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De volta ao Brasil, rondonense Murilo Maia busca nova chance na carreira

calendar_month 24 de março de 2022
12 min de leitura

Há pouco mais de dez dias, o avião da Força Aérea Brasileira (FAB) deixou Varsóvia, na Polônia, e pousou no aeroporto de Brasília, trazendo ao país 68 pessoas que tiveram suas vidas completamente modificadas em decorrência da invasão russa ao território ucraniano, que completa um mês na quinta-feira (24).

Um dos passageiros que certamente não queria retornar ao Brasil desta maneira é o jogador de futebol rondonense Murilo Maia, que desde 2010 mora em Curitiba com os pais Juarez e Angélica. O motivo? Ter a chance de conseguir uma nova oportunidade em um time europeu, assim como aconteceu nas temporadas 2017/2018, quando se destacou pelo BKS Bielawianka, da 4ª divisão polonesa, e em 2019, quando defendeu o SG Kinzenbach, da 6ª divisão da Alemanha.

Integrante do grupo de sete jogadores que participavam de um período de treinos na cidade ucraniana de Uzhhorod, sob coordenação do treinador Albanir Roberto Szymanski, dono da Ars Football, empresa que oferece a jogadores amadores e profissionais de 15 a 24 anos programas de “preparação e adaptação ao futebol europeu” que incluem treinamentos e amistosos, com a possibilidade, caso se destaquem, de serem chamados para ingressarem em alguma equipe europeia, Murilo estava na cidade de Bibrka, próximo a Lviv, no Oeste do país, quando o conflito começou. Já no dia seguinte, o rondonense conseguiu atravessar a fronteira pela cidade polonesa de Medyka, e passou um período em Cracóvia antes de chegar à Capital, Varsóvia, onde ficou hospedado em um hotel à espera do voo de repatriação.

Aos 23 anos, Murilo garante que o susto pelo qual passou no Leste europeu não diminuiu sua vontade de um dia vestir a camisa de uma grande equipe, seja no Brasil ou na Europa. A meta, agora, é encontrar um novo caminho para voltar a jogar futebol profissional.

Trajetória

Ainda menino, em Marechal Rondon, Murilo jogou futsal pelo Colégio Martin Luther, pela Copagril e pelo Colégio Cristo Rei, onde conquistou o título paranaense ao lado de Obina, hoje goleiro do Marechal Futsal. Já em Curitiba, se destacou nas escolinhas e passou a integrar as equipes de rendimento do Athletico Paranaense. Quando saiu do Furacão, aos 17 anos, em 2015, pensou em deixar o futebol de lado para focar nos estudos, mas um torneio no Rio Grande do Sul renovou sua relação com a bola. “Quando saí do Athletico não consegui dar prosseguimento na minha carreira como eu gostaria e resolvi focar nos estudos. Iria começar a faculdade. No ano seguinte, decidi estudar, porém joguei um campeonato (Copa 3 Coroas, pelo Botafogo de Novo Hamburgo/RS) e o treinador Paulinho Schneider gostou muito de mim e me recomendou fazer parte desse projeto na Europa, do treinador Albanir Szymanski, e foi lá que consegui meu primeiro contrato, em Bielawianka”, relembra.

Na 4ª divisão polonesa, Murilo, então com 19 anos, chamou atenção com participação direta em 19 gols da sua equipe. “Nas 12 partidas que joguei, fiz 12 gols e dei passe para outros sete. Fiz um bom campeonato e comecei a fazer meu nome, minha trajetória pela Europa a partir de lá. No final de 2019 retornei para Europa para jogar na Alemanha. Depois vieram as férias de inverno e voltei para o Brasil, porém no início do ano seguinte começou a pandemia, o campeonato acabou e o meu contrato ficou livre, então fiquei no Brasil realizando treinamentos até conseguir buscar uma outra equipe. Em 2020 inteiro eu tive dificuldade de me colocar no mercado por não ter um empresário”, comenta o atacante canhoto, que tem na finalização de média e longa distância e ótimo posicionamento dentro da área, características típicas de um grande camisa 9.

Novas oportunidades, então, surgiram ano passado, quando jogou nas divisões inferiores do Paraná, antes de tentar uma retomada na Europa. Até chegar a guerra para atrapalhar novamente os planos de Murilo. “Em 2021 fiz meu primeiro contrato no Brasil, joguei pelo Prudentópolis a 2ª divisão e no fim do ano, para ter calendário, joguei pelo Grecal a 3ª divisão do Paranaense. Em 2022 reapareceu essa chance de ir para Europa, através do mesmo treinador, Albanir Szymanski, para ir à Ucrânia realizar uma pré-temporada. Foi quando a guerra começou e acabei tendo que fugir. Fui pra lá buscar clubes, não tinha nada definido. Nossa ideia era ir para outro país, por enquanto estávamos simplesmente treinando e prontos para começar alguns amistosos, mas não aconteceu por causa de guerra”, lamenta.

