Um ano que teve incertezas políticas está prestes a terminar surpreendendo de forma positiva muitos gestores. Passada a eleição, tradicionalmente os governos estadual e federal cortavam recursos e programas. Desta vez, porém, o que os prefeitos estão observando é a manutenção dos investimentos, com os repasses tendo continuidade normalmente.
Em entrevista ao Jornal O Presente, a prefeita de Mercedes, Cleci Loffi, enaltece este período final de 2018 diante da nova postura dos governos. Contudo, ela classifica como preocupante o corte no pagamento dos royalties, sendo que a retomada no repasse dos recursos ainda é uma pendência. Confira.
OP: A poucos dias para terminar 2018, de modo geral, qual avaliação a senhora faz do ano? Existe ainda a possibilidade de anúncio de novos investimentos nas próximas semanas a partir de parcerias com os governos estadual ou federal?
Cleci Loffi (CL): Esse ano foi bom, mas delicado. Um ano bom porque realmente aconteceram coisas boas no Governo do Estado e no governo federal para com os municípios. E estamos extremamente contentes, porque estamos recebendo a maioria absoluta dos convênios que foram assinados. Até fomos pegos de surpresa, pois normalmente depois de uma eleição, tanto no governo estadual quanto no governo federal, ouvimos falar muito sobre cortes, mas aconteceu basicamente o contrário, principalmente no Governo do Paraná. Mesmo após a governadora Cida (Borghetti, PP) ter perdido a eleição, ela continuou pagando todos os convênios e lançou novos projetos e programas. Nesta semana foram mais de R$ 60 milhões em investimentos que o governo vai fazer dentro da Secretaria de Assistência Social. Realmente é algo que vem nos surpreendendo, inclusive houve nos meses de outubro e novembro uma melhora no ICMS, e esperamos que continue no mês de dezembro. Foi um período atípico da eleição para cá. Da mesma forma no governo federal, que continuou pagando as emendas, os programas que foram criados, principalmente na entrega de equipamentos agrícolas. E por que foi um ano difícil? Porque em um ano eleitoral é preciso planejar o ano muito rápido, pois tudo acontece até junho, senão só depois do segundo turno da eleição. Vivemos um momento no meio de muitas incertezas. Nós, aqui, planejamos todo um governo e, quando vamos ao governo estadual ou governo federal, se cria expectativa. Ficamos apreensivos, mas finalizando 2018 podemos fazer uma análise que foi um ano surpreendente, porque passamos do alto para o duvidoso e, no final, bom. Fomos surpreendidos com essa questão dos royalties de Itaipu, em que ainda estamos na expectativa.
OP: A retomada do pagamento dos royalties ainda está pendente. De que forma esse atraso no repasse dos recursos impacta nas contas do município neste final de ano?
CL: É bem preocupante, porque formalizamos muitos convênios com contrapartidas. Quando se abre um processo licitatório já se coloca dotação orçamentária. Dos convênios que temos com a Itaipu, praticamente todos são com os royalties. Então agora, ter a incerteza da entrada desse recurso, especificamente falando da parceria com a Itaipu Binacional, nos preocupa bastante. São valores bem importantes para os municípios. Hoje os royalties são a melhor receita que temos em Mercedes. Se analisar os royalties, ICMS e o FPM (Fundo de Participação dos Municípios), os royalties são a maior receita. É a mesma coisa que você ter um orçamento doméstico de R$ 10 mil por mês e simplesmente no outro dia saber que esse valor foi reduzido para R$ 4 mil. Como você vai manter sua casa? Então se não tiver uma reserva, bastante segurança e os pés no chão, não vai conseguir finalizar aquele mês. Imagina nós que estamos há 60 dias sem royalties. Em Mercedes, decidimos segurar muitas ações. A própria decoração natalina já estava orçada, mas quando recebemos os valores resolvemos esperar um pouco por precaução. E que bom que fizemos isso, pois logo em seguida veio a notícia que não viriam mais os royalties. Com a aprovação do projeto (no Congresso) ainda será preciso haver a sanção presidencial e depois aguardar a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) efetuar o pagamento. Acreditamos que isso deve ocorrer depois do dia 20 de dezembro. Até lá, como vamos tocar a máquina? Algumas coisas precisaram ser feitas. Começamos a desacelerar um pouco, tanto que estamos com cinco obras paradas ou que reduzimos o ritmo, todas com royalties, diante da incerteza de recebermos o dinheiro ainda neste ano e se não entrar em 2018, vai ser quando? Ano que vem muda o Congresso a partir de 1º de fevereiro, aí precisam ser constituídas as novas comissões, e para que tudo isso aconteça não sabemos quantos meses vai levar. Então precisamos trabalhar com os pés no chão e fazer um controle das despesas.
