindo essa expertise de policiamento de fronteira.

 

OP: E o que isso requer? O policial recebe um treinamento específico, ele é selecionado de forma diferente ou a própria corporação seleciona policiais para a fronteira?

NOCS: Nós tivemos escolas formadas no BPFron, mas o que nos últimos tempos tem dado essa expertise diferenciada para o policial que opera no Batalhão de Fronteira da Polícia Militar do Paraná são os cursos que nós fomos formando ao longo desses oito anos de trabalho. Nós fomos desenvolvendo cursos próprios para formar o Batalhão de Fronteira.

 

OP: O policial deixou de ser quem atende contextos como briga de rua, de acidente de carro, entre outras situações, para basicamente atuar contra o crime organizado? Como se desenvolve essa performance do Batalhão de Fronteira, que vai de Querência do Norte até Barracão? Ela parte do comando de Marechal Rondon e tem as suas estruturas regionalizadas?

NOCS: Sim, nós temos o Batalhão de Polícia de Fronteira em Marechal Rondon, que é a 1ª Companhia, nós temos a 2ª Companhia em Guaíra e a 3ª Companhia em Santo Antônio do Sudoeste. Operamos em 139 municípios. Depois, temos dois pelotões. O Pelotão de Operações com Cães, que o próprio nome já diz, e o Cobra, que é o Corpo de Operações de Busca e Repressão Aquática. Então, são dois outros pelotões com missões próprias.

 

OP: Qual tipo de crime é o principal alvo do Batalhão de Fronteira?

NOCS: São os crimes típicos da faixa de fronteira. São crimes transfronteiriços, que, muitas vezes, têm a questão da conexão com o Paraguai, logicamente quem traz e de onde vem a maioria dos produtos, como maconha e cigarro. Então, o BPFron acabou com essa expertise que vem sendo criada, a partir do desenvolvimento de cursos próprios, formando um policial para fazer frente aos crimes transfronteiriços.

 

OP: O crime organizado exige muita confiança do policial. Uma coisa que o crime organizado se especializou é fazer a comunidade perder a confiança na polícia. Como vocês agem dentro da corporação para que o Batalhão de Fronteira tenha essa confiança da comunidade onde atua, para que possa realmente contar com o apoio da comunidade frente ao crime organizado?

NOCS: Primeiro fazemos uma triagem desses policiais que vêm somar conosco para serem operadores de fronteira no BPFron. Esse constante aprendizado, essa instrução, é, inclusive, uma característica do policial militar. A gente sempre tem essa conversa. O serviço de inteligência filtra como está o andamento do nosso público interno. Nós temos os trabalhos feitos pela própria Corregedoria da Polícia Militar que acompanha as principais denúncias que ocorrem aqui. Eu concordo que o crime só é organizado porque alguém, infelizmente dentro do sistema que deveria desorganizá-lo, dá margem para que o crime organizado acabe operando.

 

OP: O senhor é responsável pela divulgação das ações do Batalhão de Fronteira. Há centenas de veículos de comunicação de toda a região vinculados a esse projeto. A divulgação das ações tem sofrido mudanças nesses últimos tempos em virtude da lei e do próprio interesse da divulgação? Percebe-se, por exemplo, que hoje o BPFron divulga os crimes a partir de uma síntese de que está gerando prejuízo para o crime organizado? Essa estratégia tem sido interessante?

NOCS: Eu vejo que sim. Foi um modal diferente de apresentar para a população o prejuízo que os criminosos têm tomado, o prejuízo que o Estado deixa de arrecadar. Nós chamamos isso de estatística negativa e a Operação Hórus foi parte desse aprendizado. No contexto da Operação Hórus foram sendo construídas algumas ideias, entre elas essa questão da estatística negativa.

 

OP: Mostrar para a sociedade que o crime sofre esses impactos negativos, de prejuízo, desestimula as pessoas a integrarem o crime ou seguirem esse caminho?

NOCS: Eu, particularmente, entendo que sim. O crime tem levado constantes baques. Algumas gestões que nós temos feito deram prejuízos às organizações criminosas, até porque quando vem a carga do Paraguai ela não pertence só a uma pessoa. São organizações criminosas que fazem consórcios para que não sofram tanto impacto da carga. Isso podemos dizer porque as cargas não vêm só em nome de “unginho”, as cargas vêm separadas em consórcios, vêm com o nome das pessoas que depois vão distribuir.

