O Presente
Geral

Não estou dizendo que essa investigação não deveria acontecer, mas foi mal direcionada

calendar_month 24 de março de 2017
8 min de leitura

 

Maristela Moraes
Pedrinho Furlan

Há mais de 40 anos atuando na indústria de alimentos e responsável por incentivar e fortalecer a produção de frangos no Paraná, participando da consolidação da Sadia em Toledo e da fundação de sindicatos no Estado – como o Sindicarne e o Sindiavipar – Pedrinho Furlan dizse chateado com a forma com que a Operação Carne Fraca foi trazida à tona. Aposentado desde 1996 da companhia, o ex-diretor jurídico e integrante do Conselho de Administração da unidade de Toledo é hoje procurador da Associação Esportiva e Recreativa da Sadia e coordenador do projeto da ginástica rítmica.

A BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, foi uma das gigantes citadas na investigação que desmontou um esquema de pagamento de propinas a fiscais agropecuários do Ministério da Agricultura para que frigoríficos pudessem vender produtos adulterados com produtos químicos e carnes vencidas. Ao O Presente, Furlan expôs seu posicionamento frente ao escândalo que atinge um setor-chave da economia brasileira, já que o país é o primeiro exportador mundial de carne bovina e de frango.

 

O Presente (OP): Como foi para o senhor, um dos precursores da produção de carnes no Oeste do Paraná ao participar do crescimento da produção de frangos por meio da instalação da unidade da Sadia em Toledo, encarar a exposição da Operação Carne Fraca?

Pedrinho Furlan (PF): Eu tenho impressão que os responsáveis por essa investigação não levaram em conta o que representa para o nosso país as exportações, e eu estou falando em termos só de aves, que foi o que eu montei no Paraná, começando por Toledo e depois todas as cooperativas. Atinge a cooperativa de Marechal Cândido Rondon, a cooperativa de Palotina, a de Cascavel, de Medianeira, de Céu Azul e assim por diante, essas grandes exportadoras que, só de frango, exportam nada mais do que R$ 7 bilhões por ano para Arábia Saudita, China, Japão, Hong Kong, Países Baixos e União Europeia. Todo trabalho realizado foi divulgado para a imprensa nacional e internacional na mesma hora, com a prisão de dois diretores, um deles da BRF de Goiás, sendo que só o Paraná exporta para esses países por meio da BRF (antiga Sadia).

Estamos em um período no país de economia em queda, tentando recuperar, com cerca de 13 milhões de desempregados. Já imaginou as unidades fabris que terão que colocar seus funcionários em férias coletivas para ver se o governo federal conserta a situação que a Polícia Federal criou? E como ficam os transportadores, as empresas de transportes paradas? Todos os integrados das cooperativas terão que parar de integrar, o que impacta em fábricas de ração, insumos para ração. Ou seja, criou-se uma baixa violenta na economia brasileira, inclusive da parte que diz respeito a aumento de desempregados.

Se está sendo feita a defesa eventual de um brasileiro só, que veio a falecer porque comeu uma carne passada, talvez a preocupação da Polícia Federal seja essa, mas não se deram conta de tudo isso que vai acontecer e que já está acontecendo. O que vai ser feito com o frango, com o suíno? Tem que ser alimentado ou vai morrer. Eu não tenho a mínima ideia do que vai acontecer com toda essa cadeia produtiva. Nossos exportadores cancelaram os recebimentos em razão do que a imprensa brasileira está dizendo. Não estou recriminando a imprensa, porque é um órgão de alta responsabilidade, mas que com essa responsabilidade parou inclusive de falar sobre a Lava Jato neste momento.

Tenho 40 anos dedicados a essa atividade, estou há mais de 28 anos na região e fundei dois sindicatos, o da Indústria de Carnes e Derivados (Sindicarne) e Indústrias de Produtos Avícolas (Sindiavipar), do qual fui presidente, delegado junto à Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep). Sempre estive junto disso tudo, acompanhando as delegações de técnicos em fazer anualmente a verificação de como se encontra a unidade e eu nunca tive um problema na nossa unidade de Toledo.

 

OP: Diversos países, como Japão, África do Sul, China, Hong Kong, além de países árabes e da União Europeia, já anunciaram algum tipo de medida restritiva à exportação da carne brasileira após estourar o escândalo da Operação Carne Fraca. Isso pode representar um retrocesso para o Brasil na conquista de mercados internacionais?