OP: Quais são os principais investimentos que a prefeitura planeja para 2019?
CL: O ano de 2019 não será focado tanto em obras, pois hoje para construir não é difícil, mas é difícil manter. Queremos trabalhar em 2019 e 2020 com a manutenção de estradas, pavimentação com pedra irregular e asfáltica, melhorar os serviços já existentes. Só fiz uma solicitação de recurso ao deputado federal Sérgio Souza (MDB). Ouvimos muitos municípios falarem da rua coberta. Também temos essa pretensão, mas não queremos fazer uma rua, nosso projeto é um pouco diferenciado. Dentre os projetos que temos está o Centro Dia, que será voltado para pessoa de idade, com contrapartida de 50% do município e os outros 50% do governo federal, sendo que estamos aguardando liberação da União para dar andamento ao processo; e há pavimentação poliédrica para sete regiões diferentes do município. Então nos dois últimos anos queremos tentar fazer um trabalho para deixar o município diferente, inovado, renovado e que realmente a nossa marca fique registrada por termos investido em acessibilidade, transporte, mas também na construção civil, trazendo para a nossa população as obras que precisavam.
OP: Quando se fala em obras e investimentos, muitos dependem da articulação política, sendo que a região perdeu representatividade com o resultado eleitoral. Com quem a senhora espera contar em relação aos deputados eleitos?
CL: No Governo do Estado, a nossa sorte é que contamos com uma ligação estreita com o governador eleito Ratinho Junior (PSD). Isso, para nós, vai fortalecer muito. Mas com certeza precisamos buscar os nossos representantes da Assembleia. Falei há poucos dias com o Marcel Micheletto (PR). Ele fez votos em mais de 300 municípios, mas eu disse que não pode esquecer que é do Oeste e que agora precisamos mais do que nunca dele, porque toda região está desassistida. Eu sei que outros deputados virão, mas o Marcel hoje é o número um da nossa região, e é através dele que vou buscar recursos e é na porta do gabinete dele que vou bater para que seja nosso representante em Curitiba. Além disso, tem o deputado Mauro Moraes (PSDB), que sempre nos ajudou muito e é da região de Curitiba, e o Marcio Nunes (PSD).

OP: E sobre os deputados federais?
CL: Contamos com o deputado federal Sérgio Souza, que foi o mais votado em Mercedes e sempre nos atendeu muito bem; o deputado (José Carlos) Schiavinato (PP), que é histórico da região; o Zeca Dirceu (PT) eu vejo com um pouco mais de dificuldade porque é do PT e diretamente contra o presidente eleito Bolsonaro (PSL); e o Rubens Bueno (PPS), que sempre atendeu nossas demandas. Então em termos de deputado federal creio que estaremos bem assistidos. O que me preocupa mais é o governo estadual.
OP: Antes da campanha a senhora já estava com um pé no PSD, partido do Ratinho Junior, mas decidiu permanecer no MDB. Com a eleição dele ao Governo do Paraná e até como forma de estreitar ainda mais a relação, existe a possibilidade de mudança de partido ou este assunto hoje foi deixado de lado?
