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Política Radicalização

“A polarização é danosa e está cada vez mais acentuada”, diz Elio Migliorança

Ex-prefeito de Nova Santa Rosa e professor aposentado Elio Migliorança: "Estou decidido a não mais disputar eleições, todavia, tenho conversado com os companheiros porque amo Nova Santa Rosa e acredito que devo dar minha contribuição" (Foto: Sandro Mesquita/OP)

O momento atual, de pandemia do novo coronavírus e seus variados efeitos, pede, mais do que nunca, união e solidariedade. A opinião é do ex-prefeito de Nova Santa Rosa e professor aposentado Elio Migliorança. “Fala-se muito em acabar ou não com o isolamento social, de áreas e profissões que não podem e nem deveriam ter parado de trabalhar. Pela fase crítica na política e a situação perigosa na saúde, o momento é de nos unirmos, independente das diferenças políticas, econômicas e sociais, para lutarmos para que depois da pandemia possamos construir um Brasil melhor do que aquele que temos hoje”, destaca.

Para Migliorança, a situação fica ainda mais complicada com as posturas desencontradas das autoridades políticas. “O presidente da República, que deveria ter tomado as rédeas da situação já nos primeiros 15 dias, para fazer a população entender a gravidade do que pode vir, não o fez”, lamenta. Na opinião dele, diante do cenário inédito vivido pelo mundo todo, fica difícil traçar um cenário pós-Covid-19. “É praticamente impossível avaliar ou adivinhar o que vem depois da pandemia”, declarou ao O Presente, jornal do qual é articulista há muitos anos. Confira a entrevista.

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O Presente (OP): O senhor disputou sua primeira eleição em 1982. Como foi esse processo eleitoral que curiosamente foi a última eleição em que os partidos tinham sublegendas?

Elio Migliorança (EM): Não só sublegenda, como a lei da eleição em 1982 já previa mandato de seis anos e nós estávamos terminando o mandato de seis anos do primeiro prefeito de Nova Santa Rosa. Marechal Cândido Rondon não tinha isso porque era área de segurança nacional, então sabíamos que a disputa seria para cinco anos e 11 meses. Os partidos políticos tinham direito de criar mais duas sublegendas e indicar três candidatos a prefeito.

 

OP: Essa foi a única eleição que teve mais do que dois candidatos a prefeito em Nova Santa Rosa?

EM: A única eleição, sim. Foram cinco candidatos, três pela nossa coligação, chamada PDS1, PDS2, PDS3, e com a oposição no MDB1 e MDB2.

 

OP: Quem ganhava a eleição era a legenda que fazia mais votos?

EM: Na primeira contagem cada partido somava seus votos. No nosso caso o PDS fez o maior número de votos no município, em uma diferença talvez de 200, 250 votos contra os votos da outra coligação. Uma vez que nossa coligação fez o maior número, entre os três candidatos o mais votado estava automaticamente eleito, que foi o caso quando obtive a vitória.

 

OP: O senhor sempre foi um cidadão crítico da política e quando esteve à frente da prefeitura nova-santa-rosense fez uma gestão austera. Seria possível hoje fazer uma gestão política como naquela época?

EM: Em parte sim e em parte não. Vejo que a realidade mudou muito. As exigências, as obrigações e os compromissos hoje são muito maiores do que naquela época. Obviamente também veio arrecadação maior, mas eu diria que o ponto mais importante que sempre pautou minha administração e entendo que deveria pautar todas as administrações é a honestidade, a transparência. Não deve ser permitida corrupção e nem que se use cargo público em benefício próprio ou de uma parcela da população. Por isso em parte sim, a austeridade e a honestidade na gestão pública são possíveis e dependem muito de quem tem o comando. O prefeito, o governador e o presidente devem dar o exemplo. Evidentemente, não posso exigir dos meus secretários honestidade se eu não a tenho, ou seja, preciso colocar nas secretarias as pessoas que efetivamente têm uma conduta ilibada.

