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Esportes Ademir, o gari multicampeão

Cascavelense vence maratona internacional; treino diário dele começa às 5h da manhã

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Homens em alvoroço vestindo laranja subindo e descendo freneticamente do caminhão coletor de lixo nas ruas de Cascavel. Quem nunca presenciou essa cena? Eles até parecem se divertir. Mas o trabalho diuturno é duro. Garis coletam mais de 400 toneladas de lixo por dia. Sem esse ofício, habitar a cidade seria impensável. “Lixeiro”, coletor, gari… cada um chama de um jeito. O biotipo físico de cada um deles não deixa dúvida: é preciso ser esguio para driblar o trânsito, flexível para centenas de agachamentos na coleta do saquinho de supermercado com detritos, e muito pulmão para correr atrás do caminhão.

Seria possível extrair um lutador de sumô dali? Não, mas um maratonista campeão sim. É o caso do coletor Ademir Ramos, “peso pena”, 53 quilos. Pouca gente que o aplaudiu no último domingo em Blumenau (SC), poderia imaginar a profissão dele.

Ademir, o gari da Ambiental, morador no bairro Consolata, periferia Norte da cidade, levou Cascavel para o lugar mais alto do pódium na concorrida 26ª Maratona Internacional de Blumenau. Embora campeão múltiplas vezes, o coletor foi às lágrimas ao ultrapassar a linha de chegada em 1º lugar.

Afinal, não era uma prova qualquer. “A 26ª Maratona Internacional de Blumenau é voltada para pessoas de todas as idades e classes sociais. Possui uma das melhores altimetrias entre todas as provas do Brasil, consolida-se entre uma das maiores em número de concluintes e também uma das melhores provas do Brasil para busca de melhores marcas pessoais”. Assim a prova estava apresentada no portal da maratona.

E havia outro ingrediente que a tornava muito especial. A 26ª edição celebrava os 200 anos de imigração alemã para o Brasil. As ruas estavam enfeitadas com adereços nas cores da bandeira germânica. E o vencedor foi um brasileiro de Cascavel de sobrenome lusitano, percorrendo 42 quilômetros em 2 horas e 26 minutos. Como a prova circunda o rio Itajaí-Açu, emoldurando um belíssimo cenário, é possível dizer que o circuito serpenteava pelo centro de Blumenau. Ali consagrou-se um “cobra” de Cascavel. Dado o itinerário ofídico, Ademir sentiu-se em casa. É como dizer: morar no banhado e perder para o sapo?

O prêmio do vencedor é relativamente modesto, R$ 5 mil, só que não, olhando na perspectiva dele. O valor que o atleta gari recebeu “trabalhando” duas horas e meia em Blumenau, levaria quase dois meses para aferir correndo atrás do caminhão em Cascavel.

32 KM, TODO DIA

O “treino” deste atleta admirável começa cedo. Exatamente às 5 da manhã ele parte atrás do caminhão da Ambiental, empresa que deu todo o suporte para a carreira de Ademir no atletismo. Ali, no expediente, corre 20 km em média por dia. Encerrada a correria da coleta, o atleta parte para um treino de mais 12 km. “Ele é uma inspiração para toda nossa equipe, trabalhador dedicado, humilde, um exemplo a ser seguido”, diz Olides Berticelli, da Ambiental, incentivador do campeão.

Nenhum frase, no entanto, parece fazer mais sentido para Ademir Ramos, o gari campeão, que um texto extraído do portal da Maratona de Blumenau: “Somos o que fazemos repetidamente. Excelência, então, não é um ato, mas um hábito”.

De fato, ganhar a vida correndo repetidamente, é o hábito do campeão cascavelense para para levar o pão à família, e também para levantar taças improváveis em grandes maratonas país afora. Ademir é cobra de Cascavel!

Por Jairo Eduardo. Ele é jornalista, editor do Pitoco e assina essa coluna semanalmente no Jornal O Presente

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