O Presente
Osnei Alves

Quando o conflito diz mais sobre nós do que imaginamos

calendar_month 17 de fevereiro de 2026
4 min de leitura

O conflito é um espelho inesperado: nele reconhecemos nossas dores, mas também descobrimos nossas potências (Osnei Francisco Alves)

Em tempos de ambientes de trabalho cada vez mais acelerados, fico com a impressão de que falamos muito sobre resultados, metas e produtividade, mas ainda falamos pouco sobre aquilo que realmente sustenta qualquer equipe: a maneira como cada pessoa lida com suas próprias emoções, suas histórias e seus conflitos internos. Não adianta fingir que somos seres puramente racionais dentro das empresas. Não somos. E isso não é um defeito é justamente o que torna o trabalho humano possível.

Quando observo os conflitos que surgem nos corredores, nas reuniões e até nas conversas de corredor, percebo que eles raramente têm relação apenas com o que está acontecendo naquele momento. Muitas vezes, são ecos de experiências antigas, marcas que cada pessoa carrega e que, de repente, despertam diante de uma crítica, de uma cobrança ou de uma situação ambígua. Freud já nos alertava que somos movidos por forças internas que não controlamos totalmente, desejos e medos que nos acompanham mesmo quando achamos que os deixamos para trás. Lacan, por sua vez, insistia que somos moldados pela linguagem, por aquilo que ouvimos, aprendemos e repetimos – e que seguimos interpretando o mundo por meio dessas lentes, conscientes ou não.

É por isso que, quando duas pessoas reagem de formas completamente opostas ao mesmo acontecimento, não deveríamos nos surpreender. Cada uma está respondendo a partir de uma história subjetiva muito própria, construída desde o nascimento, atravessada por experiências emocionais, influências culturais, crenças familiares, relações sociais e acontecimentos marcantes. Fingir que isso não interfere no ambiente de trabalho é, no mínimo, ingenuidade.

A verdade é que o conflito tem sido tratado como vilão dentro das organizações. Muitos líderes tentam apagá-lo rapidamente, como quem esconde poeira debaixo do tapete, achando que assim tudo ficará bem. Mas não fica. Conflito abafado volta com mais força e, muitas vezes, mais distorcido. O problema não é o conflito, e sim a nossa dificuldade em lidar com ele. Talvez porque o conflito nos obriga a olhar para nós mesmos, para nossas inseguranças, para o que nos irrita, para aquilo que insistimos em esconder.

O que realmente defendo é que o conflito pode ser uma oportunidade e das grandes, quando encarado com maturidade. Ele revela nossos limites, mas também nossas potências. Mostra onde ainda doem velhas histórias, mas também onde podemos crescer. E aqui entra o papel essencial do líder. O líder que ouve de verdade, que não se apressa em julgar, que presta atenção não só ao que o outro diz, mas ao modo como diz, ao gesto, ao silêncio, ao incômodo. O líder que compreende que uma reação exagerada nem sempre fala do agora, mas de algo que veio antes.

Também é preciso reconhecer que a maneira como o líder usa a linguagem tem um impacto profundo no clima da equipe – algo que Lacan entenderia muito bem. Uma palavra dita de forma atravessada pode criar um abismo. Uma palavra bem colocada pode construir uma ponte. E isso não é filosofia barata: é prática diária de convivência.

Freud diria que o líder precisa lidar com seus próprios impulsos para depois compreender os impulsos dos outros. Eu diria que qualquer pessoa em posição de liderança deveria, antes de tudo, aprender a se ouvir. Porque quem não se escuta dificilmente consegue escutar alguém.

Talvez o conflito não seja o que pensamos que é, talvez ele seja apenas o espelho que evitamos olhar. E, ao fugir dele, perdemos a chance de nos tornarmos pessoas e profissionais melhores. Mas, quando temos coragem de encarar o que aparece ali, percebemos que o trabalho não é apenas um lugar de produção é, sobretudo, um lugar de transformação.

Quem é Osnei Francisco Alves


  • Osnei Francisco Alves é especialista na área de gestão, estratégia empresarial, marketing, comunicação, tecnologia, educação, entre outras. Escritor de livros e artigos científicos. Atualmente, gerente executivo do Senac em Marechal Cândido Rondon.
    consultorosnei@gmail.com

Quer ler mais artigos do Osnei? É só clicar aqui.

 
Compartilhe esta notícia:

Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.
Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.