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Política

“O MDB do Paraná precisa sair do fundo do poço”, avalia Sérgio Souza

calendar_month 24 de maio de 2021
10 min de leitura

O MDB do Paraná viu sua bancada de deputados estaduais e federais, bem como o número de prefeitos, diminuir consideravelmente com o passar das eleições. Uma das siglas mais tradicionais do país, hoje a agremiação paranaense possui apenas dois deputados estaduais e dois deputados federais.

Um dos parlamentares do MDB na Câmara dos Deputados é Sérgio Souza, que assumiu a presidência provisória com o desafio de fazer uma reestruturação partidária visando às eleições de 2022. A meta é ampliar os números e mudar o cenário ruim que persegue a legenda nos últimos anos.

Em entrevista ao Jornal O Presente, o dirigente emedebista falou que, diante da atual situação, dificilmente a tendência no pleito do próximo ano seja lançar candidatura própria ao Governo do Estado, pois, para ele, é preciso ter viabilidade eleitoral.

Sérgio Souza também comentou a respeito de alguns pontos que estão sendo discutidos no Congresso com relação a uma eventual reforma eleitoral. De acordo com o parlamentar, assuntos que têm consenso devem avançar, enquanto os mais polêmicos e divergentes podem ficar de fora.

Vale lembrar que para qualquer mudança passar a valer em 2022 é preciso aprová-la até outubro – um ano antes da eleição. Confira.

 

O Presente (OP): A Câmara dos Deputados instalou uma comissão para debater a reforma eleitoral, que pode trazer mudanças significativas se as discussões avançarem. O senhor acha que esse assunto avança até outubro?
Sérgio Souza (SS): Avança, avança sim, mas não todos os temas. Vejo que somente os temas que são consenso. Aquele que não é consenso dificilmente passará. Essa reforma sempre é fruto de um acordo político, às vezes até vai para o voto, mas na maior parte é costurado um acordo antes.

 

OP: E quais são os pontos que o senhor visualiza que têm potencial de haver um consenso?
SS: Acho que tem um ponto, somente um, que hoje poderíamos dizer que possivelmente haverá convergência para a mudança, que é o fim da participação nas eleições proporcionais das sobras, daqueles que não atingiram o quociente eleitoral. Foi feita uma avaliação das eleições municipais (em 2020) e o estudo deu conta de que não se respeita a proporcionalidade constitucional quando não respeita o quociente eleitoral. Em Marechal Cândido Rondon são 13 vereadores. Então precisa pegar os votos válidos e dividir por 13. Quem não atingir esse quociente não pode participar de uma divisão na Câmara de Vereadores. Sempre foi assim, mas houve alteração na última eleição e há alguns estudos que demonstram que foi muito frustrado. Isso o Congresso Nacional deve mudar para valer já em 2022.

 

OP: Em relação ao voto distrital, existe a possibilidade de passar pelo Congresso?
SS: Tem um apelo em uma parte do Parlamento essa questão do distritão. Para quem está no mandato, como é o meu caso, seria muito confortável. De 30 parlamentares do Paraná, eu fui o 15º (mais votado). Pretendo ficar nesse nível ou um pouco melhor na próxima eleição. Uma eleição assim (com voto distrital) estaria confortável para mim. Porém, impede a renovação e é um sistema que acaba com partido político. O candidato pode estar em qualquer partido, uma vez que independe, pois somente precisa estar entre os 30 mais votados, no caso da Câmara dos Deputados, ou entre os 13 mais votados, no caso de Marechal Rondon. Tem um apelo por parte de uma base dos deputados, mas tem uma resistência muito grande principalmente no Senado. Essa é uma questão que dificilmente passará. Deve ser mantido o sistema atual, que é a eleição na proporcional sem coligação.

