“Eu descobri por acaso que era daltônico. Lembro que na minha infância tive muitas discussões com meu irmão sobre as cores, principalmente verde, vermelho e marrom, e derivados destas cores. Lembro uma vez que estávamos na lavoura e de longe vimos que um vizinho havia comprado uma colheitadeira nova. A discussão era se era uma SLC ou uma Massey Fergunson. Eu falava uma coisa e o meu irmão outra. Detalhe: SLC era verde e Massey era vermelha. Eu não lembro qual era, mas eu estava equivocado e ele certo. Aliás, sempre”.
O relato é do jornalista rondonense Jadir Zimmermann, que teve o diagnóstico de daltonismo apenas na adolescência, quando foi a uma consulta no oftalmologista. “Uma consulta em que fui diagnosticado com miopia, mas aí eu relatei o problema com as cores. Ele (o médico) fez alguns testes e confirmou o daltonismo, me explicando o que era e sugerindo evitar discutir o assunto. Disse também que não havia tratamento ou possibilidade de cura”, recorda-se.
Durante todos estes anos desde a descoberta de que era portador da doença, Jadir comenta que já vivenciou fatos inusitados e por vezes engraçados. Certa vez, por exemplo, ele comprou um Fusca verde achando que era marrom; e também já comprou roupa que achava ser cinza, mas era verde. “Algo que me irrita é que sempre que alguém descobre que sou daltônico vem aquela avalanche de perguntas: ‘que cor é essa? O que você vê ali? Que cor é aquela?’. Uma coisa para deixar claro: comparativamente, eu sei distinguir as cores. Por exemplo, as cores semafóricas. Se colocar o vermelho, o verde e o amarelo juntos, não tenho dificuldade alguma. Assim como não tenho dificuldades com cores bem definidas, como o vermelho Coca-Cola. O problema se evidencia quando olho as cores em separado ou quando são cores intermediárias”, explica.
De acordo com o rondonense, neste período foi possível aprender a associar certas coisas com a cor. “Lembro que olhando meus cadernos da infância, tinha muito desenho de árvore pintada de marrom. Hoje eu sei que qualquer folha é verde. Eu sei que Coca-Cola é vermelha. Eu sei qual a ordem das luzes do semáforo, independente da cor que enxergo”, comenta.
Embora seja jornalista e diariamente precise trabalhar com as cores, como no caso de tirar fotografias, Jadir garante que o daltonismo nunca lhe prejudicou. “Mas eu sei que jamais vou poder tirar brevê de piloto de aeronave (diploma dado aos que completam um curso de aviação), por exemplo. E eu nem queria mesmo”, brinca.
Doença genética
Daltonismo é uma doença genética e para entendê-la um pouco mais é preciso se recordar das aulas de Biologia em que eram estudados os cromossomos, que armazenam nossas estruturas de DNA. Conforme a médica oftalmologista Verônica Perazolo, todo daltônico já nasce com a doença, sendo que casos em mulheres são raríssimos, para não dizer quase que inexistentes. Isto porque o homem é XY, enquanto a mulher é XX. “Trata-se de uma herança genética ligada ao cromossomo assexual feminino e só existe no cromossomo X. Como o homem só tem um X, se esse cromossomo possuir característica de daltonismo, ele terá a doença e não conseguirá enxergar direito as cores. Já a mulher, para ser daltônica, teria que ter os dois XX de daltonismo. Então é algo extremamente raro”, afirma.
Diante disso, menciona a médica, a mulher passa a ser mais transmissora. “Se ela possui um X com daltonismo, pode passar isso para o filho, que pode nascer com a doença. A filha será outra que pode transmitir daltonismo. Se um homem com daltonismo tiver filhos só homens, encerrou o daltonismo na herança genética dele. Agora se tiver uma filha, ele pode transmitir o gene para ela, mas não necessariamente será daltônica, pois para isso teria que receber da mãe também”, detalha.
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