 

OP: É certo pensar que políticos honestos hoje em dia têm dificuldade para se eleger?

EM: Em parte sim e em parte não. Uma parcela da população quer ouvir aquela promessa que contemple os interesses dela, mesmo sabendo que depois isso não será ou não poderá ser cumprido. Mas, acredito que a população está tendo um grau de conscientização tal que nós estamos caminhando para isso. A população em si, o eleitorado como um todo, em função dos meios de comunicação, das redes sociais, evoluiu muito. O nível cultural, também. Portanto, acredito que hoje é possível sim fazer uma campanha honesta e ganhar a eleição. Não vejo isso como impossível. Talvez em um passado recente isso era difícil, mas acho que estamos caminhando para isso.

 

OP: Hoje há dificuldade para avaliar um candidato? Vota-se muito mais por ele ser de direita ou de esquerda, pertencer a um grupo A ou grupo B?

EM: A polarização é realidade e isso é uma pena, porque acaba fechando muitos canais que poderiam abrir possibilidade para aquele que tem meio termo, para aquele que tem diplomacia mais acentuada nessa área da gestão pública. Essa área da polarização é danosa e ficou muito acentuada nos últimos anos. Creio que precisamos iniciar uma conscientização para que isso volte, digamos assim, a uma outra realidade. Não podemos deixar que essa radicalização perversa em todos os sentidos afaste muita gente responsável, competente e séria da área política. Isso é uma pena. Não somos tão velhos, por isso acredito que ainda vamos conseguir visualizar e vivenciar uma outra realidade política no Brasil.

 

OP: Quando as redes sociais surgiram foram consideradas uma ferramenta extraordinária de libertação das pessoas. Hoje em dia são muito utilizadas para denegrir imagens, difundir ódio, ofensas… Como o senhor avalia esse processo? Como conviver com isso no futuro?

EM: A liberdade que as redes sociais deram para cada um poder manifestar a sua opinião é uma realidade bem atual. De fato no início houve um grande ponto positivo, porque os meios de comunicação do Brasil eram centrados em cinco ou seis grandes empresas que produziam as notícias e as espalhavam em nível nacional. As redes sociais quebraram esse monopólio, deram voz e vez a qualquer cidadão no ponto mais remoto do país que consegue se comunicar instantaneamente com praticamente o mundo inteiro, e isso é muito dinâmico. O que está faltando, e isso é urgente, é a responsabilidade do Poder Judiciário. Nós temos conhecimento, tecnologia e mecanismos para punir os irresponsáveis. Existem fatos bem recentes nessa fase de coronavírus de algumas fake news divulgadas e se comprovou que eram efetivamente mentirosas. O que falta é uma punição exemplar para quem produziu e para quem compartilhou. No momento em que tivermos uma punição exemplar, uma investigação para chegar de fato ao bandido que produziu essa mentira e ele for punido, aí vamos moralizar as redes sociais. Eu dou grande valor para as redes sociais, pois elas prestaram e prestam um enorme serviço ao país e à sua população, mas precisa-se separar o joio do trigo. Na hora em que nosso Judiciário conseguir fazer isso, quando nossa Polícia Federal tiver mecanismos e pessoas qualificadas para isso, as redes ficarão purificadas e continuarão fazendo papel benéfico na sociedade.

Elio Migliorança: “O presidente da República é um espelho e não pode hoje dizer uma coisa para amanhã voltar atrás. A postura do presidente, principalmente nesse processo da pandemia, me desagradou” (Foto: Sandro Mesquita/OP)

 

OP: Ao que tudo indica, as eleições deste ano não serão postergadas. Como o senhor avalia a realização da campanha eleitoral em meio a uma pandemia, em que muitas das ações tradicionais, como um simples aperto de mão, não poderão ser usadas pelos candidatos na hora de manter contato com o eleitor?

