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Política

Jovem liderança política assume responsabilidade de único morador de Cascavel no Congresso Nacional

É o primeiro deputado federal da história de Cascavel filho de outro deputado federal


calendar_month 24 de março de 2023
9 min de leitura

Quando a disputa por cadeiras no Congresso Nacional começou pra valer, no segundo semestre do ano passado, parecia haver uma avenida de possibilidades na maior cidade do Oeste, mas que afunilaria ao seu final.

E tudo caminhava para repetir eleições anteriores, com o favoritismo de nomes mais tradicionais na política, senhores de cabeças (e bigodes) prateados pelo luar do tempo, como Hermes Parcianello e Renato Silva, talvez Evandro Roman, que vinha de dois mandatos consecutivos.

Apuradas as urnas surgiu um único eleito com CEP, rua e número registrados de fato no mapa de Cascavel: Nelson Fernando Padovani. É verdade, não se trata de nenhum novato, embora jovem. Nelsinho, como é tratado na família, já foi vereador aqui. E traz na bagagem uma singularidade: é o primeiro deputado federal da história de Cascavel filho de outro deputado federal, Nelson Padovani.

Na presente entrevista concedida em seu CEP, no alto do Bairro Country, onde vive com a esposa Geovana e os filhos Greco e Ana Cecília, Nelsinho tem agora o desafio de mostrar que quantidade na representação não é qualidade. Se habemus papam é a mensagem lida pelo cardeal decano para anunciar a eleição de um novo papa, o “habemus deputado”, assim, no singular, é o que as urnas do Paraná designaram para Cascavel naquele outubro de 2022. Veja na seguinte entrevista o que esperar do único deputado cascavelense:

Pitoco: Percebe a responsabilidade de ser o único deputado federal de Cascavel?

Nelson Padovani (NP): Represento Cascavel, o Oeste e o Estado do Paraná como um todo, mas minha história, meu CEP, meu endereço residencial, meus CNPJs estão aqui, então naturalmente haverá um olhar diferenciado para dentro do nosso quintal. A responsabilidade é do tamanho da cidade, ou seja, imensa, mas para quem aprecia desafios, é uma ótima oportunidade. Não vivemos sob uma legislação distrital, temos que buscar votos fora, saberemos equilibrar essa representatividade de forma a honrar os votos obtidos em mais de 260 municípios.

Pitoco: Nossas lideranças bateram cabeça ano passado, a ponto de reduzir a representatividade de Cascavel?

NP: Tive uma conversa no momento pré-eleitoral de 2020, na disputa à reeleição do Paranhos, na presença do então candidato a vice, Renato Silva. Tínhamos compromissado, pelo menos no âmbito verbal, de o Renato Silva apoiar o Giacobo, o Frangão e o Padovani. Para nossa surpresa, o Renato acabou saindo candidato a federal, o que acabou atrapalhando a somatória dos votos para Frangão e Roman, ambos ficando fora do Congresso por poucos votos.

Pitoco: Por que as luzes do Planalto atraem deputados como se mariposas fossem, embora possam usufruir de emendas impositivas?

NP: Não respondo por eles, até porque não me enquadro neste perfil. Sou, inclusive, contrário a emendas parlamentares. Deputado é para legislar e fiscalizar. Emendas, da forma como são liberadas hoje, prejudicam a previsibilidade e a eficácia de políticas públicas nos municípios.

Pitoco: Como realizar um mandato viável eleitoralmente sem emendas?

NP: Emendas melhor que não existissem. Mas existem e devem ser aplicadas da melhor forma no meu mandato. Porém, não se trata somente de dinheiro, mas, sim, de ações eficazes. Para ficar em um único exemplo, estive gestionando junto ao ministro da Agricultura a extensão do prazo do plantio da safrinha de milho em razão das chuvas. Avançando nisso, meu mandato já larga injetando milhões de reais e empregos na agricultura regional e nacional, independente de emenda.

Pitoco: No fim das contas, não tem muito como fugir das demandas por recursos…

NP: Sou procurado todo dia por prefeitos e gestores de hospitais. Indicamos recursos à Uopeccan e ao prefeito Paranhos, para um projeto que pretende construir a marginal da 277 pelo lado direito em direção ao aeroporto para as indústrias. É ótimo destino para os recursos públicos por estar em linha com a melhoria no ambiente de negócios.

Pitoco: Você assinou a Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar os atos de vandalismo do dia 8 de janeiro?

NP: Assinei. Fui número 66 dos 189 deputados a assinar. O governo está trabalhando para que a CPI não aconteça, mas eu assinei e em hipótese nenhuma vou tirar meu nome. Assinei também a CPI do abuso de autoridade do STF e o projeto de lei dos CACs, das armas. Sou contra armas nas mãos dos criminosos. Nas mãos de pessoas honestas elas garantem a vida, a liberdade e a propriedade. Famílias que vivem no campo, por exemplo, não devem estar à mercê de bandidos, sem possibilidade de defesa, pois, por melhor que seja a intenção da Polícia Militar, não consegue chegar a tempo na cena de um crime em região rural.

Pitoco: Seu partido está no governo Lula. Como você vai se posicionar diante da presença de três ministros da sigla na Esplanada?