PF: Eventualmente sim, porque imediatamente eles vão passar a comprar de outros produtores da Europa, dos Estados Unidos, e a parte bovina a Argentina que também é um dos principais exportadores. Quando acontece algo desse tipo eu me preocupo porque tive a minha vida toda voltada para a indústria de alimentos, e na minha mesa eu tenho 12 netos e seis filhos e nós comemos aquilo que sabemos que não tem problema. Eu não queria acreditar, inclusive, que o presidente da República convidou embaixadores a uma churrascaria dizendo que aquilo vai resolver. Isso não vai resolver. O que vai resolver são empresas criadas internacionalmente para fazer um levantamento de todas as grandes unidades exportadoras do país e que dão um atestado de que estão rigorosamente dentro da lei.

 

OP: A Polícia Federal identificou empresas oferecendo vantagens para afrouxar a fiscalização, sendo que servidores do Mapa recebiam propina de frigoríficos para liberar a comercialização de carnes sem condição de consumo. O que garante que o sistema de inspeção funciona e que é seguro consumir a carne produzida no Brasil?

PF: Nos meus 40 anos de Sadia eu nunca tive problema nenhum. Os nossos fiscais levavam produtos para alimentação própria para que eles ficassem altamente responsáveis por fiscalizar, porque nós sabemos o que um importador representa. Quando você vai comprar um produto em qualquer local você quer a garantia de que aquilo vai te servir. Essa situação está como um tiroteio no escuro e vai atingir gente que não tem relação com o problema. Eu acho que os grandes exportadores, mais do que o governo, devem levar a eles a solicitação para que venham imediatamente fazer a fiscalização para verificar se está de pleno acordo com aquilo que a legislação de segurança alimentar exige em cada uma das unidades fabris.

 

OP: O senhor acredita que o fato de partidos políticos nomearem pessoas para cargos de relevância, algumas vezes com interesses próprios, é o grande problema?

PF: É um dos problemas que precisam ser resolvidos. Normalmente os chamados ministrinhos, aqui no Paraná é assim também, são nomeados politicamente. Então imagine se o deputado possui algum contato com uma unidade frigorífica que ele tem algum interesse e quer manter essa parceria pelos anos seguintes? O governo federal tem que ter a máxima brevidade em acabar com essas situações porque eu imagino que existam frigoríficos sem a inspeção federal, somente a estadual.

 

OP: O Paraná pode ser o Estado mais afetado considerando que dos 21 frigoríficos citados nas investigações, 18 estão no Estado?

PF: Depende. Nós temos agora apenas a indicação da Polícia Federal que está investigando, porque não está comprovado de que todos estão realmente cometendo as irregularidades apontadas na investigação. Será que é um produto que foi vendido para uma mercearia, para um mercado ou uma rede de supermercados? E esse mercado também não tem algo nesse sentido que não foi citado? Eu acho que essa propina nos frigoríficos pode ser real, mas, por exemplo, no nosso frigorífico recebemos 6,5 mil suínos para abate e com o calor intenso devem chegar cerca de meia dúzia de animais mortos. Este animal morto imediatamente vai para o subproduto, que é um novo frigorífico para pegar a parte óssea para farinha de osso, farinha de carne, para ração balanceada e tem que ser tratado rigorosamente também. Agora, se o frigorífico pequeno não tem a inspeção federal, tem só a inspeção estadual – que não sei quantos destes investigados são – faz a mesma coisa de um que exporta? A Polícia Federal não está nem aí para a exportação, ela está cuidando da população brasileira.

 

OP: A forma como os brasileiros repercutiram o fato, tratando a operação de forma jocosa nas mídias sociais, por meio de piadas que rapidamente se propagaram, foi uma postura irresponsável?

PF: Sim. Uma das frases que nós tínhamos no nosso tempo era o produto que estamos levando ao consumidor brasileiro e ao exportador é o mesmo produto que nós consumimos com a nossa família. Fazer piada com um assunto tão sério como esse é uma coisa que machuca. O país vai sofrer muito para se recuperar.

 

OP: O que podemos esperar daqui para frente? Será possível recuperar a credibilidade, seja do consumidor, seja do mercado externo?

PF: No mercado externo as providências já estão sendo tomadas. O ministro da Agricultura está enviando equipes para visitar os exportadores com o convite para que seja reinspecionada cada uma das unidades fabris que estejam rigorosamente dentro da lei. O Brasil está sofrendo e vai sofrer muito com isso, vai ter muita gente desempregada até que sejam retomadas as exportações como eram antes dessas denúncias. Não estou dizendo que essa investigação não deveria acontecer, mas foi mal direcionada.

Primeiro eles tinham que fazer a verificação desses frigoríficos para responsabilizar ou pelo menos movimentar o Judiciário, pois desta forma não teríamos uma repercussão alarmante da imprensa televisionada, escrita, radiofônica em todo o Brasil dizendo que o brasileiro estava comendo carne podre e que muita gente está morrendo porque comeu carne que não podia ser consumida.

 
Compartilhe esta notícia:

Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.
Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.