 

OP: O senhor acha que a proposta do voto impresso prospera?
SS: Eu não tenho nenhuma rejeição com relação a isso. Pelo contrário, pois quanto mais segurança tivermos com o voto do cidadão, mais transparente e segura teremos uma eleição. Acho que deve andar, sim. É uma alteração que demanda de uma votação com quórum muito específico na Câmara e no Senado, e precisa passar pelas comissões. Acredito que deve passar e penso que será algo bom, pois dá segurança ao eleitor.

 

OP: Houve a experiência na eleição de 2020 com o fim da coligação na proporcional. Há aqueles que defendem a volta da coligação, especialmente os partidos com mais dificuldade em ter legenda. A proibição da coligação se mantém em 2022?
SS: Eu acho que veio para ficar. Dificilmente vamos mudar isso no Congresso Nacional. Propostas vão existir, mas está muito bem consolidada essa questão da manutenção do fim das coligações.

 

OP: Na eleição de 2018 houve candidatos de 34 partidos diferentes no Paraná. Com o fim da coligação, o senhor acredita que quantos partidos terão condições de lançar candidaturas?
SS: Eu diria que no máximo dez partidos conseguirão viabilizar chapas na proporcional. A intenção da reforma que fizemos no mandato passado foi justamente para limitarmos a criação discriminada de partidos. A pessoa estava em um partido, perdia o controle do comando da sigla, não concordava mais, juntava uma turma e criava um novo partido. Isso era muito comum. Em um país como o Brasil não pode haver 37, 38 ideologias. Isso não existe. A maioria dos países tem dois a três partidos mais fortes e meia dúzia periféricos. Isso acontece nos Estados Unidos, Argentina, França e assim por diante. Quando o fim das coligações passou no Parlamento, já percebemos nas eleições municipais quantos partidos disputaram as eleições proporcionais em 2020 e quantos disputaram em 2016 (em Marechal Rondon, foram dez em 2020 e 21 em 2016). Há uma discrepância enorme, uma diferença muito grande. Era meio que um distritão dentro das coligações. Isso veio para ficar e, alinhado, existem as cláusulas de barreira. Os partidos que não atingirem um determinado percentual nas eleições gerais e também nas municipais terão limitações no futuro sobre o fundo eleitoral, fundo partidário, representação através de lideranças e ocupação de cargos em mesa, no Brasil todo. A tendência no futuro é termos muito menos partidos do que temos hoje.

“Diria que no máximo dez partidos conseguirão viabilizar chapas na proporcional. A intenção da reforma que fizemos no mandato passado foi justamente para limitarmos a criação discriminada de partidos”

OP: É possível afirmar que partidos tradicionais devem ficar de fora da eleição de 2022 na chapa proporcional?
SS: Sim, e vai ser muito comum. Não vou citar nenhum partido, mas já conseguimos enxergar isso no horizonte. Boa parte dos partidos tradicionais não terão condições de construir chapa para deputado federal e estadual na próxima eleição. E vai acontecer às vezes de partidos não tradicionais conseguirem montar chapas. Aqui (Paraná) teremos muitos partidos que vão lançar candidatos em meia chapa. Há, inclusive, discussão para diminuir o número de candidatos. Hoje pode lançar (chapa) uma vez e meia em relação ao número de vagas. Há uma proposta para baixar para uma vez ao número de vagas. Isso faz parte da reforma para as eleições de 2022, mas acho que não avança.

 

OP: A falta de legenda de algumas siglas tende a promover uma dança das cadeiras na política ano que vem. Isso pode beneficiar o MDB?
SS: Eu tenho conversado muito. Agora como presidente provisório do MDB do Paraná, estamos discutindo muito internamente. O MDB é um partido com uma capilaridade grande no Estado. Em todos os municípios contamos com um número de filiados significativo. Somos um partido extremamente organizado e, diria, o mais organizado do Paraná. A nossa meta, e estamos trabalhando para isso, é no mínimo dobrar o número de parlamentares estaduais e federais, assim como dobrar o tamanho do partido no Paraná já na próxima eleição. Caímos muito. O MDB saiu de dez para dois deputados estaduais. Em relação a deputados federais caímos uns 70%, assim como no número de prefeitos. O partido deu uma caída muito forte nos últimos anos, mas assumimos recentemente a direção estadual e vamos realizar convenção daqui um tempo com a missão de reestruturar o partido para que tenha chapa completa de deputado estadual e federal, bem como participe das eleições majoritárias. Queremos ter uma representatividade maior do MDB na Assembleia Legislativa e no Congresso Nacional.

