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Política

Apontado como favorito nas eleições presidenciais no Paraguai, economista defende os bilhões de Itaipu em obras de infraestrutura

Presidenciável colorado põe fé nas boas relações bilaterais com o Brasil, mas deixa claro que o Paraguai vai cobrar seu naco pela cessão de metade do Rio Paraná na construção da binacional


calendar_month 12 de fevereiro de 2023
6 min de leitura

O presidenciável paraguaio Santiago Peña, filhote político do
controvertido Horácio Cartes: ganha-ganha entre Brasil e Paraguai com acenos para o petista Lula

O presidente não veio. Mas o presidenciável estava aqui. A prosa de terça-feira (7) no Show Rural se deu em bom portunhol. O jovem economista Santiago Peña, 44 anos, ex-ministro da Fazenda do Paraguai, chegou na condição de candidato a presidente da República pela Associação Nacional Republicana, mais conhecida como Partido Colorado.

Embora pertença a uma ala adversária do atual presidente “Marito” Abdo Benítez, Peña (fala-se Penha) é apontado como favorito, já que terá a maior parte da máquina do coloradismo a seu favor. E, principalmente, por ter o apoio do controvertido ex-presidente Horácio Cartes, megaempresário com múltiplos interesses e dono de belíssima porção da multimilionária indústria do tabaco paraguaia, com milhões de clientes no Brasil, detentor de poder econômico suficiente para deixar os adversários – com o perdão do trocadilho – na fumaça.

O economista e seu vice, presidente da Câmara dos Deputados, Pedro Alliana, também do Partido Colorado, passam ao largo do biotipo típico do paraguaio descendente de povos originários. O perfil físico da dupla lembra mais os colonizadores espanhóis. Embora o Colorado, como o próprio nome diz, seja a sigla vermelha no Paraguai, o partido se posiciona ideologicamente na direita populista. Peña terá como principal adversário o veterano político liberal Efraín Alegre, 59, candidato pela Consertação Nacional, uma ampla coligação de oposição.

A eleição vai ser quente: “Em abril os paraguaios têm duas opções, ou votam em um narcoestado, com corruptos, lavadores de dinheiro, ligados ao crime organizado, ou votam por um país limpo, o país que queremos”, disse Carlos Filizzola, porta-voz da Consertação.

O oposicionista fez menção indireta às recentes e pesadas sanções econômicas aplicadas pelos Estados Unidos contra Horácio Cartes, cabo eleitoral de Peña. Tio Sam qualifica o megaempresário de “significativamente corrupto”. Assim mesmo, com todas as letras.

À parte das encrencas de seu padrinho político e apoiador com o gigante do Norte, Peña concentrou suas energias no Show Rural em atrair investimentos para o país vizinho.

Nesta entrevista ao Pitoco, replicada pela rádio CBN, o presidenciável colorado põe fé nas boas relações bilaterais com o Brasil, mas deixa claro que o Paraguai vai cobrar seu naco pela cessão de metade do Rio Paraná na construção de Itaipu. “La relación entre Brasil y Paraguay tiene que ser ganar-ganar”, disse o favorito a presidir o vizinho pelos próximos cinco anos.

“Do lado brasileiro pode ser interesse nacional usar recursos excedentes de Itaipu para baixar o preço da energia. Mas pelo lado paraguaio e mesmo pelo interesse do Estado do Paraná, é importante usar esses recursos na construção de rodovias, pontes, infraestrutura logística…”

Santiago e o candidato a vice-presidente Pedro Alliana: vitória do movimento Honor Colorado nas primárias da ANR e chance de retorno do grupo de Cartes ao poder no Paraguai

Pitoco: Qual sua expectativa com a renovação do tratado de Itaipu, prevista para iniciar este ano?

Santiago Peña (SP): De uma conversa franca, ampla, levando em conta os interesses de cada país. O Paraguai precisa de desenvolvimento econômico, linhas de transmissão e distribuição, gerar empregos, da mesma forma que ocorreu com o Brasil.

Pitoco: O Brasil paga pouco pela energia do Paraguai gerada em Itaipu?

SP: Acredito que preço da energia tem que ser o resultado de objetivos que atendem Paraguai e o Brasil. Do lado brasileiro pode ser interesse nacional usar recursos excedentes de Itaipu para baixar o preço da energia, mas pelo lado paraguaio, e mesmo pelo interesse do Estado do Paraná, é importante usar esses recursos na construção de rodovias, pontes, infraestrutura logística. Parece ser uma coisa ou outra: ou o excedente – que aumenta muito neste ano com o fim da dívida da hidrelétrica – vai para obra, ou vai para subsidiar a tarifa da energia. É preciso encontrar um meio termo entre as duas intenções, buscar um ganha-ganha para Brasil e Paraguai. A conversa não pode se limitar a isso, tem que ser mais ampla.

Pitoco: Especificamente, para onde você, se eleito, pretende direcionar os recursos de Itaipu?

SP: Para estimular o desenvolvimento até mesmo em áreas que podem beneficiar empresas brasileiras. Fui ministro da Fazenda do Paraguai quando havia o governo petista da Dilma no Brasil. Fizemos o ganha- ganha. Foi possível, deu certo.

Pitoco: Pode ser mais específico sobre o “ganar-ganar”?

SP: Posso. O Brasil importa da China 70 bilhões de dólares. Empresários brasileiros podem produzir uma parte destes componentes importados da China no Paraguai a custos mais baixos, ampliando a competitividade da indústria brasileira.

Pitoco: Analise a volta de Lula ao poder no Brasil do ponto de vista das relações com o Paraguai.

SP: Lula demonstrou muita generosidade com o Paraguai no passado. Sob o governo do PT, aumentou-se o preço da energia que o Paraguai cede para o Brasil. Esse dinheiro foi investido em educação e segurança alimentar, com impacto muito positivo. A lembrança dos paraguaios do governo Lula é muito boa. Estamos otimistas com o fortalecimento das relações bilaterais entre os dois países.

Pitoco: Que argumentos você usa para atrair investimentos de empresários brasileiros?

SP: O Paraguai oferece estabilidade macroeconômica e política, facilidade para fazer negócios. De outro lado, necessita de empregos, temos uma população muito jovem. Queremos gerar meio milhão de empregos no Paraguai e condições para investimentos de paraguaios e brasileiros. O Brasil é hoje o principal parceiro do Paraguai. Itaipu é somente um item de uma longa agenda bilateral de ganha-ganha.

Pitoco: O ramal da Ferroeste de Cascavel para a fronteira está na sua agenda?

SP: A expansão da rede ferroviária é importante. Está sendo discutida no Paraguai. É fundamental que essa ligação a partir de Cascavel conecte-se também com a Argentina. A integração para ser comercial tem que ser também física. Estamos avançando com a construção da segunda ponte com Brasil, mas ainda tem muito para fazer.

Pitoco: Qual a mensagem você deixa para os interlocutores brasileiros no Show Rural?

SP: Trago uma mensagem de amizade. O Paraguai é amigo do Brasil. Queremos aprender com a experiência dos empresários brasileiros, notadamente aqui do Estado do Paraná. Vamos promover parcerias público-privadas, parcerias privadas-privadas, e parcerias públicas- publicas. Com presença importante dos agricultores brasileiros, avançamos muito no setor produtivo no Paraguai, mas agora temos que avançar na industrialização.

Por Jairo Eduardo, editor do Pitoco

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