O jornalista e publicitário Mario Milani, nascido em Cambé (PR), viveu seis dos seus 65 anos de idade em Cascavel. Foi entre 1983 e 1989, período de efervescência política, na transição da ditadura militar para a democracia manca.
Milani já tinha uma caminhada na esquerda revolucionária, participou ativamente da fundação do Movimento Sem Terra em Cascavel (sim, o MST nasceu aqui), e frequentava com outros petistas o Bar do Português, na Travessa Jarlindo Grando, região da antiga rodoviária, no centro de Cascavel.
E foi ali, à mesa de um bar, sob o testemunho de outros militantes, entre eles Márcio Pena Borges, Ernani Pudell, Jorge Sonda, Serginho (o dono da “bodega”) e Alfredo Carvalho, que Milani teve um insight: corria o ano de 1988, véspera da primeira eleição presidencial pós-ditadura.
E Lula era o pré-candidato do PT. Foi ali, no Bar do Português, no que poderíamos definir como “zona boêmia” da Cascavel dos anos 1980, que nasceu o “L” composto a partir da combinação dos dedos polegar e indicador.
O gesto ganhou o Brasil e popularizou-se no jingle da campanha presidencial lulista, ao ser reproduzido por artistas de dimensão nacional, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento e Gilberto Gil, entre outros.
Onde anda?
A seção “Onde Anda Você?” encontrou Mário Milani na Capital paranaense, onde reside há mais de três décadas. Ele continua atuando no marketing político e no jornalismo. E agora estreia como escritor.
É Milani, prefaciado por Lula, o autor do livro “A Voz do Gesto”, exatamente sobre a criação do “L” em Cascavel. “A obra está pronta. Vamos lançá-la em breve, talvez na Bienal de São Paulo, na presença do presidenciável”, informa Milani.
A intenção é organizar um ato de lançamento do livro em Cascavel também a título de resgate histórico da cidade onde o gesto nasceu.
Inspiração
O “L” nasceu no tempo do dinheiro escasso nas hostes petistas. Isso mudou muito com os anos de poder, como sabemos. “Não havia grana para nada. Tinha que fazer algo que não demandasse recurso financeiro. Eu tinha alguma noção de comunicação não verbal, de semiótica. Dali a pouco, na mesa do Bar do Português, eu disse para o Sonda: surgiu uma ideia aqui”, relata Milani.
A tal ideia, que não demandava nada além de possuir dois dedos nas mãos, foi apresentada em um encontro nacional de dirigentes da área de comunicação do PT. Vinte e dois Estados estavam representados. “Havia um certo ceticismo, não deram muita importância”, revela o jornalista.
Porém, após a gravação do vídeo clipe “Sem Medo de Ser Feliz”, o “L” do Milani explodiu. “Tive a emoção de presenciar 100 mil mãos em forma de “L” no comício da Praça da Sé, em São Paulo”, relata o jornalista.
O relógio do Ernani
Mario Milani, por assim dizer, foi o pioneiro no uso de algumas ferramentas do marketing político nas eleições municipais em Cascavel.
O ano era 1988. O criativo do jornalista andava a mil. Ele já havia inventado “do nada” o “L” gestual do Lula. E, provavelmente após algumas “canas” e “baforadas” no Bar do Português, trouxe outra ideia meio amalucada para a pré-campanha do advogado trabalhista Ernani Pudell à Prefeitura de Cascavel.
Da noite para o dia surgiram desenhos de relógios pichados em muros, asfalto e calçadas da cidade. Havia uma única informação escrita: “É hora!”. Bem, hora de quê? Tratava-se de um “teaser”, um recurso da publicidade que vai criando expectativa sobre um produto ou serviço.
Três semanas depois do relógio, a militância foi às ruas madrugada adentro para acrescentar um ponteiro no relógio apontando para o número 13. Depois surgiu o nome do prefeiturável da ocasião, Ernani Pudell.
Outra vez, com um custo muito baixo, Milani tirava coelhos da cartola no Bar do Português. Pudell, um completo desconhecido até aquela campanha, tornou-se o outsider da eleição, fazendo expressiva votação, fato que o credenciou para torná-lo mais tarde o primeiro deputado do PT no Oeste do Paraná.
Enricou?
Com essas ideias criativas, baratas e eficazes o Milani enriqueceu no marketing político, certo? Não, o jornalista leva uma vida digna, mas simples na Capital paranaense. Enriqueceram outros, como sabemos, entre eles os marqueteiros do PT, Duda Mendonça e João Santana, que transformaram o “L” do Milani em “$” de cifrão.
“Patenteei o gesto que criei, mas nunca ganhei dinheiro com isso. Alguns me chamam de ingênuo por não ter monetizado minhas criações. Vai saber se estão certos ou não…”, resigna-se Milani, o cara que pôs o “Bar do Português” – na zona boêmia e degradada de Cascavel – no mapa do marketing político brasileiro.
“Arminha” é outro case
Se identificar o autor do “L” é fácil, pois está documentado, fartamente testemunhado e até patenteado pelo seu autor, o jornalista Mario Milani, outro gesto controverso que fez muito sucesso na campanha de 2018 remonta tempos imemoriais.
A “arminha” com as mãos, é assim descrita no Wikipédia, o dicionário colaborativo da internet: “Arma com os dedos é um gesto em que a mão é usada para imitar uma arma de fogo (revólver ou pistola), levantando o polegar acima do punho para que o primeiro aja como um percussor e estendendo um ou dois dedos perpendicularmente para que ajam como o cano. O dedo médio também pode atuar como o dedo do gatilho”.
Possivelmente essa “invenção” tenha nascido junto com o primeiro revólver, desenvolvido por um norte-americano com tenros 21 anos de idade, Samuel Colt, no ano de 1835.
O então candidato a presidente, Jair Bolsonaro, utilizou o gesto na campanha eleitoral de 2018, em que foi seguido por seus correligionários e eleitores, demonstrando uma vez mais a força da comunicação não verbal em um mundo imagético.
Apareceu ensinando uma criança de colo a repetir o gesto da “arminha”, atitude que gerou interminável controvérsia nas redes sociais.
Por Jairo Eduardo, editor do Pitoco