 

Presidente estadual do MDB, Sérgio Souza: “Eu acho que veio para ficar (fim das coligações na proporcional). Dificilmente vamos mudar isso no Congresso Nacional”

OP: Há poucos dias surgiram alguns boatos de que o ex-senador Roberto Requião poderia sair do MDB. Há alguma possibilidade disso acontecer?
SS: Não houve (conversa) e não acredito nisso. Acho que é mais blefe ou plantar notícia para virar comentário. O ex-governador e ex-senador Roberto Requião tem um legado gigante no MDB no momento em que fez bons governos no Paraná. Hoje dificilmente consegue restabelecer o tamanho que já foi na política, mas se criou e fez as coisas dentro do MDB. Todos os filiados do MDB têm liberdade. Somos democráticos para tomarmos as decisões que quisermos e muitos saíram. Veja o nosso parceiro Ademir Bier, de Marechal Cândido Rondon, eterno MDB e que no momento do processo eleitoral passado viu que talvez outro caminho o levaria com mais facilidade à Assembleia Legislativa. Isso é do processo político. Ele nunca conversou conosco a respeito, mas se essa for a vontade dele que Deus o abençoe para onde for.

 

OP: Existe espaço no MDB para o ex-senador Requião ser candidato a governador em 2022?
SS: Quem decide isso é a convenção. Nós ainda nem fizemos a convenção para escolha do diretório estadual. Vamos fazer isso primeiro. Somente nas convenções do ano que vem é que os convencionais vão decidir. Podemos ter mais do que uma pessoa disputando para ser candidato a governador, podemos ter proposta para que o MDB faça coligação e indique o vice em outra chapa. Essa discussão teremos em momento oportuno. Hoje a situação está aberta para todas as possibilidades.

“Podemos ter mais do que uma pessoa disputando para ser candidato a governador, podemos ter proposta para que o MDB faça coligação e indique o vice em outra chapa. Essa discussão teremos em momento oportuno”

OP: Como deputado, qual caminho o senhor defende que o MDB siga: que tenha candidato próprio ao Governo do Estado ou que apoie algum nome, componha alguma chapa?
SS: É preciso ter um projeto no partido. Não pode tratar partido como um patrimônio pessoal, como uma instituição que cuida dos interesses pessoais e de poucos. O partido tem que discutir de forma colegiada e teremos o momento para isso. O MDB do Paraná está tão pequeno que precisamos sair do fundo do poço, reestruturarmos o partido para participar de uma maneira que passaremos por um crescimento em 2022 para chegarmos em 2024 muito maiores, para sairmos de 2024 maiores ainda e lá em 2026 termos um projeto para chegarmos ao Governo do Estado. Acho muito difícil o MDB ter uma candidatura própria neste momento com viabilidade eleitoral. Porém, quem decide isso é a convenção.

 

OP: Surgem rumores de que estariam havendo conversas para o ex-governador Orlando Pessuti (MDB) ser indicado como candidato a vice-governador na chapa do governador Ratinho Junior (PSD). Isso procede?
SS: Eu não ouvi isso, mas tudo é possível. Como eu disse, o MDB é um partido democrático e se o Pessuti se colocar à disposição do partido para uma vaga dessa, ele é um excelente quadro do MDB.

 

OP: O MDB terá chapa completa de candidatos a deputado estadual, federal e nome na disputa ao Senado?
SS: Sim. A nossa meta é essa. A meta é termos chapa completa para fazermos uma bancada pelo menos o dobro do que temos hoje.

 

Por Maria Cristina Kunzler/O Presente

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