 

OP: Talvez nunca antes tenham sido apreendidas tantas mercadorias, principalmente cigarros, vinhos e outros produtos. Qual é o destino da maior parte destes produtos? São Paulo, Rio de Janeiro e grandes centros?

NOCS: Grandes centros, sim. Eu diria que grandes centros e o Brasil inteiro acaba sendo abastecido. Então, esse é um trabalho de bloqueio da fronteira que tem reflexos não só aqui na região, nem tanto aqui na região. Essa é uma das construções que o BPFron vem trabalhando, de mostrar para a população que o trabalho do Batalhão de Polícia de Fronteira não tem imediatismo em Marechal Cândido Rondon ou em Guaíra, mas sim reflexos. Por exemplo, munições apreendidas em quantidade nós podemos falar que cada uma é um tiro letal talvez em uma favela em São Paulo, uma favela no Rio de Janeiro, confrontos que deixam de ocorrer por um trabalho realizado aqui ainda na faixa de fronteira.

 

Capitão Nairo Cardoso: “O crime só é organizado porque alguém, infelizmente dentro do sistema que deveria desorganizá-lo, dá margem para que o crime organizado acabe operando” (Foto: Sandro Mesquita/OP)

 

OP: O Lago de Itaipu e o Rio Paraná são os principais pontos de passagem de ilícitos e, certamente, um dos lugares mais difíceis de serem fiscalizados em virtude da amplitude do espaço e da dificuldade de se perseguir o criminoso. Qual a estrutura que o BPFron tem hoje de combate especificamente dentro do Lago de Itaipu e do Rio Paraná?

NOCS: No Lago de Itaipu nós operamos com o Corpo de Operações de Busca e Repressão Aquática, o (Pelotão) Cobra. De dezembro para cá assumimos a antiga Base Náutica de Entre Rios do Oeste, hoje a base Cobra da Itaipu Binacional, onde estamos em processo de parceria com a Itaipu. Já foi feita uma reforma básica e nós pretendemos ampliar e estamos com uma proposta bem trabalhada para que seja uma das bases integradas da Operação Hórus, para que várias forças de segurança, defesa e fiscalização dali espraiem o policiamento de Entre Rios, da Base Cobra, para operar no Lago de Itaipu.

 

OP: Essa fiscalização aquática ou essa perseguição, de repente, tem sido interessante na captura de ilícitos ou é desenvolvida mais a título de informação?

NOCS: Ela tem sido bastante interessante, inclusive uma das formas que temos operado é a questão da quebra da logística do crime. Quando nós apreendemos um barco, isso tem uma amplitude muito maior do que aquele pensamento imediatista da carga. Quando é apreendido um caminhão, nós afetamos a logística do crime, nós afetamos a forma de transladar aquela carga. A carga vem do Paraguai e o mesmo barqueiro que traz droga também traz cigarro, traz veneno agrícola e todos esses outros crimes correlacionados. Ele está simplesmente fazendo um frete ali, uma carga ilícita. Para o barqueiro, ele pode até aumentar o preço do frete se tiver certeza de que é droga, mas é mais um frete para ele e vai tentar a sorte. Geralmente eles têm tomado bastante atraso.

 

OP: É sabido que o crime organizado gera muitos interesses na região. O que o senhor diria para as pessoas que equivocadamente pensam que o combate ao crime organizado gera prejuízos à própria região, em termos de geração de empregos e negócios?

NOCS: São negócios. Pode até ser negócios para alguns, mas para nós, do Batalhão de Fronteira da Polícia Militar do Paraná, são negócios ilícitos. Inclusive, nessa frente a Polícia Militar vem expandindo a compreensão de combater, fazer frente aos crimes transfronteiriços, e um desses exemplos foi o lançamento da Operação Metrópolis na semana passada, que o Comando Regional lançou em toda a região Oeste do Paraná. A Polícia Militar e os demais batalhões também operam na frente de combate aos crimes transnacionais, aos crimes transfronteiriços.