EM: É complicado. Eu vejo as eleições de 2020 como estratégicas, mas é uma pena que aconteçam no meio dessa confusão toda. Digo confusão porque no Estado do Paraná temos 241 municípios reconhecidos com estado de calamidade pública, uma situação de risco extremo. Então, como os próprios partidos vão se organizar e se articular? Isso é necessário para se fazer uma eleição. O processo eleitoral pode ficar prejudicado, talvez não para os candidatos propriamente, mas para o eleitor, que perde com isso porque talvez não consiga debater, confrontar ideias e fazer as análises necessárias para decidir o processo eleitoral. Temos uma Constituição e a data da eleição é cláusula pétrea, então não há como ser modificada senão por uma emenda constitucional. Evidentemente, como o país também está em estado de calamidade pública, talvez houvesse um mecanismo de se protelar um pouco, mas o processo eleitoral fica prejudicado nesse sentido.

 

OP: O senhor sempre teve participação ativa em Nova Santa Rosa e sempre militou em partidos políticos. Ainda milita?

EM: Sim, estou filiado em um partido político e tenho conversado com muitas lideranças em Nova Santa Rosa. Fui procurado para estudar a possibilidade de ser candidato a prefeito. Estou decidido a não mais disputar eleições, todavia, tenho conversado com os companheiros porque amo Nova Santa Rosa e acredito que devo dar minha contribuição. Não importa se o prefeito é do partido A ou do partido B, eu tenho tido um ótimo relacionamento com todos os últimos prefeitos que estiveram no comando do município e, na medida em que fui solicitado, dei minha contribuição. Em uma cidade pequena como Nova Santa Rosa, é nossa obrigação prestar apoio e dar sugestões que possam vir em benefício da comunidade.

 

OP: Continua filiado no Democratas? O DEM é o partido do candidato a prefeito nessas eleições?

EM: Digamos que até esse momento, em função das restrições impostas a reuniões e articulações, não está decidido ainda se o candidato será do Democratas, do PSD ou de uma outra nomenclatura partidária. Fato é que haverá disputa em Nova Santa Rosa. Haverá um candidato da situação e um candidato de oposição. Nomes ainda não estão decididos.

 

OP: Como analisar o quadro de pandemia que vivemos no Brasil? Como o senhor vê a população brasileira hoje? Como os governos estão se comportando diante desse momento? E qual análise fazer logo depois?

EM: Saber como vai ficar o Brasil depois dessa pandemia só alguém que tem uma bola de cristal com furo certeiro para enxergar do outro lado. É praticamente impossível avaliar ou adivinhar o que vem depois da pandemia, até no próprio relacionamento da população. Isso é difícil de saber porque estamos vivendo uma situação inédita. Nem você, nem eu, nem ninguém nunca imaginou que nós iríamos viver o que vivemos agora. Há pouco mais de 90 dias ninguém imaginava isso. Agora, vejo no momento as autoridades do Brasil desarticuladas, o que é uma pena. Nós enfrentamos essa situação gravíssima e vemos nossas autoridades desencontradas: o presidente joga de um lado, os governadores jogam para outro e os prefeitos, que são a ponta mais fraca da corda, estão carregando a maior responsabilidade de toda essa situação de pandemia, que até agora, na verdade, não entendemos o que vai representar para nós. O presidente da República deveria ser o comandante nacional, o guia para conduzir o país dentro desse processo. O presidente não fez isso no início, quando os outros países já tinham essa articulação e muita gente morrendo. No Brasil nós demoramos um pouco. O presidente demorou um pouco para tomar a primeira atitude. Aí tivemos uma sorte de que os governadores, sabendo que à medida que a população começasse a morrer, o Poder Público seria cobrado, porque na Constituição o Poder Público é responsável por garantir nossa saúde. Então, saíram na frente e decretaram o isolamento social, alguns antes e outros depois. Na carona vieram os prefeitos, que a partir de decretos tomaram medidas. Deixo um elogio sincero aos prefeitos de Marechal Rondon, Toledo e Cascavel pelas medidas tomadas. Vi críticas sobre a montagem do hospital de campanha, que ainda não foi usado. Graças a Deus e tomara que não seja utilizado por ninguém, mas o prefeito responsável por sua população olha lá na frente, no momento em que as pessoas podem começar a ficar doentes e precisarem de espaço, e ele tomou a dianteira e fez. Parabéns Brasil afora. Aí vem a desarticulação do presidente da República, que deveria ter tomado, nos primeiros 15 dias, as rédeas da situação para esclarecer a população e fazê-la entender a gravidade do que pode vir. Como o Brasil é um país continental fica muito difícil fazer normas para o Amazonas, Manaus, e para Nova Santa Rosa, pois são realidades totalmente diferentes. A partir do momento que a população estiver consciente dos riscos que corre, porque muita gente não acredita no risco até que uma pessoa da família morre, aí sim é o momento de transferir a responsabilidade para os governos dos Estados e para os municípios. Seria importante que todos os dias o governo federal, que tem o poder de convocar os meios de comunicação para uma coletiva, repassasse as informações para a população para que ela tenha consciência total dos riscos que corre e tomar providências.

