06 de abril de 2018, exatos quatro anos atrás: Carlos Alberto Richa, o Beto, passava as chaves do Palácio Iguaçu para a vice Cida Borghetti.
O jovem tucano de carreira fulminante era guardado com uma joia pela cúpula nacional do PSDB, que cogitava lança-lo à Presidência da República em 2022.
A carreira dele até então justificava essa perspectiva. Antes de ser alçado e reeleito para o mais elevado cargo do Estado, havia reprisado o mandato de prefeito de Curitiba com 77% dos votos e vitória em 100% das 3,5 mil urnas da Capital.
Por três vezes foi indicado por pesquisas de opinião pública como o melhor prefeito do país. Deixava o segundo mandato no Iguaçu sem o mesmo prestígio, mas com ativos eleitorais robustos.
Aquele abril de 2018 era feito de certezas. Beto deixava o Iguaçu para disputar o Senado. Havia duas verdades absolutas naquele momento: 1) Beto Richa iria ocupar uma das cadeiras em disputa no Senado; 2) o ex-governador Roberto Requião ocuparia a outra.
11 de setembro de 2018 – Em data icônica, “cai a casa” do menino prodígio do PSDB. Beto Richa, sua esposa Fernanda, seu irmão Pepe e o ex-chefe de Gabinete, Deonilson Roldo, são presos em operação do Gaeco.
Faltava menos de três semanas para a eleição. Foi devastador. O 11 de setembro daquele ano derrubou o edifício eleitoral do ex-governador como um castelo de cartas, como um palácio erigido na areia.
Richa veio de 1º nas pesquisas de intenção de voto para a 6ª posição com humilhantes 3,7% dos sufrágios. Requião também foi varrido do mapa e as certezas de meses antes naufragaram miseravelmente.
O ex-governador tucano seria preso ainda outras duas vezes no ano seguinte, em 25 de janeiro e 19 de março. Em fevereiro do ano passado, o voo errante de Richa passou a estabilizar.
Nuvens negras se dissiparam e a tempestade perfeita que varreu o castelo de cartas reduziu-se a um chuvisco de verão em 20 de fevereiro do ano passado.
Naquela data, Richa obteve a primeira de uma série de absolvições na Justiça. O juiz Nivaldo Brunoni, alegando falta de provas na acusação de aplicação irregular de verbas de saúde, mandou arquivar o processo.
“Nunca houve meia prova contra mim”, disse em voz grave o ex-governador na visita à redação do Pitoco, no último dia 14. Conforme relata na entrevista abaixo, Beto Richa traduz como “sequestro” a prisão de 11 de setembro e diz que muitos que o cercavam (e depois o abandonaram) não eram amigos deles, mas, sim, “amigos do poder”. Acompanhe:
Game over
“Cheguei a pensar em abandonar a política por tudo que sofremos, uma dor que não desejo para ninguém. A armação atingiu também minha mulher, meu irmão e minha mãe, que teve sua casa invadida. Por outro lado, sempre confiei na Justiça. Não existe meia prova das levianas acusações falsas que fazem contra mim”.
“Sequestro”
“Nada justifica o sequestro que eu e minha mulher sofremos a 20 dias das eleições. Que pré-requisitos eu preenchia? Nunca foi um processo jurídico, sempre foi um processo político e eleitoral. Onde fica o capítulo da Constituição que versa sobre a presunção da inocência?”.
Cassado
“Não havia inquérito, não tinha denúncia apresentada, não fui chamado para esclarecer nada, sequer para depor. Fatos transcorridos a 20 dias das eleições foram evidentemente para me tirar da disputa e tive minha candidatura cassada de forma arbitrária”.
Dois momentos
“Fui feliz em boa parte do governo. Se for para citar um projeto que me orgulha, vou citar os helicópteros do resgate aéreo. A primeira base no interior foi em Cascavel. No mesmo dia salvou a vida de um menino de 11 anos com 70% do corpo queimado. O pior momento quando sai do governo, fui traído, esfaqueado pelas costas em tentativa insana de assassinar minha reputação”.
Deltan Dallagnol
“Não há duelo eleitoral com o Deltan para ver quem será o mais votado. Olha a ironia da vida. Fizeram de tudo para me aniquilar e hoje estou elegível e ele, segundo juristas, está inelegível pelas práticas nocivas e ilegais que teve na coordenação da Lava Jato”.