Em conversa com o Jornal O Presente, Murilo Maia falou sobre sua volta precoce ao Brasil, a busca por uma nova oportunidade, a rotina de treinos e a importância da família e amigos na busca pelo sonho de jogar entre os melhores. Confira.

O Presente (OP): Sua ideia logo após deixar a Ucrânia era permanecer na Europa para buscar uma nova oportunidade, porém acabou por retornar ao Brasil no voo de repatriação. Quais os motivos o fizeram embarcar de volta para cá?

Murilo Maia (MM): Foi a questão da instabilidade na Europa. Saímos da Ucrânia e entramos na Polônia pensando que a guerra iria se resolver, a paz iria acontecer em alguns dias, o que acabou não ocorrendo. Nossa ideia, então, foi voltar ao Brasil e reiniciar os planos. Minha vontade era estar na Europa, mas como não tinha noção da dimensão dessa guerra, resolvi voltar para casa e reiniciar, buscar novas oportunidades no território nacional.

OP: Nestes mais de dez dias que retornou para casa, como estão as conversas em relação a conseguir novas oportunidades? Tem alguma definição sobre em que time dará sequência na carreira? Sua conversa com os empresários é no sentido de tentar uma nova equipe na Europa ou pretende, a princípio, permanecer no Brasil?

MM: Tenho recebido alguns contatos, mas não tenho nada definido ainda. Não tive proposta de nenhum clube. Estou buscando um empresário, pois quero subir de nível na carreira, tentar entrar em lugares que até agora não tive chance. Como tive uma carreira inteira sem empresário, acabei tendo dificuldade de crescer, então busco ter um empresário e um clube que possa propiciar uma boa oportunidade, pois sei da minha capacidade e busco dar aquele passo que vai alavancar minha carreira, porque, além de saber das minhas qualidades, sei do quanto gosto de trabalhar, o quanto me dedico e do retorno que posso dar aos meus familiares, meus amigos e às pessoas que me apoiam. Sigo treinando e trabalhando em busca da oportunidade que possa alavancar minha carreira da maneira que desejo.

OP: Como é a situação de um jogador que não tem empresário e precisa buscar uma equipe para jogar por conta própria?

MM: Não ter um empresário é muito complicado. Tudo fica mais difícil. Já entrei em contato com empresários e com alguns clubes várias vezes e simplesmente sou ignorado. A mensagem é visualizada e nem é respondida. Sabemos que em alguns clubes jogadores com empresário têm mais facilidade de jogar do que aqueles que não têm. Talvez o único lado negativo de ter empresário é se ele não tiver compromisso com a carreira do atleta. Mas se o empresário for bom ele vai querer expor o “produto” dele, trabalhar sua imagem para oferecer em busca de melhores ofertas, afinal, futebol é um negócio. Alguns, inclusive, ajudam atletas com a questão de custo de material, de chuteiras. Em resumo, é muito mais difícil você ter abertura para o alto nível sem ter um bom empresário.

OP: Sem contar com empresário, o apoio da família e amigos se torna ainda mais importante? Como eles têm lhe ajudado nessa busca pelo sucesso profissional como jogador de futebol?

MM: Ter o auxílio da família é fundamental, especialmente por causa dos altos e baixos. Nessa carreira é sempre bom ter pessoas que apoiam e que o mantenha centrado. Sou um cara focado e disciplinado, mas é sempre bom ter o auxílio dos meus pais, que estão comigo sempre, me apoiando no que eu quis fazer, no meu desejo. Eles sabem que é uma vida difícil, com muitas privações. Muitas coisas que adolescentes e adultos jovens podem fazer eu não posso fazer corriqueiramente, porque tenho compromissos tanto com meu corpo quanto com a carreira. Então, é preciso abdicar de muita coisa para poder estar lá, e é bom ter o apoio da família.

OP: Como você está mantendo a parte física e técnica? Tem treinado em algum lugar em Curitiba? Como fazer para se acostumar à mudança climática, já que saiu do inverno europeu com temperaturas negativas para o calor brasileiro?

MM: Trabalho a parte muscular na academia, quase todos os dias da semana, corro no parque e busco algum futebol durante a semana. Tento me dedicar ao máximo. Sempre que possível estou fazendo um exercício. Eu gosto do treinamento. Tem sido tranquilo me acostumar com a mudança climática. Pra mim não importa a temperatura, o que importa é estar treinando, fazer minha parte no dia a dia para estar sempre preparado para quando a chance aparecer.

OP: Você tem mantido contato com outros brasileiros que permaneceram na Ucrânia ou Polônia? Como está a situação deles?

MM: Mantenho contato com o treinador que me deu a oportunidade de ir para Europa e com alguns brasileiros que saíram da guerra junto comigo. Não falamos muito, creio que todos estão querendo aproveitar suas famílias, seus amigos, mas o grupo está lá.

OP: Qual relação você mantém com os amigos rondonenses, especialmente aqueles que jogaram contigo na infância?