 

OP: O senhor, que se declarou por várias vezes apoiador do presidente Bolsonaro, que avaliação faz do governo dele até aqui? E da figura do presidente em si, que constantemente tem se envolvido em polêmicas ao participar de atos que estão sendo questionados, além das declarações e posturas envolvendo a pandemia de coronavírus?

EM: Me desagrada! Eu já conheço muitos países no mundo e posso falar isso com toda tranquilidade porque eu votei no Bolsonaro no segundo turno. Eu acreditei nas suas propostas. Sonhava, inclusive, com aquilo que ele estava propondo. Achei que seria a redenção para a política nacional, contudo vejo que o comportamento do presidente está aquém da minha expectativa. Muita gente pode ficar chateada com o que estou dizendo, mas penso que quando um presidente da República abre a boca precisa saber que a sua palavra tem peso, responsabilidade. Ele é um espelho e não pode hoje dizer uma coisa para amanhã voltar atrás. “Não, eu disse, mas não disse, porque vocês me entenderam mal”. A postura do presidente da República, principalmente nesse processo da pandemia, me desagradou. Por quê? Eu admirava muito o ministro Luiz Henrique Mandetta, que infelizmente foi destituído do cargo. Nas explicações, na conduta e nas normas estabelecidas pelo Ministério da Saúde, ele era muito coerente, muito correto e hoje estão se confirmando muitas previsões feitas na época. O presidente da República deveria ser o primeiro a dar o exemplo para cumprir essas normas emanadas do homem que ele colocou no ministério.

 

OP: E em relação ao ex-ministro Sérgio Moro, qual a sua avaliação sobre a ida dele para o Ministério da Justiça e da Segurança Pública e a saída recente?

EM: A ida do Sérgio Moro para o Ministério era uma esperança nacional sua, minha e de todas as pessoas de bom senso nesse país de que finalmente a corrupção, que nunca será erradicada, seria ao menos freada, castigada e punida. Nós vamos perseguir um modelo em que a corrupção não tem espaço. Considerei uma das melhores escolhas do Bolsonaro ter o Sérgio Moro no Ministério da Justiça. O andamento da situação, como vimos, redundou na saída do então ministro, o que é lamentável, porque não conhecemos todos os fatos, mas naqueles conhecidos foi entendido que as decisões e que o ministro fez eram para o bem da população e, principalmente, uma resposta a todos aqueles que pagam impostos. Para mim, a saída do Sérgio Moro foi uma perda irreparável para o governo, mas principalmente ao povo brasileiro.

 

Jornalista Arno Kunzler durante entrevista com Elio Migliorança (Foto: Sandro Mesquita/OP)

 

 

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O Presente

 

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