Quando se fala em carência, na verdade é um sentimento, ou melhor, uma sensação difícil de contextualizar, haja vista que toca cada pessoa de modo individual.
Cada pessoa lida com a carência de um jeito muito particular.
Tem os que sentem o vazio que ela proporciona, mas vão se ajeitando, se valorizando, se conhecendo, aprendendo viver e conviver com as faltas, observando o lado positivo de tudo, se distraindo com os detalhes da vida e seguindo sem muito sofrimento.
Existem os que ao sentirem o vazio existencial reclamam, se debatem pela vida e acabam se conformando depois de algum sofrimento, reeditam vivências e seguem procurando um novo sentido até encontrarem alguém ou algo que os coloque novamente em situação confortável.
Mas… existem os que não conseguindo entender o que sentem, buscam culpados para tudo, acreditam que nada na vida faz sentido, além de ter e conviver com seu eleito(a). Em tudo se vitimizam e tudo vira mimimi.
Esses últimos são os “sofredores de carteirinha”, porque, ao não buscarem compreender o que sentem, não enxergam saída pra nada.
Esses, são aqueles(las) que vivem de migalhas, se agarrando a qualquer fiapo de atenção, ao mínimo do mínimo que lhes for dado. Não se sentindo merecedores de nada que realmente valha a pena, seguem se permitindo serem usados, abusados, esquecendo totalmente de si, deixando de crer que as possibilidades vão além e de que podem fazer escolhas. Vivem na busca de algo que ocupe o furo da carência; sem critério algum, se apegam a qualquer migalha que lhes for ofertada, transformando tudo em sofrimento e falta de esperança.
Esses sofredores transformam a carência em solidão crônica, porque quem não aprende a se amar causa temor nos outros, gera afastamentos e o que era só solidão se converte em medos absurdos, transformando o existir em um verdadeiro caos existencial.
No sentir ou conviver com a carência, algo que todos nós passamos em algum momento da vida, já nos perguntamos quem somos nós quando ela chegar sem avisar?
Estamos realmente focados na nossa existência ao ponto de sabermos o nosso valor?
Quem e o que cabe ou não no nosso projeto de vida?
Já tomamos consciência que podemos ser feliz com, sem e apesar de outra pessoa?
Somos seres humanos inteiros, sendo, então, a felicidade habita dentro de cada um de nós. É lá dentro de nós, no controle das nossas emoções, na compreensão de quem somos e o que sentimos que a vida se desenrola.
Não precisamos de ninguém para nos completar, desejamos algo ou alguém, talvez um par, mais isso em hipótese alguma quer dizer que precisamos. Essa consciência é muito importante, serve para nos colocar no mundo dentro uma realidade que muitas vezes fica embaçada e que pela falta de clareza traz consigo tanto sofrimento.
Existe uma reflexão extremamente necessária, a qual não deveríamos esquecer jamais: quando colocamos no outro (seja quem for) a nossa esperança, sonhos, fantasias, delegando a esse outro a nossa felicidade, o que acontecerá se esse tal outro falhar? (É um direito dele) Como nós ficaremos?
Essa pergunta responde muitas dúvidas, nos colocando no controle da nossa vida, podendo nos dar um novo olhar consciente e real sobre quem somos, para onde estamos indo e onde desejamos chegar.
Carência faz parte do existir de todos nós, o que não podemos permitir é que ela vire patológica, afastando nosso direito a uma vida centrada. Existe viva e vida em abundância logo ali, logo adiante daquilo que não deu certo.
Precisamos tirar as vendas e as amarras que nos mantêm aprisionados a algo ou alguém que não nos merece, que não tem razão para ficar.
Precisamos aprender a deixar ir tudo o que não acrescenta, parando de sofrer desnecessariamente, tomando consciência do nosso valor, porque só assim será possível enxergar o futuro e ir ao encontro e tudo aquilo que merecemos viver e construir.

Por Silvana Nardello Nasihgil. Ela é psicóloga clínica com formação em terapia de casal e familiar (CRP – 08/21393)
@silnasihgil
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