CL: Vamos ter uma nova conversa com o Ratinho, até por questões políticas regionais e discutiremos este assunto. Mas hoje, na minha opinião, o principal não é saber que lado vamos em termos de partido, mas é planejar 2020. Se ocorrer a reforma política não haverá mais esse número grande de partidos, pois teremos fusões e outras siglas deixarão de existir. Eu prefiro aguardar. A partir do momento em que houver a reforma política vamos analisar quais os passos que daremos, pensando com certeza na eleição de 2020 no município. Existe a possibilidade, sim, ainda do PSD, mas eu sempre me identifiquei muito com o MDB. Há um movimento no Estado agora para mudar os rumos do partido. Se esse movimento ocorrer, eu continuo no MDB, mas se não ocorrer não tem como permanecer no partido.
OP: O presidente estadual do MDB, senador Roberto Requião, marcou a convenção do partido para o próximo dia 15 para escolha do novo diretório. Dos nomes que estão sendo cotados para assumir o comando emedebista, quem a senhora defende?
CL: Sem dúvida o nome do deputado Sérgio Souza. Ele também foi muito assediado para mudar de partido, mas permaneceu pelo mesmo fator: se identifica com o MDB. Não podemos simplesmente desistir. Primeiro foi preciso fazer o processo de eleição dos nossos representantes, e, agora eleitos, precisamos fortalecer o MDB e dar um norte novamente para o partido.
OP: Já nos aproximamos da transição de 2018 para 2019. A senhora planeja alguma mudança na sua equipe de governo?
CL: Conversamos sobre isso há cerca de 30 dias. Disse que se alguém do governo quiser sair, quero ser a primeira a saber. Aquele dia falei isso a todos os secretários e deixei livre até o encerramento dos nossos trabalhos para ser comunicada se alguém deseja sair. Depois disso vamos começar as discussões. Conversei com os vereadores também e questionei se algum tem pretensão de assumir alguma secretaria, e ninguém manifestou o desejo em vir para o governo. Dia 17 encerramos os trabalhos e vamos realizar uma reunião com a equipe para ver quem permanece e quem não permanece. A princípio não tenho pretensão de fazer mudanças, mas primeiro quero ouvir a equipe.
OP: Em 2020 o seu grupo político buscará o 5º mandato consecutivo à frente do Executivo. Faltam ainda dois anos para o encerramento da sua gestão, mas como lidar com um desgaste natural que existe e garantir, ao mesmo tempo, o fortalecimento e união desta coligação para a disputa eleitoral?
CL: Acho que ninguém é unanimidade. Não podemos olhar para esse lado. Eu sei deste desgaste natural, mas algo que falo para todos: a fase Cleci vai se encerrar em 2020. Estou na administração municipal há 14 anos e vou fechar 16 anos em 2020. Eu quero sair, não quero permanecer no próximo governo e grande parte da equipe tem essa mesma mentalidade que eu. É importante inovar e tem que haver essa oxigenação no governo. Porém, quando falamos em oxigenar não precisa mudar grupo político, mas pessoas. Vai dispensar quem é companheiro? Sim. A nossa equipe já está se preparando para isso. A equipe que está aqui foi montada pela Cleci e pelo Vilson (Martins, ex-vice-prefeito) e pela Cleci e o Edson (Schug, atual vice-prefeito). Estarei fora deste processo e todos precisam ter ciência que estarão saindo comigo. Se o próximo gestor, sendo do grupo, quiser chamar alguém, será de responsabilidade dele. Eu não vou intervir neste sentido, pois acho que a própria eleição de outubro mostrou que o povo gosta quando oxigena. Isso dá uma visão diferente na administração municipal. Mas sei também que hoje as pessoas estão mais atentas e sabem o que é uma administração de forma correta, em que não estejamos envolvidos em escândalos e nenhum ato de corrupção. Isso é extremamente importante e as pessoas não podem esquecer desse detalhe. Viver em um município como de Mercedes, que há alguns anos só traz motivo de orgulho para a população, isso tem que pesar também na hora da eleição.
O Presente