MM: Mantenho contato com os amigos rondonenses, mas não conversamos muito no dia a dia. Guardo todos com muito carinho e sempre que eu vou para Marechal e tenho a oportunidade de revê-los é uma maravilha, só risada. Conversamos bastante e lembramos da infância. Joguei futsal com o João Perachi, que era meu vizinho de rua, morava próximo da minha casa, brincávamos bastante. Esse é um dos meninos que guardo com muito carinho e mora no meu coração. Desejo que ele tenha muito sucesso na carreira de futsal. Além dele tem o Obina, que é goleiro do Marechal. Joguei muitos campeonatos junto com ele pelo Cristo Rei e pela Copagril, até conquistamos um campeonato paranaense. É outro menino que merece muito pela qualidade e pela maneira que ele defende as cores da cidade.

OP: Na Polônia você se destacou com média de um gol por jogo no BKS Bielawianka. De que maneira essa boa fase ajudou na sua trajetória pela Europa?

MM: Na Polônia me destaquei pelo BKS Bielawianka que jogava a 4ª Liga e tive uma média muito boa lá, com 19 participações em gols em 12 jogos, com 12 gols e sete assistências. Isso me ajudou muito a fazer um nome naquela região da Polônia nessa primeira fase que joguei na Europa. Acredito que naquela região onde consegui atuar muito bem eu teria entrada em vários clubes, mas, como falei, quero mais oportunidades de mostrar serviço em clubes maiores para poder alavancar a minha carreira. Foi uma oportunidade que me fez acreditar do quanto eu sou capaz de produzir dentro de campo e me ajudou muito a seguir esse sonho. Quando jogamos bem, queremos estar jogando sempre, e isso fez diferença pra mim.

OP: Como você define suas características como jogador?

MM: Me vejo como um camisa 9, porém com mais movimentação. Tenho qualidade no passe, na finalização e movimentação. Gosto muito de buscar o jogo mesmo sendo centroavante, caindo pelas pontas para usar da minha força. Não me vejo como um centroavante parado, gosto de fazer parte do jogo, porque, muitas vezes, se ficar parado, dependendo da partida, você não toca muito na bola. Por isso, gosto de buscar o jogo, sempre mais centralizado, lógico, entre os zagueiros, e poder dar condição não só de fazer gol, mas poder dar passes para ajudar meus companheiros. Esse é meu estilo de jogo.

OP: Quais jogadores você tem como ídolos ou inspiração? E por quais clubes você sonha em jogar, seja no Brasil ou Europa?

MM: Dos jogadores que ainda atuam, tenho algumas inspirações, como o Neymar, sou muito fã dele, o Ibrahimovic, jogador do Milan, e o Cristiano Ronaldo, que é um exemplo de dedicação ao treinamento, de trabalho e de qualidade. São esses três jogadores que eu mais me inspiro. Quanto aos clubes que gostaria de jogar, é difícil falar, mas o sonho de qualquer jogador é jogar nos clubes de divisões superiores, entre os melhores, independente do clube, mas ter a oportunidade de ser visto contra os melhores, tanto no Brasil quanto na Europa. Esse é o meu maior sonho. Se eu tiver uma chance de estar lá na Europa novamente quero poder disputar contra os melhores, que foi o que sempre me motivou a subir de nível. Fazer parte de uma Liga Inglesa, Alemã, Espanhola ou de primeira divisão é um sonho, seja Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique, Borussia Dortmund, equipes da Inglaterra, enfim poder jogar contra os melhores é uma satisfação, significa que o seu trabalho está sendo bem feito e reconhecido. Quando você consegue disputar de igual pra igual com os melhores significa que você venceu, você teve o seu devido reconhecimento, seu trabalho valeu a pena. É isso que eu busco, competir sempre com os melhores.

Pelo Colégio Cristo Rei, Murilo (número 6) conquistou um título paranaense no futsal (Foto: Arquivo pessoal)
Murilo ao lado de Paulo Rink, na escolinha do Athletico-PR (Foto: Arquivo pessoal)
Rondonense Murilo Maia se destacou com a camisa do BKS, na Polônia (Foto: Arquivo pessoal)
Em 2019, atacante jogou pelo SG Kinzenbach, da Alemanha (Foto: Arquivo pessoal)
Ano passado, Murilo atuou pelo Grecal na 3ª divisão paranaense (Foto: Arquivo pessoal)
Murilo Maia esperou pelo voo de resgate em Varsósia, Capital da Polônia: “Minha vontade era estar na Europa, mas como não tinha noção da dimensão dessa guerra, resolvi voltar para casa e reiniciar, buscar novas oportunidades no território nacional” (Foto: Arquivo pessoal)
Na volta ao Brasil, alívio ao lado dos pais Juarez e Angélica: “Ter o apoio da família é fundamental para seguir sonhando” (Foto: Arquivo pessoal)
De volta ao Brasil, Murilo segue treinando e se preparando para a próxima oportunidade (Foto: Arquivo Pessoal)

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