Sergio Moro
“Objetivo deles era tomar o poder. Renunciou sua carreira, estava disputando a presidência, que já não está mais porque viu que não pegou. Não convenceu ninguém. Cada entrevista um caos, não demonstra conhecimento de nada. Subiu à cabeça tanto poder. Queriam acabar com a classe política para tomar o poder. Queriam criar o partido da Lava Jato”.
Rancores?
“Não tenho espírito de vingança, até porque a vida cuida de quem faz o mal. Da justiça divina ninguém escapa. O principal mentor das armações contra mim teve pedida a demissão no Ministério Público Federal (MPF), ratificada por 10×1 no conselho do MPF, só falta confirmação do STF (Supremo Tribunal Federal). A vida tá cuidando deles.
Penas ao vento
“Aprontaram para a minha mulher. Não tem denúncia contra ela até hoje, nenhuma prova. Se não tem prova como submetem uma mulher a uma prisão como fizeram com a Fernanda? É trauma que se carrega até o final da vida. Quem cata as penas lançadas ao vento, quem vai pedir desculpas para ela? Nos submeteram a um linchamento moral, a uma execração pública, humilhação. Hoje estou vencendo tudo na Justiça, processos anulados, denúncias arquivadas, me absolvendo de tudo”.
O retorno I
“Estive pensando, sabe de uma coisa: vou enfrentar! Percorri vários municípios a convite e percebi o carinho com que as pessoas me recebiam em reconhecimento ao legado que deixei em 100% dos municípios. Obras em andamento ainda hoje sendo inauguradas. São obras que deixei dinheiro previsto, deixei licitadas”.
O retorno II
“Não posso deixar esse legado se desfazer, e, diante da recepção calorosa que tenho recibo da população, estou reestruturando o PSDB, compondo chapas para deputados federais e estaduais. Isso me motivou a permanecer na política e disputar a eleição deste ano”.
O 11 de setembro
“Eu liderava todas as pesquisas de intenção de votos com mais de 30% junto com o Requião. Aí o Requião foi tragado junto nesta onda de tirar políticos mais tradicionais. Não farei juízo de valor dos senadores eleitos para não parecer despeito, mas percebo os eleitores ressentidos de ter um senador mais atuante em Brasília”.
Trairagens I
“O que mais tínhamos quando estava no cargo de governador eram os amigos do poder e não os amigos do Beto Richa. Eu sabia que seria assim, eu nasci neste meio, respirei política desde pequeno, convivendo em grande experiência que me inspirou a entrar na vida pública com meu pai José Richa”.
Trairagens II
“Meu pai foi governador, senador, prefeito em Londrina quando eu era criança. Depois que saiu da política, diminuiu significativamente as pessoas que estavam no entorno dele. Isso nunca fez diferença para meu pai. Sempre foi pessoa muito humilde e muito simples. Comigo a mesma coisa, eu já estava preparado para esse momento”.
Telefone mudo
“Alguns ‘amigos’ mais próximos me decepcionaram muito. Gente que carreguei na minha equipe, desde o tempo da prefeitura até o Governo do Estado, e sequer fez uma ligação telefônica de solidariedade. De alguns eu não esperava, mas os demais eu já sabia que quando eu deixasse o governo despareceriam”.
Peneirada I
“Li muitas biografias de gente que passou por algo parecido quando estiveram no topo do poder. Disseram algo que vale para mim também: em todo esse sofrimento que passei, uma coisa de boa tem: saber quem é quem. Dá para fazer um bom filtro e identificar essas pessoas”.
Peneirada II
“Superei isso, nunca gostei de bajulação. Puxa saco nunca me fez a cabeça. Duas frases resumem bem as decepções que tive com algumas pessoas. Uma delas recomenda escrever o nome dos amigos a lápis. A outra diz: perdoe seus inimigos, mas anote seus nomes. Mas não guardo ressentimentos, esqueço eles e valorizo os que foram leais”.
Alguns “amigos” mais próximos me decepcionaram muito. Gente que carreguei na minha equipe e sequer fez uma ligação telefônica de solidariedade

Beto com um dos amigos que lhe permaneceu fiel e lhe defende no vale tudo dos grupos de WhatsApp, o ex-vice-prefeito Maurício Theodoro, o “Magal” (Foto: Jairo Eduardo)
Duas frases resumem as decepções que tive com algumas pessoas. Uma delas recomenda escrever o nome dos amigos a lápis. A outra diz: perdoe seus inimigos, mas anote seus nomes
O Pitoco