 

OP: Houve uma mudança de legislação há pouco tempo que hoje impede a polícia chamar a imprensa para citar nomes e expor as pessoas flagradas em delitos. A imprensa também não pode citar nomes de criminosos antes do trânsito julgado. Às vezes, a prisão ocorre em flagrante e não se pode divulgar o nome dessas pessoas. Isso causa algum constrangimento ou até prejuízo na perseguição aos criminosos?

NOCS: Nós continuamos fazendo o nosso trabalho. A questão da divulgação, nós nos adequamos à legislação que alguém decidiu dessa forma e nós cumprimos o regramento com relação a não divulgar o nome, não ter exposição do criminoso, não divulgação, inclusive de placas de veículos, porque, realmente, nesse sentido a placa de um veículo às vezes não necessariamente está atrelada, pode ser que a pessoa tenha emprestado sem saber que haveria um crime. O nome da pessoa, pode ser que nesse interím tenha sido cometido um erro? Pode ser, mas para isso depois o juiz vai analisar e ter todo o trânsito julgado disso aí.

 

OP: O senhor gostaria de abordar em relação à divulgação das ações especificamente realizadas e que vêm sendo intensificadas? Percebe-se que há uma divulgação intensa das ações do Batalhão de Fronteira e talvez até um nível de ação muito mais agudo que nos últimos anos havia sem a presença da corporação. Isso confere?

NOCS: Sim, nós temos operado na faixa de fronteira. Não fizemos ainda uma mensuração comparativa com o ano passado, por exemplo, mas os números têm crescido, o que mostra aumento no quantitativo das operações. Se é pela eficiência do nosso trabalho ou se é pelo aumento da criminalidade, isso nós teríamos que traçar um panorama vendo ano a ano. Cada ano acaba sendo diferente do outro, toda essa situação da pandemia que afeta a economia também, mas para nós há o crime e vamos dar o devido tratamento enquanto for crime. Nós damos a resposta para o crime.

 

OP: Os senhores perceberam que a pandemia levou mais pessoas aos ilícitos ou isso não pode ser dito?

NOCS: Não mensuramos ainda, mas o que tem ocorrido é que as duas portas principais de entrada, a Ponte Ayrton Senna e a Ponte Internacional da Amizade, estão fechadas. Tem passado caminhão, mas o comércio está fechado. Todavia, o lago não parou. A parte seca da Argentina, e neste ano as apreensões de vinho têm sido bem constantes, por exemplo, que é uma sazonalidade própria da região de Santo Antônio do Sudoeste e Barracão, que é a área da nossa 3ª Companhia. Já aqui no Lago de Itaipu temos mais a questão do cigarro, porém especificamente em cidades como Pato Bragado e Entre Rios do Oeste existe muito a questão do translado da maconha. Em Guaíra há muita incidência do cigarro e de tráfico de drogas. Então, cada área possui uma sazonalidade específica e nós temos dado a devida resposta.

 

OP: O Programa Vigia prevê a integração com outros países. De fato tem ocorrido a integração das instituições de segurança dos outros países com as instituições do Brasil?

NOCS: Em um primeiro momento essa integração ocorre principalmente com as demais forças de segurança, defesa e fiscalização. Nós iniciamos nossos trabalhos especialmente nas ações da Operação Muralha, o que foi para nós um grande aprendizado em que operamos de forma integrada com a Receita Federal e assim foi visto que era bom, produtivo, pois os trabalhos eram profícuos. Depois, passamos a operar integrados com a Polícia Federal. Hoje a própria Polícia Militar tem visto e tem decidido expandir esse combate, esse embate aos crimes típicos de fronteira. A polícia paraguaia ainda tem alguns contatos informais, nós temos tido algumas ações em casos pontuais, mas ainda não podemos dizer que essa integração deslanchou; ela está começando. Conforme conversamos, esse trabalho de fronteira, pelo menos para a Polícia Militar do Paraná, para o BPFron, é algo novo e este processo ainda está em construção.

 

OP: O principal destino das camionetes roubadas na região ainda é o Paraguai?

NOCS: Sim, muitas das camionetes que são roubadas são trocadas por drogas. Então, há essa questão do furto e do roubo de camionetes, mais até o roubo, e elas são levadas ao Paraguai para serem trocadas por drogas.

 

 

O Presente

 

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