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Elio Migliorança

Novo ou velho normal?

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No auge das restrições impostas pela pandemia, quando o comportamento e os hábitos das pessoas mudaram radicalmente pelas restrições a qualquer tipo de aglomeração, a grande pergunta foi: será que um dia a vida volta ao normal?

Este normal a que se referiam as pessoas era o modo de vida que tínhamos antes do início da pandemia. Pois bem, agora estamos do lado de cá, quase saindo da fase mais aguda da pandemia, e aos poucos retomando as atividades no formato anterior à pandemia. Nem tudo, porém, será como foi antes.

Em muitas empresas, o trabalho home office utilizado durante a pandemia será mantido. Para esses trabalhadores a vantagem de não enfrentar o trânsito diariamente é um ganho em qualidade de vida e também em economia com combustível. Contudo, é preciso voltar nosso olhar para questões maiores e mais complexas.

O vácuo deixado pelos mortos da pandemia jamais será preenchido. Tanto nas famílias quanto nas empresas, lideranças políticas, empresários e líderes de classes produtoras partiram para não mais voltar, ficando seu legado no exemplo e dedicação em prol da construção do bem comum. E nós que ficamos nos tornamos mais humanos e sensíveis com os outros e com a sociedade em que vivemos?

Mudou o sentido da nossa vida, ou apenas ficamos mais orgulhosos e prepotentes por acharmos que somos melhores ou mais importantes do que aqueles que morreram?

No que melhoramos em nosso ambiente familiar, profissional ou social? Tomamos consciência de que a vida é breve e não há tempo a perder quando se trata de construir o bem comum?

Damos mais valor àqueles que se dedicaram até a exaustão para salvar o maior número de seres humanos, como fizeram os profissionais da área da saúde?

Ou somos daquele tipo de pessoa arrogante que nivela tudo por baixo e acha que eles não fizeram mais do que sua obrigação?

É lamentável ver como existem pessoas insensíveis, que até se vangloriam por terem sobrevivido, e que não demonstram nenhuma solidariedade àqueles que perderam familiares ou outros entes queridos.

É triste ver que centenas de milhares de mortos não foram suficientes para mudar a consciência daqueles que tinham o poder para salvar vidas e não o fizeram.

Está comprovado que, após a vacinação em massa da população, a pandemia foi gradativamente reduzida e está quase sob controle. Logo, conclui-se que se a vacinação tivesse começado antes, muitas vidas teriam sido salvas. É fato também que a disseminação de notícias falsas, as criminosas fake news, contribuíram de forma direta para desacreditar o poder da vacina e das medidas de proteção, o que levou muitos à perda da vida.

Enquanto estamos refletindo sobre as consequências de tudo o que fizemos, vimos e ouvimos, outra espada está sobre as nossas cabeças, a qual pode desencadear outra pandemia de consequências imprevisíveis. É a varíola dos macacos. Já há suspeitas de casos no Brasil e ninguém sabe qual o seu poder de destruição. Recentes estatísticas mostraram que os mais ricos do mundo ficaram mais ricos ainda com a pandemia, enquanto nós ficamos mais pobres. Não podemos aceitar a normalização do absurdo, nos acostumando com a barbárie. É preciso ter sabedoria para diferenciar certos valores dos valores certos, pois enquanto os sábios estão cheios de dúvidas, os estúpidos têm certeza absoluta.

 

O autor é empresário rural, professor aposentado e ex-prefeito de Nova Santa Rosa

miglioranza@opcaonet.com.br

 

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