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Elio Migliorança

Escalada perigosa

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Há muitas preocupações em tempos de pandemia e frustração de safra. Embora todos façam o possível para encontrar força e ânimo, há momentos em que o futuro é incerto e assustador. A violência está crescendo e o perigo está em cada esquina. A tecnologia nos transformou numa aldeia global e, com isso, fatos distantes estão diariamente dentro de nossas casas e nos assustam pela semelhança com o que se passa na vizinhança.

Dois assassinatos no Rio de Janeiro são o retrato da insegurança que enfrentamos diariamente. Os dois casos, embora diferentes, são muito semelhantes. No primeiro caso, um ser humano foi assassinado friamente, com requintes de crueldade. Independente da motivação, nada justifica o que aconteceu. No segundo caso, um cidadão armado atirou primeiro e depois perguntou: quem era?

No interior de nosso pequeno município, recentemente um casal de agricultores foi sequestrado, agredido e teve o carro roubado. Além dos danos físicos, ficou um trauma pelo resto da vida.

As milhões de armas adquiridas nos últimos anos pelo povo brasileiro não resultaram em maior segurança. A cada dia novos crimes são cometidos sem que tenhamos a perspectiva de dias mais seguros. Num interessante diálogo mantido recentemente sobre o tema, quando argumentei que certamente a impunidade é estímulo para os criminosos agirem, fui convencido de que, muito mais do que a certeza da impunidade, o que leva a maioria dos criminosos a agirem fora da lei vem do próprio cérebro do autor do crime. No cérebro de quem planeja o crime está a certeza do crime perfeito, de que nunca será descoberto. Felizmente hoje as forças de segurança possuem recursos tais que lhe permitem desvendar a maioria dos crimes. É verdade que a legislação, muitas vezes, está recheada de brechas na lei que permitem ao criminoso escapar ou postergar por longos anos o pagamento pelos seus delitos.

Voltando à questão da insegurança, é oportuno observar o quanto é tênue o fio que separa o equilíbrio do descontrole das pessoas. Diante de qualquer contrariedade, logo vem uma explosão com consequências imprevisíveis. A cada dia tomamos conhecimento de crimes que começaram com um pequeno desentendimento, uma pequena contrariedade, em casa, na rua ou especialmente no trânsito, onde parece que as pessoas perderam a capacidade de relevar uma situação de contrariedade.

Uma manobra desatenta no trânsito pode desencadear uma reação violenta e, às vezes, mortal. Aí está o perigo das pessoas andarem armadas, especialmente no trânsito. No calor da raiva, não temos raciocínio lógico. Nossa reação impulsiva pode provocar uma tragédia da qual podemos nos arrepender amargamente. É como acidente de trabalho. Machucar-se é fácil e rápido, mas para sarar, demora e dói.

Outra realidade é o número de feminicídios de que temos notícia diariamente. É assustador. Diante deste quadro preocupante, em que a intolerância e a agressividade avançam, é preciso cultivar a serenidade e a racionalidade. Em caso de uma ofensa, respire fundo, domine a vontade de devolver com a mesma moeda, faça de conta que não entendeu direito e siga o seu caminho. Não sabemos o autor, mas ouça o que ele diz: é preferível ceder o caminho a um cão, a ser mordido por ele, pois mesmo matando o cachorro a dentada não ficará curada.

A frieza e a crueldade com que tratamos os outros são espelho de uma sociedade que está perdendo a sensibilidade e o respeito pela vida.

 

O autor é empresário rural, professor aposentado e ex-prefeito de Nova Santa Rosa

miglioranza@opcaonet.com.br

 

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