NP: Tenho divergências com o PT quanto à agricultura, direito à propriedade e condução da economia, entre outras. O partido fechou com o governo pelas regionalidades. Dos 59 deputados, metade é nordestina, favoráveis ao presidente Lula. Governos passam, mas o Brasil fica. Assim, terei uma postura de independência, tanto assim que assinei a CPI do dia 8 contra a orientação do Planalto.

Pitoco: Você foi vítima recentemente de fake a respeito da CPI do 8 de janeiro. Como conciliar o combate à desinformação com a liberdade de expressão?

NP: Penso que temos que ter mais responsabilidade. Redes sociais podem expandir rapidamente uma notícia falsa com danos irreversíveis. Um cidadão de nível de informação mediana não é capaz de discernir verdade de invenção. Quando uma rádio divulga uma pesquisa falsa, por exemplo, podemos facilmente alcançar esse meio de comunicação para se retratar, mas quando há notícias falsas na internet, em particular no WhatsApp, não há o que fazer para reparar.

Pitoco: Avicultores estão apavorados com a doença aviária. Como nossa liderança política pode atuar em casos assim?

NP: Tenho acompanhado de perto. A gripe aviária tem alta patogenicidade. Tem sido espalhada por aves migratórias do hemisfério Norte para todo o continente e as exportações argentinas estão paradas. O Brasil exportou, só em 2022, nada menos que R$ 9,7 bilhões em carne de frango e derivados. Tenho cobrado da defesa sanitária uma atuação proativa e preventiva, já que se trata de um setor que gera milhares de emprego, principalmente na região Oeste do Paraná.

Pitoco: Você vem de família tradicional, originário de segmento econômico sólido. Poderia facilmente ser identificado como “representante das elites”. Preocupa esse carimbo?

NP: Sou filho de pioneiros. Meu pai, filho de agricultor e pecuarista, chegou aqui em 1958 e minha mãe, filha de um revendedor pioneiro de máquinas agrícolas, em 1962. Desde o início da cidade, tiveram um papel preponderante. Quando fui eleito vereador, alguns disseram: “O Nelsinho vai cuidar só dos interesses deles”. Trata-se de uma visão míope. Sou formado em administração de empresas, trabalho desde os 16 anos. Minha família tem um trabalho social na região Norte de Cascavel há mais de 30 anos e não fazemos isso por política, mas, sim, para retribuir o que Deus nos deu: força de trabalho, vontade e oportunidades.

Pitoco: Pode indicar uma ação social sua como vereador?

NP: Poderia relatar mais de uma, mas vamos ficar no Restaurante Popular. Quando fui vereador, lutei contra poderosos lobbies para instalar o restaurante popular, um programa de combate à fome. Toledo já tinha seis restaurantes populares, em Cascavel nenhum. Lutamos muito para combater um lobby de empresários que temiam perdas. São lobbies tão fortes que até hoje Foz do Iguaçu não tem restaurante popular. Fizemos o projeto em conjunto com a Ação Social e aprovamos. Ali, onde ajudei a tornar realidade, já foram servidas mais de dois milhões de refeições.

Pitoco: De que forma o agente público pode edificar a ponte que une a política pública com o ambiente empresarial para combater o déficit habitacional?

NP: Temos um déficit habitacional de seis milhões de moradias. E temos 25 milhões de pessoas vulneráveis, morando em áreas de risco, sem sequer saneamento básico. Faço parte da Comissão de Desenvolvimento Urbano do Congresso Nacional e lá vou otimizar a liberação de recursos para moradias populares no Paraná. Há crise e oportunidade. Temos uma vasta clientela e temos uma cadeia da construção civil eficiente e profissional para atendê-la. Haverá mercado para loteadores, construtores e oportunidade para moradias dignas. A exemplo do que fiz com o restaurante popular, vou defender moradias populares.

Pitoco: O líder do governo Lula, deputado Zeca Dirceu, tem dialogado com você e demais parlamentares de situação e oposição. Como se dá uma conversa entre pessoas situadas em polos opostos neste cenário de polarização doentia?

NP: Relação institucional, respeitosa e dialogada. Quando fui vereador, por vezes eu criava um projeto de lei que considerava perfeito, mas logo algum colega fazia uma emenda bastante pertinente. Não somos donos da verdade, nem eu como centro-direita, nem os deputados de esquerda. Devemos trabalhar em equilíbrio. Só não posso abrir mão de princípios fundamentais compromissados com meus eleitores, como direito de propriedade, liberdade de expressão e religiosa. Outros pontos são negociáveis. Estou preparado para agir como uma ponte entre Brasília com os Estados e municípios.

Pitoco: Muitos dos 513 deputados estão condenados ao anonimato, ao baixo clero. Como atuar para escapar da irrelevância?

NP: Tem que colar o mandato nas comunidades. As pessoas vão me ver pessoalmente nos almoços, na igreja, nos sindicatos, nas reuniões das associações comerciais e é isso que elas mais cobram, presença física. Em regra, o eleitor se queixa de perder o contato com o deputado depois de eleito. Afora isso, qualificar o debate e trabalhar muito. É como no futebol, onde o gol é a consequência do trabalho de equipe bem feito. Estou ciente dos desafios e muito feliz com a oportunidade de representar nosso país no Parlamento.

Brasília, 1º de fevereiro de 2023: acompanhado por familiares, o cascavelense Nelsinho Padovani (centro) toma posse na Câmara dos Deputados

Por Jairo Eduardo, editor do Pitoco

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