O relato dos discípulos de Emaús, em Lucas 24,13-35, é uma das páginas mais luminosas do tempo pascal. Nele, a Igreja reconhece não apenas um episódio do passado, mas um verdadeiro itinerário espiritual, catequético e missionário, capaz de iluminar a vida dos cristãos em todos os tempos.
Os dois discípulos deixam Jerusalém marcados pela frustração. A cruz parecia ter destruído tudo. O sonho que havia nascido no encontro com Jesus parecia encerrado. A expressão que brota de seus lábios, “nós esperávamos” (Lc 24,21), revela a profundidade de uma esperança ferida. É também a expressão que, muitas vezes, habita o coração humano diante das contradições da vida.
É precisamente nesse caminho de desânimo que o Ressuscitado se faz companheiro de viagem. Os discípulos, porém, não o reconhecem. Seus olhos estão impedidos. Não porque o Senhor esteja ausente, mas porque a dor, o medo e a decepção obscurecem o olhar. Cristo está presente mesmo quando não conseguimos percebê-lo.
O primeiro gesto de Jesus é escutar. Ele não corrige de imediato, não oferece respostas prontas, não interrompe o desabafo. Pergunta, acolhe, permite que a dor seja expressa. Deus não ignora o sofrimento humano. Ao contrário, entra nele com respeito e compaixão. Esta atitude revela um princípio fundamental também para a vida pastoral, antes de ensinar, é preciso escutar, antes de orientar, é necessário acolher.
No entanto, o Senhor não deixa os discípulos prisioneiros de sua tristeza. Depois de escutar, começa a iluminá-los. Retoma as Escrituras e relê toda a história à luz do mistério pascal. Aquilo que parecia fracasso se revela caminho de salvação. A cruz não é o fim, mas passagem. O sofrimento não é inútil, pois foi assumido e transformado pelo amor.
Assim, o coração dos discípulos começa a arder. A Palavra de Deus, quando acolhida, não apenas informa, mas transforma. Ela reordena a memória, purifica o olhar, reacende a esperança. A fé nasce e amadurece quando a vida é interpretada à luz das Escrituras.
O reconhecimento pleno do Senhor acontece no gesto de partir o pão. Ao redor da mesa, quando Jesus toma o pão, abençoa, parte e distribui, os olhos dos discípulos se abrem. Eles reconhecem o Ressuscitado. Palavra e Eucaristia se revelam, assim, como os lugares privilegiados do encontro com Cristo vivo.
O Ressuscitado continua a caminhar com seu povo, a explicar as Escrituras e a se dar no pão partido. Na celebração eucarística, Ele abre nossos olhos e fortalece a comunhão. Ali, o mistério pascal não é apenas recordado, mas atualizado, tornando-se fonte de vida nova.
O caminho de Emaús permanece atual. Também hoje muitos caminham marcados pela decepção, pela perda de sentido, pela dificuldade de reconhecer a presença de Deus na história. Também hoje a Igreja é chamada a ser lugar de escuta, de iluminação pela Palavra, de encontro eucarístico e de envio missionário.
Neste tempo pascal, somos convidados a redescobrir esse itinerário. Deixar-nos alcançar pelo Senhor, abrir o coração à sua Palavra, reconhecê-lo no partir do pão e retornar à comunidade como testemunhas da esperança.
Como os discípulos de Emaús, também nós somos chamados a nos tornar, no mundo, pão de amizade e vinho de fraternidade. Pois quem encontrou o Ressuscitado já não pode guardar para si essa alegria, mas sente-se enviado a partilhá-la, fazendo da própria vida um sinal vivo da Páscoa que não passa.
Por Dom João Carlos Seneme. Ele é bispo da Diocese de Toledo
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